Semana Sem Lixo | Quem Alinha?

Como contei aqui e aqui, em Julho comecei a fazer os possíveis para viver sem fazer lixo. Ou melhor, a fazer o menos lixo possível.

Até agora, um mês e meio mais tarde, tem corrido bem. Já levava os meus próprios sacos para o supermercado, para não usar sacos plásticos de qualquer espécie, – fiz até sacos de pano para pesar fruta e vegetais – mas comecei a tomar outras medidas para evitar comprar produtos embalados e, sendo possivel comprar a granel, faço-o. Deixei de comprar produtos que são vendidos em plástico. Sim, até as minhas batatas fritas de pacote deixei de comprar. Mas há sempre locais que vendem gomas avulso, por isso levo o meu próprio saquinho para as pesar e nem tudo fica perdido.

Claro que viver sem lixo também passa por outras coisas: usar o nosso próprio copo para comprar café em vez de aceitar os copos descartáveis, usar guardanapos de pano em vez de papel, deixar de aceitar palhetas de plástico, trazer a comida que sobra de restaurantes, ou a de take-away, nos nossos próprios tupperwares, comer gelados de bola com a nossa tigela e colher, fazer até os nossos próprios produtos em casa, em vez de comprar em embalagens (e, sim, é possível fazer mutos produtos de higiene em casa). Aqui não existem muitos sítios para comprar café para beber no caminho, mas em Londres cheguei a comprar chocolate quente algumas vezes e pedi para encherem o meu próprio copo. Uma das vezes tive 25p de desconto, da outra vez até me deram o chocolate quente de borla, e das duas vezes me elogiaram efusivamente o copo (porque parece uma lente da Canon).

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Não fui a tempo de impedir que me dessem o guardanapo de papel

 

Há duas semanas entrei até em contacto com o supermercado onde costumo fazer as compras semanais, a saber se era possível eu comprar lá carne (porque é mais barata do que no talho e, já que lá vou todas as semanas, é mais fácil comprar a carne lá) trazendo-a no meu próprio tupperware. Embora o supermercado tenha talho, eles não vendem carne ao balcão, apenas a colocam em couvettes de plástico na zona dos frios para o pessoal pegar. O chefe do talho de lá então ligou-me e combinamos de eu levar o meu tupperware e eles preparam a carne para eu trazer. Assim escuso de usar uma embalagem de plástico que vai directamente para a recilagem.

Quanto ao lixo orgánico, comecei a fazer compostagem no meu apartamento com a técnica Bokashi. Tem funcionado bem e, sendo que o lixo orgânico era o que mais enchia o meu caixote do lixo, isso tem feito uma enorme diferença e penso até que, sem composto, a quantidade de lixo que acumulo não teria mudado assim tanto, pois eu já reciclava tudo o resto que dava para reciclar.

Em duas semanas abri o meu balde do lixo apenas duas vezes, para deitar fora pequenos pedaços de esponja de um projecto que fiz (um pequeno balde onde guardo os restos orgânicos para o composto) e para deitar fora um bocadinho de plástico que partiu de uma garrafa de spray que uso para regar plantas e que não daria para reciclar.

De certa forma, o mais difícil pode ser começar, porque vamos encontrar barreiras em todo o lado, mas num instante adaptamo-nos ao que há e aprendemos a fazer as nossas compras semanais de acordo com esta forma de viver sem lixo. Agora dou por mim a fazer um exercício mental durante as compras. Frutas e vergetais são fáceis, porque se encontram várias coisas sem embalagem, mas no que toca a productos processados, opto então por comprar embalado em vidro, papel/cartão ou metal.

Porquê esta aversão tão radical ao plástico e não às outras formas de embalamento? Porque o plástico não é eternamente reciclável. Mesmo o plástico que dá para reciclar vai acabar num aterro eventualmente. As garrafas de plástico que colocamos na reciclagem um dia poderão tornar-se uma mesa, ou uma daquelas cadeiras para crianças do Ikea. Quando isso não for mais usado, não há como reciclar esse tipo de plástico e pronto, lá é deitado fora com o lixo comum. Depois demora décadas a desaparecer, já para não falar que a maioria do plástico deitado fora acaba nos oceanos e, eventualmente, na nossa mesa. Sim, porque os peixes não têm entendimento suficiente para entender que não se deve comer plástico.

Já o vidro, o metal e a o papel, podem ser recicláveis uma e outra vez.

