Não-Poesias | #1

Um dia vais estar em casa

ou na rua, a fazer a tarefa mais mundana:

a lavar o cabelo

a arrumar um armário

a encher o depósito

a comprar pão

e vais franzir o sobrolho porque

um peso que dormitava em ti há meses

levantou-se

Não vais encontrar o ponto em que deixaste de

querer deixar de existir

(que não é o mesmo que querer morrer)

e respirar vai voltar a ser um acto inconsciente

O coração é como a cauda de um lagarto:

a cada regeneração perde um pouco de si

nada que deva preocupar

os possuidores de um coração vasto.

Carina Pereira

in “Não-Poesias”

Neil Hilborn | Our Numbered Days

Há um poema, conhecido como OCD Poem, a ser partilhado há alguns anos pelas redes sociais. Volta e meia lá o volto a encontrar. Nele, Neil Hilborn declama de forma crua sobre o amor, sobre amar com transtorno obsessivo compulsivo, sobre ser amado por alguém com transtorno obsessivo compulsivo. É uma declamação punjente e que toca em toda a gente que a ouve.

Neil Hilborn editou um livro de poesia, chamado Our Numbered Days, e todos os poemas são tão atormentados quanto aquele que o tornou conhecido. O livro é uma viagem no meio da tempestade; lê-lo é como olharmos para um mar revolto com igual medo e reverência.

Carina Pereira

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Salvador

Lembro-me da minha mãe me contar que, antigamente, toda a gente lavava a loiça a correr no fim do jantar, para depois se juntarem todos em frente à televisão a ver a Eurovisão. Em criança ainda assisti a algumas edições do festival, embora não me recorde de quase nenhuma actuação Portuguesa e, aos poucos, e à medida que o festival deixou de ser um espectáculo onde Portugal singrava e muitas das actuações pareciam uma competição a ver quem era o mais estranho, acabei por deixar de de seguir o espectáculo. Conhecia, aliás, muito poucas pessoas que o faziam. O que, na geração dos meus pais, era um espectáculo que ninguém pensava sequer perder, na minha geração não passava de um encolher de ombros.

Entendi este ano que a Eurovisão ia ser um “negócio mais sério” quando vi vários artistas – e o Nuno Markl – a noticiarem no facebook os nomes que iam concorrer para levar uma canção à competição: entre eles a Márcia, o Rui Drummond, o Fernando Daniel e o Salvador Sobral. O Salvador Sobral que, logo após as primeiras semi-finais, ainda apenas contra artistas Portugueses, se tornou no nosso Salvador.

A música era toda ela Luísa Sobral. O toque de jazz, a letra simples mas sentida; há autores e músicos que têm um toque qualquer, uma impresão digital que não nos deixa enganar em relação à autoria de uma peça, e a Luísa é um deles.

Com a gentileza da voz do Salvador, uma música já de si bonita, virou algodão doce para a alma.

Ontem perdi a primeira actuação do Salvador; tão habituada que estou a ver os espectáculos Eurovisivos – not – esqueci-me do concurso e acabei por marcar um café com amigos, enquanto os meus outros amigos – Portugueses, claro está – se encontravam na casa de uns para verem o espectáculo. Quando o Salvador cantou pela primeira vez ia a caminho para me juntar a eles. Não há problema, disse-lhes eu, o Salvador vai ganhar e depois eu vejo-o a cantar no fim. E vi.

Gritámos cada doze pontos como se fossem golos, roemos as unhas quando os doze pontos iam para a Bulgária, vi a Itália – um dos meus favoritos – a ir descendo e ficar aquém das minhas apostas, mas vi, sobretudo, Portugal a levar os doze pontos uma e outra vez e, em toda a votação, a firmar-se de pedra e cal no primeiro lugar. Não saiu mais dali. Quando a canção com os segundos pontos mais altos da noite foi a Bulgária, o Salvador e a Luísa olharam um para o outro, pensando que tinham ficado em segundo lugar e nós exultámos com um resultado que já se adivinhava. A equipa Portuguesa finalmente entendeu quem eram os verdadeiros vencedores da noite e, deste lado, nós rímo-nos e abraçámo-nos e, por momentos, caminhámos dois mil quilómetros de volta ao nosso país. Nem sempre precisamos de sair do sítio para chegarmos onde o nosso coração mora.

