O Dia Em Que Eu Pensei Que Ia A Um Concerto De Natal E Acabei No Meio De Um Culto

(A minha amiga vai-me matar por eu contar isto, mas se eu não conto isto, eu morro.)

Uma amiga minha foi convidada para um concerto de Natal e pediu-me para a acompanhar. O facto de ela ter dito que o concerto de Natal era com música religiosa não me surpreendeu porque, bem, era um concerto de Natal. Ela tinha-me também dito que era um concerto de Natal rock, por isso, na boa, lá concordei ir; na altura em que ela me convidou eu não tinha muito mais a fazer a não ser ficar em casa sem fazer nada.

Chegámos ao local do concerto e, logo à entrada, há um placard bem grande com o tema do concerto: Wake Up 4 Jesus. Ohoh, pensei. Oh.oh.

Entrentanto, em conversa e já sentadas nos nossos lugares, a minha amiga menciona que aquilo é um concerto organizado por umas pessoas com quem ela trabalha, que é organizado pelo grupo religioso do qual a cliente dela faz parte, que é Evangelista. Grande Ohoh. 

(A minha amiga não fazia ideia daquilo em que consiste a práctica da religião Evangelista. Já eu, para o bem ou para o mal, sabia perfeitamente.)

O concerto começou pouco depois das 19h00 e a minha amiga tinha prometido à cliente lá ficar até às 20h30, visto que tinhamos uma festa de aniversário nesse dia.

As músicas não eram – apesar do conteúdo religioso – más. A banda era boa, até. Tudo corria bem até a sala inteira se começar a levantar e a cantar de braços erguidos, até eu ouvir Améns gritados como quem num concerto de rock entoa “hell, yeah!”, e até o vocalista começar a pedir às gentes para olhar para o lado, para a frente e para trás, e abraçar os vizinhos. Olhei para a minha amiga em pânico e pedi-lhe que, pelo amor de Deus – ahah, que ironia que essa noite foi em relação a expressões linguísticas – olhasse para mim, para que ninguém do lado, da frente ou de trás, nos viesse abraçar.

Senti-me tão hipócrita e tão cínica naquela hora, não porque eu ache que sou obrigada a acreditar numa religião, mas senti-me como se eu fosse uma espiã ali infiltrada; eu não partilho as crenças daquele grupo, mas ali estava eu a ver o espectáculo e a achar uma loucura e exagero a fé dos outros. Ali estávamos nós a tentar não nos rirmos, por piada e por quase pânico, por nos sentirmos quase no meio de um culto. E, caraças, nunca uma hora e meia demorou tanto a passar.

De repente, a banda sai do palco, o vocalista agarra numa Bíblia e eu quase que morri ali na hora. Pronto, é agora que nos descobrem, pensei. É agora que nos exorcizam os nossos demónios interiores. Mas não. Ele falou e falou, basicamente disse que havia pessoas que tinham à sua frente o caminho para a liberdade – o Senhor – mas que achavam, porque ouviam os maus conselhos de outros, que a liberdade não existia. E eu ali, a saber que aquilo, não sendo dirigido especificamente a mim, era uma mensagem para mim e para todos os não-crentes.

Que Deus nos livre disto, sussurrei à minha amiga, apercebendo-me de imediato que Deus é que nos tinha colocado ali.

Finalmente, o sermão acabou, as 20h30 chegaram e nós saímos de mansinho. Se Deus quiser, para nunca mais.

Carina Pereira

 

Nota: não tenho qualquer tipo de problema com quem acredita, tem fé e a practica. Para mim, foi simplesmente estranho ver-me num ambiente quando não sou crente numa religião e não a practico. Senti apenas que estava num lugar no qual não tinha sequer direito a estar. E, para mim, isso foi tão assustador quanto hilariante. 

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Não-Poesias | #12

Que loucura viver

Sem se ser

Louco

Que loucura

Se cada beijo

Não souber a pouco

E o amor

Não for temor

De te perder

Que loucura achar

Que sensatez

É viver no meio

No entre

Se é o invés

Que loucura viver

Sem se ser

Louco.

Carina Pereira

in “Não-Poesias”

 

Uma História Sobre A Minha Mãe

Eu ligo aos meus pais aos fins-de-semana, e esta semana terminei a chamada com uma história que, pessoalmente, achei hilariante e, nos meus trinta anos de vida, a minha mãe nunca me tinha contado.