A próxima semana, de 4 a 8 de Setembro, é a semana sem lixo. Quem quiser experimentar viver uma semana sem produzir lixo (pelo menos lixo não-reciclável e plástico) pode juntar-se a mim. É um desafio que se pode tornar numa forma de viver, um esforço para ajudar o nosso planeta. Embora requira algum sacrifício, não é assim tão difícil quanto parece.

Eu tenho falado bastante sobre isto de viver sem lixo num blog em Inglês, que criei para relatar o meu processo de mudança, assim como no Instagram associado ao blog (não no meu pessoal). Lá, vou contando as minhas mudanças, aquilo que vou experimentando e vai resultando, ou não.

Embora eu não conheça muitas bloguers Portuguesas ligadas a isto, porque os sites que sigo e os grupos de que faço parte são Ingleses, posso convidar-vos a fazer parte desta semana Zero Waste aqui, e deixo-vos um blog Português que sigo, onde também podem encontrar dicas.

No meu texto deste mês para a plataforma literária Book Riot, falei sobre Zero Waste e de livros que nos podem ajuar a entender melhor o que é isto de viver sem lixo.

Carina

 

 

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Por Onde É Que Eu Tenho Andado

A querida autora do blog O Miau Do Leão enviou-me um e-mail a perguntar se estava tudo bem, porque eu já não fazia publicações há muito tempo. E tem toda a razão.

Nas últimas semanas – meses? – tenho desleixado um pouco o blog, o que é uma pena, até porque entretanto recebi imensos seguidores na página do facebook. Adivinho que sejam resultado do artigo que escrevi sobre o copo mentrual, partilhado pela MeLuna e por mais algumas pessoas, acabando por ter imensas visualizações.

Aos novos seguidores, obrigada e sejam bem-vindos!

Aos antigos também sinto que devo uma explicação. Eu sei que já não é novo eu ter alturas em que escrevo cinco posts num fim-de-semana e depois perder o pio semanas a fio. Deve-se, em geral, a falta de inspiração ou tema, mas desta vez a culpa foi do lixo. Sim, ouviram bem, do lixo.

Na minha publicação anterior falei-vos que comecei a seguir um estilo de vida zero waste. Isto não significa que eu vendi tudo o que tinha e me retirei para um mosteiro em meditação e jejum – não que haja alguma coisa de errado com isso – significa, em tom muito resumido, que passei a tentar comprar coisas a granel, sem embalagem e, aquilo que não consigo comprar sem embalagem (que é a maioria das coisas por estas cidades pequenas), ter ao menos em conta que compro embrulhado em papel ou metal e reciclar tudo o que é reciclável (o que eu já fazia, na verdade). Comecei também a fazer compostagem do lixo orgánico. Quando compro comida ou bebida fora de casa, tento levar as minhas próprias caixas e copos, em vez de aceitar as embalagens, copos e palhetas que me dão e são de deitar fora.

Claro que eu vos falei sobre isto num post, fiz uma página no cabeçalho onde iria colocar tudo o que se referisse a zero waste e depois me pus a milhas e fui criar um site a contar a minha experiência… em Inglês. Sou uma desnaturada.

A verdade é que senti que havia mais partilha em Inglês do que em Português e eu queria começar isto com um sentido de comunidade. Para ter a certeza, também, que não estava a contar a minha história para “o ar”. E para chegar a mais pessoas que me pudessem ajudar a fazer o que é preciso para garantir que posso continuar a viver o mais possível sem fazer lixo.

Claro que eu não podia começar a ser zero waste sem pesquisar sobre isso, sem obter informação e ler outros relatos, então acabei por ocupar imenso do meu tempo estas últimas semanas embrulhada em aprender como fazer os meus próprios produtos, a conhecer os vários métodos de compostagem, daí me ter afastado completamente deste blog.

Mas não o abandono. Este foi o meu primeiro blog a sério e de vez em quando lá o deixo no porto, com um beijo e uma continência, mas o meu navio acaba sempre por atracar aqui na volta da maré. Prometo até começar a escrever aqui sobre esta minha experiência, que é para durar, e em Português, claro. Por isso fiquem desse lado, que eu entretanto partilho resumidamente o que tenho andado a fazer nestas duas semanas.