O que mais me tocou foi a Luísa ter subido ao palco, ao lado do irmão, e a forma como o público rejubilou quando ela começou a cantar. Pois é, não temos só um artista capaz de vos fazer sentir a música, temos dois. Bem, temos muitos, naquela noite eram apenas aqueles dois.

Ser Português é muito isto. Vamos perdendo esperanças quando as coisas não nos correm de feição, queixamo-nos de tudo numa atitude pessimista e saudosista, muitas vezes com saudade de tempos que nem existiram, ou que são vistos através de uma camada de pó deixada pela passagem do tempo. Mas há sempre ali um canto do coração onde o mar nos vem beijar os pés, uma frincha por onde o fado vai entrando à socapa, um orgulho que trepa peito acima e grita sem contenção, nem dúvida “Portugal!”.

Carina Pereira

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Gato Preto, Gato Preto

O gato era vadio. Preto, de jeito dócil, não hesitou em aproximar-se quando ela colocou o pires com leite do lado de fora da porta. Quando acabou de beber, miou a pedir mais e enroscou-se nas suas pernas. Estava ferido numa das patas e mancava, mas parecia esquecido disso quando ela lhe trouxe o segundo pires e alguma coisa que sobrara do almoço para ele comer. Ficou por ali a tarde toda, depois desapareceu. No dia seguinte, quando Rita chegou da escola, lá estava ele outra vez. A mãe da Rita, impaciente, mandava-o embora.

– Deste comida ao gato ontem, não deste?

Não precisava de uma resposta; o tom era zangado, furioso mesmo. Olhava a Rita como se ela tivesse cometido uma atrocidade, como se dar comida e tratar de um gato ferido fosse crime maior. A Rita encolheu os ombros e esperou que a mãe fosse para dentro. O gato já tinha desaparecido de novo, afugentado pela vassoura que a mulher mais velha tinha brandido contra ele. Voltou no dia seguinte, de manhã cedo.

– Porque é que não podemos ficar com ele? Um bocado de comida e água não nos vai fazer assim tanta falta.

A mãe olhou-a como se a quisesse enxotar também com a vassoura, resmungou algo indecifrável e avisou-a que se pusesse mais comida para o gato, ia ter de se haver com ela. A Rita não quis saber do aviso; antes de lavar a loiça, enquanto a mãe tratava da roupa do pai para o dia seguinte, meteu os restos num saco, deu-lhe um nó e escondeu-o dentro da camisola. Mais tarde, quando os pais viam televisão na sala, fez de conta que precisava de encher os pneus da bicicleta e foi lá fora. Deixou a comida perto da garagem, no chão. O gato havia de encontrá-la antes da mãe dela.

Quando saiu para a escola, no dia seguinte, viu-o no quintal e sorriu, sem a mãe ver.

*

Tinha-se esquecido do trabalho de Português em casa, junto ao velho computador que era do pai, mas que o pai a deixava usar quando os trabalhos da escola assim o exigiam. Semanas de trabalho, a entrega era hoje e ela tinha-se esquecido. Contava para quarenta por cento da nota, precisava de o ir buscar. Ia faltar à aula de matemática, mas não fazia mal. Nunca faltava, era boa aluna, se o professor lhe viesse pedir justificações acerca da falta só teria de dizer a verdade, mas não ia colocar em risco a nota de Português. A professora podia não acreditar na desculpa do esquecimento, não lhe dar oportunidade de entregar um dia mais tarde, não estava para arriscar.

Caminhou até casa, o mais rápido que conseguiu e encontrou-a vazia. A mãe fazia pequenos arranjos e tinha a sua oficina no quarto extra, mas não estava lá e a porta da entrada não estava fechada à chave.

Rita recolheu o trabalho, que estava no lugar onde ela o esperara encontrar, e pôs-se de novo a caminho. Melhor assim, desta forma não teria de explicar à mãe que se tinha esquecido do trabalho, nem precisava de falar da falta a matemática, que daria um sermão de durar dias.

Olhava em frente enquanto caminhava, mas pareceu-lhe ver algo na sua periferia; uma sombra a mover-se por entre a floresta. Parou e procurou. Ali estava. Ao fundo, uma figura distinguia-se, mexendo-se por entre as árvores. Era a mãe dela. Empunhava uma pá e parecia estar a alisar a terra.

Um frio na barriga: Rita tinha a estranha sensação de que aquilo significava sarilho, soube-o quase imediatamente, mas mesmo que as suas piores suspeitas se revelassem verdadeiras, nada havia a fazer agora. O dia arrastou-se mais lentamente do que o normal. Quando regressou a casa da escola, o gato não estava lá.