Começou porque o meu irmão faz um pão-de-ló excelente, mas há um ingrediente que ele lá coloca que ninguém sabe qual é, excepto a minha sobrinha, que não o revela a ninguém. Vai daí, a minha mãe nota que ela é como eu era em criança: segredos eram sagrados e não se contavam. Mas, isto não era bem assim, porque houve uma excepção, uma história que me contaram e que eu, na ânsia de que um primo do Brasil que nos visitara me achasse engraçada, acabei por contar, colocando uma prima em xeque. Afinal, vendi o segredo dela só para ter piada, e lá se foi a minha reputação de infância de nunca contar nada a ninguém.

Mas vamos à história da minha mãe.

Quando ela tinha vinte e um anos havia um rapaz interessado nela; o jovem era mais novo que ela uns três anos, então a minha mãe não estava interessada nele porque o achava muito novo – três anos, imaginem a desgraça! No entanto, em vez de lhe dar logo o fora, explicou-lhe que podiam continuar a ser amigos e quem sabe, até podia ser que um dia ela viesse a gostar dele (que jogo de cintura, mãe!). O moço, as esperanças ainda não estando todas por terra, perguntou-lhe se podia ir esperá-la à fábrica onde ela trabalhava de vez em quando, para saírem como amigos, ao que a minha mãe responde que sim.

Entretanto, uma amiga da minha mãe informa-a de que há um primo dela que tem os olhos nela, se a minha mãe estaria interessada em ir sair com ele (isto é que era agenda social, não saí nada a ela) e a minha mãe disse que não o conhecia bem, mas para mandar vir. E ele veio.

No dia seguinte, estava a minha mãe na fábrica a preparar-se para sair, quando uma colega nota que estão dois rapazes lá fora e pergunta eita, quem são as duas que hoje vão namorar?, a minha mãe olha pela janela… e eram os dois para ela!

Escusado será dizer que ela a modos que “panicou” um bocadinho, explicou às amigas da fábrica o que se tinha passado e tentaram ver a melhor forma de resolver a encrenca. Afinal, ela tinha dito ao primeiro moço, o mais novo, que podia aparecer de vez em quando na fábrica. E ele apareceu. Só com o pequeno inconveniente de ter aparecido no mesmo dia em que a minha mãe tinha um date combinado com outro. Coisas da vida.

Vai que não vai, quando a minha mãe olha de novo pela janela, os dois tinham ido embora. Mais tarde, ela veio a saber que, tendo metido conversa um com o outro, os dois moços chegaram à conclusão que estavam ali à espera da mesma. Pior, tinham os dois afirmado que estavam à espera da namorada. Daí, saíram de fininho.

Eventualmente, a minha mãe acabou por namorar com o primo da amiga e, eventualmente, terminou com ele porque, segundo ela, era mais velho do que ela, mas mais imaturo do que o outro rapaz, que ela achara novo demais.

Isto tudo só para demonstrar que a minha mãe tem muito mais dating game do que eu alguma vez tive, ou vou ter. De todas as coisas que eu poderia ter herdado…

Carina Pereira

Não-Poesias | #11

Ah, quando dizemos adeus!

Esse adeus que vamos desfiando

Dos laços que ainda nos prendem

Qual barco seguro atracado ao cais.

Esse adeus que afinal

É sempre um até logo

Porque a razão, por ela, não volta

Mas o coração

Ah, o coração sempre ganha.

Carina Pereira

in “Não-Poesias”

Nesta Rua

Foi nesta mesma rua

Que tanta vez

A minha alma tomou bênção e maldição;

O que me sobra agora,

Se em tudo o que transbordaste,

És só memória que me enche a solidão?

Nesta rua entreguei contra o teu corpo

Coisas que só o amor sabe fazer

E a cada história que levavas dos meus lábios

Era eu menos e, ainda assim, mais

Do que viria hoje a ser.

Nesta rua inventei novos caminhos

E davam todos eles ao teu ponto de começo;

E em sorvos lentos eu acabava no teu peito

Em sorvos lentos veio o fim que agora meço.

Cada pedra foi alicerce e foi tropeço

A cada curva eu te perdia e te achava

Nesta rua foste o mapa que eu seguia

Quando, ao perder-me, me encontrava.

Há-de haver nesta rua algum recanto

Que tu não habites ou possuas

No entretanto

Vou olhando

O fundo de copos vazios

Sem memória de outras ruas.

Carina Pereira

Não-Poesias | #9

Fujo de onde estás.

Viajo por aí para além de

Outro oceano

Outro continente

Outro hemisfério.

É inútil fugir para longe daquilo

Que reside em nós;

Carrego-te assim à volta do mundo

Como quem carrega o fardo de uma morte anunciada.

Não posso fugir de mim

logo

Não posso fugir de ti.

Carina Pereira

in “Não-Poesias”