Se têm curiosidade e querem saber já, podem sempre dar uma vista de olhos ao site zerowasting.wordpress.com, e à página do Instagram, onde faço publicações quase diariamente. Há até quem já por lá me tenha encontrado acidentalmente, sem nomear nenhuma T. de um certo Life’s Textures. 😉

Carina Pereira

Zero Waste Life | Intro

Dei de caras com o termo Zero Waste Life há uns anos, quando me deparei online com um vídeo da autora do blog Trash Is For Tossers.

Pareceu-me extremamente ambicioso – e difícil – viver sem fazer lixo. Ou, pelo menos, sem fazer lixo que não seja reciclável/compostável. Melhor ainda, fazer só lixo que seja upcycling em vez de downcycling. (O plástico, por exemplo, tem uma vida reciclável muito curta, acabando rapidamente em aterros, daí se dizer que é downcycling.)

À custa disto, encarava a ideia de Zero Waste Life como algo impensável para mim, uma vez que vivo numa cidade super pequena, onde tenho dificuldade em encontrar ingredientes básicos, quanto mais encontrar lojas que vendam avulso.

Obviamente que o bolso também pesa; infelizmente, quase tudo o que é natural, ou biológico, ou mesmo o pouco vendido avulso, acaba por ser mais caro. Eu que o diga, que quero comprar menores quantidades de certas coisas rapidamente perecíveis e acabo por pagar mais (meio litro de leite, por exemplo, custa-me à volta de €0.80, enquanto 1L me custa €0.53. O problema é que, quando compro o litro, por ser mais em conta, regra geral acaba metade no lixo. Entendem o meu problema?).

Há umas semanas descobri um blog chamado Pick Up Limes, com receitas mais saudáveis; não consegui ainda mudar para uma dieta vegetariana, mas ando a pesquisar receitas simples e saborosas para comer o menos carne possível.

Comprei um robot de cozinha e, depois de fazer leite em casa, e de decidir começar a fazer hummus, manteiga, iogurtes, molho tahini, manteiga de amendoim e polpa de tomate (e o mais que me apareça) – para tentar acabar com o desperdício e poupar umas coroas – acabei nas teias perigosas do DIY e adorei. Talvez por estar nesta mentalidade mais simples, de melhorar no que consigo, esta semana lembrei-me também de pesquisar a existência de papel de cozinha e swiffers reutilizáveis.

Como sabem, já falei aqui, eu uso o copo menstrual e passei também a utilizar pensos higinénicos reutilizáveis. Em vez de papel de alumínio para embrulhar sandes e pedaços de legumes, ou para tapar comida que fica guardada no frigorífico, utilizo Beeswrap, que ensinei a fazer aqui. Não uso discos de algodão para retirar a maquilhagem, mas aqueles protectores de mamilos, que posso lavar e voltar a usar. Levo sempre sacos comigo quando vou às compras (tenho de começar a fazer isso também nas lojas de roupa, até porque aqui, nos supermercados e lojas sem ser de roupa, não há sacos de borla), e já não trago fruta ou legumes avulso em sacas individuais de plástico, uso um saco de pano ou meto no saco onde levo o resto das compras. A maior parte destas coisas já o faço há bastante tempo, por isso a minha tentativa de criar menos lixo tem sido progressiva, mas lenta. Daí, a pensar onde é que podia começar a reduzir lixo, me ter lembrado do papel de cozinha e dos swiffers.

Encontrei o que estava à procura. Existe rolo de cozinha reutilizável, assim como swiffers. São ambos feitos em bamboo; o rolo traz 20 folhas e cada uma dessas folhas pode ser lavada até cem vezes. Já o pack com as swiffers para o chão traz oito e a regra das lavagens mantém-se. Como é feito com bamboo, em vez de papel, é melhor para o ambiente – o bamboo cresce muito mais rápido do que uma árvore – e pode ser usado para decompostagem.

Em termos de preços é obvio que fica mais caro. Por pouco mais de €25 comprei um rolo e um pack de swiffers (já com os portes, de €6.99). Pensando nas vezes que cada folha é reutilizável, tenho a certeza que vai acabar por me sair mais barato. Além disso, deixo de deitar papel fora a torto e a direito. Bem sei, podia optar por usar guardanapos de papel, mas para certas coisas o papel de cozinha funciona melhor, é mais absorvente (quem é que segura numa tosta com um guardanapo?), e as swiffers são mais práticas para usar diariamente – perco imenso cabelo – do que estar a pegar no aspirador.