Planeou tudo ao pormenor. Ao Sábado os pais iam às compras para a casa. Esperou pelo Sábado. Os pais arrancaram e ela aguardou ainda meia hora. Depois, foi à garagem buscar a pá e pôs-se a caminho. Sabia para onde se dirigir, só tinha de encontrar um pedaço de terra remexida. Quando o encontrou, começou a escavar e viu os seus receios confirmados. Voltou a cobrir a cova com terra e voltou para casa.

Às vezes, a espera é indispensável.

Deitou-se, de luz apagada, e aguardou pacientemente. Um minuto depois de ouvir a sua mãe a entrar no próprio quarto para se deitar, a gritaria começou.

Levantou-se a correr, encontrou o pai a acalmar a mãe, que se contorcia num ataque de histeria, ar aterrorizado. Na cama, espalmado como um corpo preparado para autópsia, estava o gato preto. Esquartejado, todo ele aberto, de tripas de fora.

Rita gritou – tinha encenado bem essa parte –  e foi a chorar para o quarto. A comoção na casa demorou a acalmar, as questões de quem teria feito aquilo, as suspeitas em voz baixa – quando já pensavam que Rita estava a dormir – de que algum vizinho a tivesse visto a afogar o gato e, depois, a enterrá-lo. O medo de algo sobrenatural, um castigo divino, talvez.

A Rita sorriu. Para actos atrozes, castigos atrozes.

in “Estórias Da Minha Aldeia”

Como Se Eu Percebesse Alguma Coisa Disto | Auto-Estima vs Amor-Próprio

au·to·-es·ti·ma
(auto- + estima)

substantivo feminino

Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios actos e pensamentos.

a·mor·-pró·pri·o

substantivo masculino

Respeito que cada qual tem de si mesmo, da sua dignidade.

(Dicionário Priberam de Língua Portuguesa)

 

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa.

Nunca tinha consultado as definições antes, foi uma conclusão a que cheguei sozinha e, de certa forma, me mudou. Ou talvez eu tenha mudado primeiro e, daí, tenha chegado a conclusão.

Há quem se orgulhe de não querer saber o que a sociedade pensa, mas não é isto já um pensamento criado a partir do que a sociedade pensa? Somos todos um molde proveniente da forma como somos criados, de aceitarmos ou repudiarmos os valores que nos passam, de nos rebelarmos ou condicionarmos. Mesmo não querer saber o que a sociedade diz é um gesto dirigido à sociedade: fugir de normas é viver, ainda assim, do ponto de partida delas. E a sociedade é cruel.

Penso que cada vez mais se apoia o amor-próprio, o aceitarmo-nos da forma que somos, mas continua-se a cair no erro de enaltecer uns para rebaixar outros. Uma publicação que é uma ode a alguma coisa, criticando outra, é tão inútil como uma publicação que apenas critique. As coisas que têm valor só precisam de si mesmas.

É-me impossível escrever isto sem que se torne pessoal, como quando escrevi a crónica  Os Destruidores De Amor Próprio, que acabou por ser publicada na plataforma Capazes e é um retrato de algo que eu, tal como todas as mulheres (e alguns homens, mesmo que sejam a excepção) sentiram de perto.

Ainda no outro dia, ao telefone, o meu pai aproveitou o embalo de uma cena que se passou com a minha sobrinha, para me dar a achega de que se ao menos eu tivesse uma auto-estima mais elevada, embora eu tenha crescido a ouvir coisas que me levaram a acreditar que eu só seria mais bonita ou mais desejável se seguisse certas normas, como usar maquilhagem ou saltos altos, ou roupas mais femininas (o que quer que isto signifique). Basicamente, precisava de duas horas para sair de casa, em vez de demorar vinte minutos a tomar banho e a vestir-me. Eu uso maquilhagem de vez em quando, mas é quando e se me apetece, depende do esforço que estou disposta a fazer naquele dia e para onde vou; admiro quem tem paciência para tratar de si todos os dias com pormenor, porque tem uma habilidade para estas coisas que eu não tenho. O curioso é que, mais uma vez, a mesma sociedade que nos diz para tratarmos de nós de forma a sermos desejáveis aos olhos dos outros é a mesma que nos chama fúteis quando o fazemos. Há ali um equilibrio qualquer mas, a linha é tão fina, que se torna difícil não ficar atrás dela ou não a ultrapassarmos completamente.

