Festival Passa Porta

Este fim-de-semana teve lugar o festival literário Passa Porta, em Bruxelas. Adivinhem lá quem é que foi um dos autores convidados?

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Eu tive de pagar bilhete porque ando há três anos para acabar um conto, mas o José Eduardo Agualusa, que é um escritor a sério, apareceu por lá para falar do seu livro favorito e, a par com Dulce Maria Cardoso (que eu não conhecia mas, depois da conversa, quero muito ler), sobre a infância passada em Angola e aquilo que lhes influencia a escrita.

Levei quatro dos sete livros que ainda tinha por autografar – tive de fazer uma escolha sensata: os livros ou as minhas costas – e voltei toda contente.

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Agora, é esperar que isto se torne numa tradição anual (o ano passado tive a felicidade de o ouvir em Den Haag), vou coleccionando livros e levando-os comigo quando a oportunidade se der. Estes já não têm preço.

(Esta é uma publicação muito contida mas podem ler a histeria nas entrelinhas.)

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(a colecção no bom caminho, podem seguir tudo no instagram)

Carina Pereira

Boteco Das Tertúlias #18 | Crónica De Uma Morte Anunciada

Para o mês de Março, o mês da Primavera, o Boteco traz com ele uma recensão do livro Crónica De Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Márquez.

Não se esqueçam de ir ver o que as outras botequeiras pensam dele!

A Limonada Da Vida

Life’s Textures

Bom resto de fim-de-semana!

*

O mais espantoso neste livro é o entendimento, desde que a história começa a ser narrada, de que alguém vai morrer. Toda a aldeia sabe que um homicídio está prestes a ser levado a cabo, sabem quem serão os autores do crime e a vítima mas, curiosamente, toda a gente falha em evitá-lo pelas mais variadas – e idiotas – razões.

Há muito pouco diálogo; Márquez conta-nos a história na primeira pessoa, atribuída a uma outra personagem e não apenas a um narrador sem nome, e discorre sobre a tragédia de forma bastante corrente, numa junção de factos arrecadados aqui e ali, pequenos retalhos que se alinhavam, dando-nos a perspetiva da história de acordo com cada pessoa que a viveu (exceptuando o morto, claro está). Além disso os acontecimentos do dia fatídico são contados retrospetivamente, começando já depois da morte anunciada ter ocorrido mas, a partir daí, recolhendo testemunhos desde o momento que levou à tragédia.

É uma história pequena, mas muito bem contada, que nos deixa na espectativa, mesmo sabendo que a morte já aconteceu e, por isso, independentemente do que nos é contado e daquilo que passamos a saber, o resultado final é sempre o mesmo. Por outras palavras, o autor desvenda-nos o trunfo, mas não nos desencoraja a ver a jogada até ao fim.

Para escrever algo assim é preciso mestria.

Carina Pereira

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Estou De Volta!

Este blog foi practicamente – e sem vergonha – abandonado por mim. Não tenho escrito muito, nem me tenho dedicado a escrever nada especificamente para o blog. Mas não se apoquentem, a vida tem continuado igual, eu é que tenho andado muito preguiçosa! São fases, às vezes precisamos de respirar um bocadinho; afinal, é preciso recuar para ganhar balanço e só depois é que podemos ir.

Mas, apesar de tudo, não tenho estado inerte. Continuo a colaborar com a Blogazine, trazendo uma resenha com a colaboração da Chiado Editora a cada mês; faço parte de uma outra revista, a Inominável, onde tenho a liberdade de inventar histórias – há um conto a ser contado aos poucos – e, claro, o Boteco continua de pé!

Agora, gostava de ressuscitar o blog – pelo menos hoje, que acordei com vontade de colocar mãos à obra e está sol.

Por vezes é mais fácil fazer partilha directamente na página do facebook, por isso não se esqueçam de seguir o blog por lá, tem um link algures do vosso lado direito.

Em baixo deixo-vos os links para as últimas edições da Blogazine e da Inominável. Espero que gostem!

Blogazine

Inominável

Carina Pereira

 

BOTECO DAS TERTÚLIAS #17 | Reencontro

Desta vez, eu trouxe a imagem que deu o mote ao Boteco. Espero que gostem e não se esqueçam de ler os textos das outras botequeiras!

Bom fim-de-semana!

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Encosto-me à memória do que fomos e ali me acomodo, como um pássaro que se esqueceu que o Inverno chegou e que é preciso encontrar outras paragens para sobreviver.

Eras o meu sul e agora que partiste insisto em ficar no mesmo sítio, agarrando-me ao que posso, a ver se te volto a encontrar. Às vezes, o milagre acontece. Se me sento aqui, fazendo de conta que te espero mesmo quando sei que já não vens, parece que ouço os teus passos, que te sinto do meu lado, e o meu ombro descai um pouco à procura do teu.

Foste o meu posto de comando uma vida inteira, o meu companheiro de viagem, a terra onde criei raízes, o meu sul e norte, o único caminho que conhecia de cor e onde, ainda assim, me perdia voluntariamente. Antes, neste banco, éramos nós, um lado-a-lado que era uma forma de vida. Que foi uma forma de vida a vida inteira.

Sento-me e, mesmo sabendo que estou sozinha e que já não voltas do lugar para onde foste, faço disto rotina. Prefiro esperar-te, sem esperança, perder o equilibro quando o meu ombro descai e já não encontra o teu, do que partir para um sul qualquer que me salve. Quando já se percorreu a vida toda, quando já se viveu o que havia para viver, a salvação é um lugar que não existe.

Espero que a morte me venha buscar; com sorte, o meu ombro volta a encontrar o teu.

Carina Pereira

Boteco Das Tertúlias #16 | Caminhos

Continuamos a escrever sobre imagens aqui pelo Boteco e desta vez foi a T., do blog Life’s Textures a dar-nos o mote inspirador!

Não se esqueçam de visitar os outros blogues que fazem parte do Boteco Das Tertúlias!

Anas Há Muitas

A Limonada Da Vida

Espresso And Stroopwafel

Life’s Textures

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Estás no centro do círculo, linhas mapeadas na palma da mão que não sabes ler. Não sabes que caminho seguir. Levas contigo apenas o fardo do passado e o pequeno fio invisível que te liga ao futuro. São ambos frágeis e, se já não podes tactear um, também não podes adivinhar o outro.

Quatro caminhos, Norte Sul Este Oeste, este ou este. Fechas os olhos e rodas sobre ti próprio algumas vezes até a escuridão te roubar o sentido de espaço, até a escuridão se encarregar de te condicionar a escolha. Mesmo quando se lança a moeda ao ar, há sempre uma preferência. Tu queres fugir das tuas, até agora não te levaram a lugar nenhum. Talvez seja melhor a arbitrariedade decidir o teu caminho.

Dás um passo em frente e entras num dos caminhos. Depois, sem nunca olhar para trás, segues o trilho. De novo, deixando o passado para trás, encarando o futuro na tua frente. Não tens mapas, nem bússola e os planos já se esgotaram. Não faz mal; afinal, falharam todos.

Há-de haver uma luz ao longe que te diga que tudo o que já foste e tudo o que já fizeste te indicava subtilmente que era para aqui que te dirigias. Para já, manténs-te em movimento e isso basta.

Carina Pereira