(Os rolos são estes, da marca Bambooee, farei uma review completa assim que os receber.)

Daqui a começar a pesquisar novamente formas para uma Zero Waste Life, foi um passo pequeno. Neste fim-de-semana pouco mais fiz do que pesquisar sites, blogs e páginas de youtube. Claro que, como chegou, a vontade de produzir menos lixo pode desaparecer, por isso decidi ir contando a minha experiência, e as coisas que realmente consigo mudar, aqui no blog. Preparem-se para receitas de detergentes e afins de fazer por casa, e novos produtos naturais de substituição que encontre.

Bem sei que é difícil conseguir o objectivo morando num sítio tão pequeno, e sei que economicamente nem sempre vou conseguir acompanhar esta ideia, mas gostava de tentar fazer o meu melhor naquilo que for capaz.

E vocês, já pensaram em adoptar uma vida com menos lixo?

Carina Pereira

 

Uma Imagem Mais Mil Palavras #1 e 2| Colaboração

Quando as imagens e as palavras se juntam, quanto valem?

Esta parceria é feita a seis mãos – Eu, a Filipa e a Viviana – e, com mais ou menos mestria, cada uma lá vai debitando imagens e palavras, para que se fundam umas nas outras.

Podem seguir o blog aqui.

Deixo-vos em baixo a primeira e a segunda publicação já “no ar”;  os dois desenhos são da autoria da Viviana, o primeiro texto é meu e o segundo da Filipa.

Prometo continuar a trazer-vos esta sinergia de ideias com regularidade.

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Retocou o batôm vermelho no espelho da casa de banho e saiu para o hall. Estava cheio de gente a caminhar de um lado para o outro, ao fundo ouvia-se a música do bar do hotel: jazz, vozes roucas e copos pousados de encontro ao balcão de mármore.

Mal fechara a porta completamente, já o via, fato escuro e a gravata justa ao pescoço num nó irrepreensível. Só que ele não estava só.

Dedos enlaçados nos dele, uma outra mulher, cabelo negro e o vestido o mesmo, caminhava ao seu lado com a confiança de quem tem a certeza daquilo que possui.

Ela retraiu-se de novo para a casa de banho, segurando a porta que a ocultava dos olhares indiscretos do hall e viu-os passar, desaparecendo para lá das portas de vidro, corpos tão juntos que não se entendia onde um acabava e começava o outro.

Dirigiu-se ao bar, atordoada. Reunião de trabalho, dissera-lhe ele. Vou ter saudades, confessara ela e ele tinha-lhe enxotado a carência com um abanar de cabeça, passa depressa vais ver e beijou-a nos lábios como quem acredita que as palavras podem ser presságios.

– Posso oferecer-lhe uma bebida?

A voz, no lado esquerdo do seu ombro, perto demais.

– Eu posso pagar as minhas próprias bebidas.

E deixou uma nota sobre o balcão e a bebida por tocar. Azeitona a afundar-se no copo como ela parecia estar a afundar-se em si mesma.

Duas horas a conduzir de volta a casa, estava exausta. Não do tempo, nem da condução, mas da forma como a vida se revira. Que sinais tinha perdido e o que interessava isso agora?

Fez as malas e levou tudo aquilo, e só aquilo, que não podia dispensar. Trocou de sapatos e de roupa, fez uma pilha na banheira com as coisas dele e, por cima, despejou o conteúdo do bar. Trazia um isqueiro na bolsa, gravado com as suas iniciais, um presente que ele lhe dera; de anos em que eles ardiam sem se tornarem em cinza. Acendeu-o e levou um só segundo, mal foi uma hesitação, a atirá-lo sobre o conteúdo da banheira, que irrompeu em chamas.

Deixou a porta aberta e entrou no elevador, o detector de fumo deu o alarme.  Olhou-se no espelho, retocou o batom vermelho e, assim que as portas se abriram, mergulhou na noite, sem saber bem para onde ia.

Bons homens são tão difíceis de encontrar quanto um batom de um tom vermelho perfeito e ela sabia perfeitamente qual dos dois podia dispensar.

*

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Sozinho,

Fecho os olhos,

E desespero.

Posso ser sincero?

Preciso que me regues de ti,

Universo,

Que as tuas estrelas,

Sejam as letras dos meus versos,

Embala-me,

Deixa-me querer,

Deixa-me sonhar,

Deixa-me perder.