Há, no entanto, algo que escapou ao meu pai quando me disse que eu precisava de mais auto-estima, o ponto que eu não cheguei a debater porque não estou para gastar energias em coisas que nem sempre são compreendidas mas que, venha o mesmo assunto à baila e conhecendo-me, vou inevitavelmente abordar: auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa e eu sou livre de não gostar do que vejo ao espelho, de me queixar mesmo não querendo – ou não podendo – fazer nada por causa disso e, apesar das queixas, gostar de mim na mesma. Nem sempre é fácil, mas é manobrável e, com o tempo e alguma sorte, aprendemos. A mim, demorou 28 anos a perceber isso e uma série de situações que me deixaram farta de não gostar de mim mesma. É que não gostarmos de nós próprios dá um trabalho do catano.

Eu não me acho bonita, nem tenho a figura que quero (há aqui uma coisa que posso mudar, outra que não). É o que é, o que sempre foi e nós temos quase sempre uma visão reprovadora de nós mesmos. Mas, caraças, eu gosto de mim à brava. Não de uma forma egotista que não me dá espaço para gostar imenso dos outros, ou que me faz achar que sou melhor do que eles, mas na certeza de que eu mereço ser feliz, de que eu mereço ser respeitada e adorada e todas essas coisas boas que temos direito a receber quando somos bons para os outros. Criticar-me a mim própria não dá aos outros o direito de acharem que podem fazer de mim gato-sapato, ou que eu vivo à custa das migalhas que me dão porque não consigo ganhar o meu próprio pão. Tenho uma auto-estima baixa, sim, mas o meu amor-próprio conhece bem os ares rarefeitos. É disto que precisamos, de sabermos que, mesmo sem gostarmos de nós, temos o direito a que outros gostem. Que, mesmo sem olharmos com confiança ao espelho, consigamos ver se algo é, ou não, suficiente para aquilo que somos como pessoas.

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa. O amor-próprio é muito mais importante e mais fácil de encontrar, porque se cultiva desde dentro e, se a embalagem nem sempre pode ser modificada, o conteúdo pode ser moldado, sempre. Ser bondoso também se aprende e a bondade merece sempre ser amada.

Podem olhar-se ao espelho e não gostar daquilo que vêem, mas saiam de lá de cabeça erguida, a saber que ninguém pode usar o que vocês não gostam contra vós. Não sou bonita, e depois? Gosto suficientemente de quem sou para saber que não é isso que define como os outros me tratam. E tentem tratar-me mal, a ver se eu deixo.

Carina Pereira
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Paula Hawkins | Into The Water

O primeiro livro de Paula Hawkins foi, de tal forma, um bestseller que é quase impossível ler o segundo livro sem o comparar com The Girl On The Train. Por outro lado, as histórias são tão distintas, que também me parece injusto fazê-lo.

Into The Water conta a história de uma pequena vila, do rio que a percorre e das mulheres que ali perderam a vida. A questão que se coloca entre murmúrios é: entraram estas mulheres nas águas turbulentas por vontade própria, ou há uma outra realidade, mais perturbadora?

A história é contada, no estilo a que Hawkins já nos habituou no primeiro livro, na primeira pessoa, do ponto de vistas das várias personagens que compõem a trama. No entanto, sendo os narradores fidedignos, cada um tem as suas teorias, as suas verdades, uma peça que encaixa em tudo o resto, acrescentando elementos importantes para entender o que realmente se passa.

A verdade que se busca na história vai sendo revelada pouco a pouco e o leitor consegue ir adivinhando quem fez o quê e porquê. É aqui que este livro se afasta um pouco do The Girl On The Train, porque a primeira obra da autora deixa-nos em espectativa até ao final, tornando difícil pousar o livro. Into The Water é igualmente bom, mas a minha ânsia em acabá-lo, em saber mais e mais, foi menos premente. Daí ser injusta a comparação, porque são ambos excelentes. Se tenho de retirar algum ponto ao Into The Water, é pelo facto de de terem ficado algumas coisas por responder, mas suponho que, se na vida nem sempre conseguimos obter todas as respostas, a autora tenha deixado essas pontas soltas intencionalmente.

Da minha parte, fiquei satisfeita com a história. Acredito que Paula Hawkins nos vai continuar a entreter com os seus enredos cheios de mistério.

Carina Pereira

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