*

Carina Pereira

 

Copo Menstrual | MeLuna

Já vos estava a dever este post há semanas, mas como queria escrever sobre este assunto de forma completa, acabei por ir adiando a publicação. Mas aqui está, e ainda vai a tempo de vos dar a oportunidade de aproveitarem a campanha de Verão da MeLuna. Até ao final de Julho, a MeLuna está a vender o copo online por apenas €18, já com portes de envio incluídos.

Vamos lá começar.

Então, o que é isto do copo menstrual?

Para aqueles que ainda não se depararam com informação online sobre isto, um copo menstrual é exactamente aquilo a que soa: um pequeno copo em silicone ou TPE que se introduz no canal vaginal e que recolhe o sangue menstrual. É reutilizável, durando até dez anos, e não contém químicos na sua composição, por isso, ao contrário das outras alternativas, como pensos descartáveis e tampões, é amigo do ambiente e do nosso corpo.

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Wow, Carina, mas essa cena é enorme? Como é que isso lá cabe?

Para começar, é bom que vocês façam uma análise para encontrarem a raíz do vosso desassossego e repulsa em relação ao copo. Sim, o copo parece grande, mas é introduzido dobrado e, com toda a honestidade, vocês sabem que passam coisas maiores por lá, certo? Bem sei que estamos todas habituadas a tratar tudo o que é intimidade, principalmente feminina, com uma boa dose de nojo e vergonha, mas é a falar que os preconceitos se vão desfazendo e uma mente aberta traz muitos benefícios.

Há várias dobras para introduzir o copo, que podem consultar online. Pessoalmente, prefiro a chamada punch down fold, a terceira imagem abaixo.

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Uma vez lá colocado, o copo deve abrir-se e voltar à posição inicial. Isto nem sempre acontece automaticamente, daí que há algumas formas de ajudarmos o copo a abrir: ou o rodamos, segurando a ponta do copo com o polegar e o indicador na entrada da vagina, ou, como eu faço, com o indicador empurro a parte que está dobrada para que se levante e está feito. Demora uns segundos, não provoca dor e o copo fica colocado de forma correcta.

Tornarem-se experts em colocar o copo pode demorar – só à quarta tentativa é que consegui colocá-lo bem e fazê-lo abrir – mas vocês chegam lá. Não desistam logo e, se necessário, usem um lubrificante à base de água (mais sobre isso abaixo).

E os maus odores?

Quem usa tampões e pensos sabe o desconforto e o terror que é ter a sensação que libertamos mau odor. Por causa disto é que esses produtos usam químicos, para que o cheiro não seja tão intenso.

O copo mesntrual cria vácuo, significando que o copo não sai nem se mexe, e que o sangue que lá fica armazenado não entra em contacto com o ar, não provocando, assim, maus cheiros e fungos. Há algum cheiro quando se retira o copo, mas (idealmente) vocês vão fazê-lo na casa de banho, por isso não têm de se preocupar e o cheiro não fica no caixote do lixo sequer.

Mas eu tenho dificuldade em colocar tampões. 

A MeLuna tem um copo especialmente desenhado para quem é sensível, o Soft. Não se esqueçam que, sendo feitos de algodão e/ou uma seda vegetal, os tampões criam fricção em contacto com a pele e podem ser difíceis de colocar, principalmente quando não há muito fluxo menstrual. É impossível colocar um tampão sem dor quando não existe menstruação, nem é recomendado devido à possibilidade do Sindrome do Choque Tóxico.

Já o copo pode ser colocado mesmo sem menstruação, o que pode ser bastante útil. É suposto o período chegar hoje, mas ainda não veio e tens receio de ser apanhada desprevenida? Coloca o copo antes de teres o período e vai à tua vida, não tens de te preocupar com mais nada. Pessoalmente, já fiz isto e andei descansada o dia todo.

Claro que a flora vaginal nem sempre permite que se coloque o copo quando não se está com o período por falta de lubrificação, mas isto também se resolve facilmente. Quer seja porque tens dificuldade em colocar o copo – principalmente nas primeiras vezes em que o usas – quer seja porque há demasiada fricção para o colocares, pois não estás com o período, usa a ajuda de um lubrificante à base de água. Desde que seja à base de água, – compatível com preservativos – é também compativel com o material do copo e não há qualquer contra-indicação no seu uso.

E não há vazamentos?

Se houver, é porque o copo não está colocado correctamente. Há várias dicas online acerca do que pode estar a correr mal para haver vazamentos; regra geral, quando bem colocado, o copo abre e cria um vácuo, recolhendo o sangue, sem que a roupa interior padeça.

Como é que vejo se o copo está completamente aberto?

Dedos. Com o dedo indicador na entrada da vagina circula o copo, vais logo notar se está aberto ou não. E não olhes assim para mim, é o teu corpo, fica à vontade. Há elasticidade suficiente e não te vais magoar.

E como é que faço para “trocar” o copo? E se estiver fora de casa?

Para retirar o copo, eu aconselho a apertá-lo na base com a ajuda do indicador e polegar. Desta forma o vácuo quebra-se. Depois, é puxá-lo devagarinho, de preferência mexendo-o para um lado e depois para o outro, até ele sair. Depois, é virar o conteúdo na sanita, lavar o copo com água e voltar a inseri-lo.

Ao contrário dos tampões, no entanto, o copo aguenta umas doze horas sem ser trocado. Eu coloco-o de manhã cedo antes de sair de casa e só o despejo quando me vou deitar, à noite. Já cheguei a sair bem cedo e a chegar depois da meia-noite, sem o trocar e sem qualquer problema. A minha regra é colocar de manhã e despejar antes de ir dormir, para o colocar de novo, assim posso usá-lo também durante toda a noite.

Se, realmente, for preciso despejá-lo a meio do dia por qualquer razão, ou se o tiveres de fazer numa casa-de-banho pública, aconselho a despejar o sangue na sanita e a limpar o copo o melhor possível com papel higiénico, ou uma toalhita, antes de o voltar a colocar, e depois tratar melhor dele uma vez chegados a casa, ou mesmo levarem uma garrafinha de água para a casa de banho e lavá-lo por alto. Descomplicar é a palavra de ordem. 

E não transborda?

Nós temos ideia de que sangramos mais do que, efectivamente, o fazemos. O meu copo MeLuna é um M (capacidade para 28ml) e, tendo bastante fluxo (tinha de trocar os tampões Super regularmente durante o dia), o copo que uso durante o dia todo fica, geralmente, meio cheio.

Espera, e como é que urino com o copo lá colocado?

(Isto foi, legitimamente, uma pergunta que me colocaram e que demonstra o quanto o nosso sistema educacional e o preconceito geral em relação à sexualidade feminina nos falha a todos.)

O período e a urina saem de dois canais diferentes. O copo está dentro da vagina, logo, não tapa o orifício urinário (uretra).

Está aqui uma imagem para entenderes as partes que compõem a vulva, mas podes também pegar num espelho e observar-te, devia ser mandatório, até.

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A haste do copo fica fora da vagina, e agora? 

A haste pode ser cortada para se ajustar a cada pessoa. Aliás, o colo do útero sobe e desce ao longo do ciclo menstrual, de maneira que a haste pode parecer estar bem e depois parecer demasiado comprida. Podem cortá-la completamente, desde que não furem a base do copo, a haste não é necessária para colocar e retirar o copo. Podem também optar pela haste em bola que é mais pequena.

Para situações especiais, a MeLuna tem também o copo Shorty, ligeiramente mais pequeno.

Mas agora o copo está muito alto e não tenho a haste para o agarrar. 

Usa os músculos vaginais. Se o copo está um pouco em cima e tens dificuldade em lá chegar, não entres em pânico, lá ele não fica. Faz força como se precisasses de fazer o #2 , usa os músculos que tens, e o copo desce. Introduz os dedos para o apertar e tirar, como explicado já acima. Acredita em mim, isso acontece-me e nunca há stress.

Como trato do copo?

Simples: entre usos, lava bem com água (podes usar um sabonete natural sem cheiro, mas não é necessário). No final do ciclo, ferve-o num tacho pequeno – que uses só para isso – para desinfectar, durante 5 a 10 minutos. Guarda no saquinho que vem com o copo até ao próximo uso.

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(aqui o meu tachinho, sabonete natural e lubrificante à base de água)

Mas o que é que eu ganho em usar o copo?

Os pensos são extremamente desconfortáveis. Tanto os pensos como os tampões têm quimicos que são nocivos para o teu corpo e, no caso dos tampões, há sempre o risco do Sindrome do Choque Tóxico. Além disto, são uma das maiores fontes de lixo todos os anos e são uma despesa pesada.

(Mulheres que usam o DIU devem falar primeiro com o médico.)

O copo é:

  • Reutilizável, logo, bom para o ambiente (Zero Waste Life, anyone?);
  • Económico (um copo pode custar uma média de €30, mas dura dez anos. Comparando com os pensos e tampões que se usam nesse espaço de tempo, como diria o Guterres, é fazer as contas);
  • Saudável (sem químicos, o facto de o sangue não estar em contacto com o ar evita a criação de bactérias.);
  • Cómodo (eu coloco o copo de manhã e tiro à noite e nem me lembro dele durante o dia. Antigamente, se fosse de férias e estivesse com o período era “oh, não!”, agora é “ah, okay, tenho de levar o copo.” Pensem nisso.).

 

O Copo MeLuna

Esta publicação teve base na aquisição do copo MeLuna; aproveitei a promoção de Verão deles para experimentar a marca – o meu copo anterior era da marca SilkyCup – daí querer fazer uma review comparativa.

O copo chegou embalado a minha casa, pelo correio, poucos dias depois de o ter encomendado online (podem adquiri-lo na Wells e em algumas farmácias, mas aí a promoção já não entra em vigor e custa os usuais €24).

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O copo vem numa caixa, com um saquinho para o guardar e traz também um pequeno manual com informações importantes e um pequeno calendário mesntrual (como podem ver nas imagens.)

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Posso já dizer que estou extremamente satisfeita com este copo, principalmente em comparação com o outro que tenho, da SilkyCup. É ligeiramente mais largo, mas mais pequeno, o que fez com que eu não necessitasse de cortar a haste, dando-me ainda espaço de manobra caso sinta que está demasiado alto (já o da SilkyCup tive de a cortar, o copo era mais estreito e longo).

Também gosto mais do toque deste e é mais confortável, por ser mais curto. Já experimentei um em silicone, em vez de TPE. Por ser mais mole, às vezes era mais difícil de colocar. Este tem também uns relevos, tanto na haste como na base, para conseguirmos segurá-lo e retirá-lo melhor.

Escolhi a base em haste, porque eu queria o copo em preto e não havia no modelo com a bolinha. Os copos mais claros têm tendência a ficar manchados com a utilização, daí eu ter preferido o preto (a quem é que eu quero enganar, a cor do copo é um reflexo da minha alma, não podia ter escolhido outra cor mesmo que quisesse, cool inside ‘n out. 😛 ).

O copo tem também dois furinhos, um de cada lado, para ajudar a criar e a quebrar o vácuo, o outro não tinha. Por isso, abre facilmente e consigo metê-lo sem quaisquer problemas.

Talvez por estas razões todas, nunca cheguei a ter vazamento com o copo da MeLuna. Já o da SilkyCup, embora nunca tivessem acontecido acidentes, por vezes deixava pequenas marcas na roupa interior, mesmo quando estava completamente aberto.

Resumindo, ter começado a usar um copo menstrual foi uma das melhores decisões que tomei (sem exageros) e aconselho os copos MeLuna a quem quer começar. Vão bem servidos.

E não, não me pagaram por isto. Mas eu quero ver as pessoas felizes, por isso aceitem o conselho e comprem um copo menstrual o quanto antes. Vai mudar-vos a vida.

*

Uma última pergunta, Carina. De manhã faço tudo a correr e acho que estar a tirar o copo, lavá-lo e voltar a colocá-lo me vai tirar minutos preciosos; também queria reduzir o lixo que produzo, por isso usar pensos durante a noite não é boa opção. E agora? 

Pois, eu entendo isso. Quando demorava mais tempo a colocar o copo, bem no início, também me debatia com esse aspecto. Isso não significa que tenhas de voltar a usar produtos descartáveis. Já ouviste falar em pensos higiénicos reutilizáveis? Não? Ah, então isso é um tema para um próximo post.

Até lá!

Carina Pereira

Quando experimentei o meu primeiro copo, há mais de um ano, fiz um post aqui, que podem ler para mais informação e detalhes (embora algumas coisas serão repetidas.) 

Para quem entende Inglês, há um canal excepcional com todas as indicações e respostas a dúvidas que vos possam surgir, não só acerca do copo menstrual, mas de tudo relacionado com o período. Neste link

 

Book Riot

Lembram-se de vos ter falado aqui que dois artigos meus foram aceites para publicação no site Book Riot? Pois bem, os artigos já estão “no ar” e a outra boa notícia é que agora sou, oficialmente, colaboradora regular!

Assim sendo, vou passar a publicar dois textos por mês na plataforma, com temas à minha escolha – desde de que estejam relacionados, obviamente, com livros. 😀

Podem ler os textos já publicados nos links abaixo (em Inglês):

http://bookriot.com/2017/07/13/why-libraries-matter/

http://bookriot.com/2017/07/12/case-rereading-audio/

Deixo aqui também a minha página de autor, onde vão encontrar todos os artigos escritos por mim. 😀

http://bookriot.com/author/cpereira/

Se tiverem temas que gostassem que eu debatesse nos textos a publicar de seguida, não se acanhem em dar-me ideias! Já tenho alguns apontamentos para artigos futuros, mas estou aberta a sugestões!

Carina Pereira

 

Acessórios Preciosos Ou Como A Menina Da Oysho Me Salvou O Dia

Durante as férias decidi aproveitar o facto de estar em Portugal para comprar um soutien, para levar com o vestido que já tinha para a comunhão da minha sobrinha.

No dia-a-dia, principalmente por causa do meu trabalho, habituei-me a usar soutiens de desporto: são confortáveis e dão melhor apoio, sem o risco de ter um aro a tentar furar-me o esterno ou um peito a sair-me da copa. Como muitos dos meus soutiens antigos deixaram de me servir, principalmente nas costas, e como tenho usado maioritariamente os de desporto, não tinha nenhum preto adequado ao meu vestido.

Fui ao Norte-Shopping ver a Wonder Woman e posso dizer-vos já que saí da sessão de cinema com a certeza de que podia destruir uns quantos homens com as minhas próprias mãos. Depois do espectáculo que aquele filme foi, eu estava capaz de tudo. Infelizmente, bastou-me entrar na Women’s Secret e começar a experimentar soutiens, para começar a pragejar por não ter um corpo como o da Gal Gadot (girl crush!).

O meu problema é o seguinte: eu uso um tamanho A, mas, apesar do A existir, parece que as lojas todas se esquecem que há pessoas, como eu, com costas largas e peitos mais pequenos, que precisam do A, porque o B e o C não servem. Ou melhor, havia modelos do B que me ficavam bem nas costas, mas largo no peito, ou então bem no peito mas apertado nas costas. Nenhum modelo me ficava bem nos dois lados porque, lá está, precisava de um A, que não existia ali à venda.

Fui-me embora a pensar que a Wonder Woman não precisa de passar por isto; quem me dera ir viver para a ilha das Amazonas, onde me faziam uma armadura à medida e me ensinavam a lutar, para eu ficar toda fit ou, pelo menos, para ter musculatura e poder destruir soutiens que não me servissem sem ninguém se atrever a vir pedir-me satisfações depois.

No entanto, também não sou de desistir à primeira e ainda bem. Entrei na Oysho, ali ao lado, mas concluí depressa que ali também só havia Bs e Cs. Ainda assim, persistente, fui perguntar a uma das meninas que estava na caixa se não tinham um A e expliquei-lhe a minha situação. Ainda bem que o fiz. A miúda foi super atenciosa, ajudou-me a escolher um modelo, explicou-me diferenças nos materiais e apresentou-me um milagre da ciência – bem, talvez não da ciência, mas da moda, certamente – estes alargadores.

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Não, eu não fazia ideia de que isto existia, não me julguem já a ignorância. Apesar de ter visto vídeos sobre como medir o tamanho de soutien e tudo o mais, nunca me tinha deparado com isto. Só me faltou chorar de gratidão em frente à miúda. Fui vestir então o tamanho B, com o alargador e voilá! Perfeito! A rapariga até me foi buscar um outro modelo para eu ver qual gostava mais e, como eu estava sozinha, nem se importou de ver se aquilo realmente me assentava bem. Foi uma espécie de momento de amizade íntima com uma desconhecida, que me durou cinco minutos, e ao qual estou eternamente agradecida.

Por cinco euros trouxe para casa quatro alargadores – branco, preto, beige e cinza – e a certeza de que os milagres são reais (até porque, vocês fazem ideia da quantidade de soutiens que eu tinha cá em casa que não me serviam nas costas e que agora vou poder voltar a usar?).

À rapariga da Oysho: onde quer que ela esteja e para onde quer que vá, espero que a boa fortuna lhe sorria sempre.

Carina Pereira