Uma Imagem Mais Mil Palavras #1 e 2| Colaboração

Quando as imagens e as palavras se juntam, quanto valem?

Esta parceria é feita a seis mãos – Eu, a Filipa e a Viviana – e, com mais ou menos mestria, cada uma lá vai debitando imagens e palavras, para que se fundam umas nas outras.

Podem seguir o blog aqui.

Deixo-vos em baixo a primeira e a segunda publicação já “no ar”;  os dois desenhos são da autoria da Viviana, o primeiro texto é meu e o segundo da Filipa.

Prometo continuar a trazer-vos esta sinergia de ideias com regularidade.

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Retocou o batôm vermelho no espelho da casa de banho e saiu para o hall. Estava cheio de gente a caminhar de um lado para o outro, ao fundo ouvia-se a música do bar do hotel: jazz, vozes roucas e copos pousados de encontro ao balcão de mármore.

Mal fechara a porta completamente, já o via, fato escuro e a gravata justa ao pescoço num nó irrepreensível. Só que ele não estava só.

Dedos enlaçados nos dele, uma outra mulher, cabelo negro e o vestido o mesmo, caminhava ao seu lado com a confiança de quem tem a certeza daquilo que possui.

Ela retraiu-se de novo para a casa de banho, segurando a porta que a ocultava dos olhares indiscretos do hall e viu-os passar, desaparecendo para lá das portas de vidro, corpos tão juntos que não se entendia onde um acabava e começava o outro.

Dirigiu-se ao bar, atordoada. Reunião de trabalho, dissera-lhe ele. Vou ter saudades, confessara ela e ele tinha-lhe enxotado a carência com um abanar de cabeça, passa depressa vais ver e beijou-a nos lábios como quem acredita que as palavras podem ser presságios.

– Posso oferecer-lhe uma bebida?

A voz, no lado esquerdo do seu ombro, perto demais.

– Eu posso pagar as minhas próprias bebidas.

E deixou uma nota sobre o balcão e a bebida por tocar. Azeitona a afundar-se no copo como ela parecia estar a afundar-se em si mesma.

Duas horas a conduzir de volta a casa, estava exausta. Não do tempo, nem da condução, mas da forma como a vida se revira. Que sinais tinha perdido e o que interessava isso agora?

Fez as malas e levou tudo aquilo, e só aquilo, que não podia dispensar. Trocou de sapatos e de roupa, fez uma pilha na banheira com as coisas dele e, por cima, despejou o conteúdo do bar. Trazia um isqueiro na bolsa, gravado com as suas iniciais, um presente que ele lhe dera; de anos em que eles ardiam sem se tornarem em cinza. Acendeu-o e levou um só segundo, mal foi uma hesitação, a atirá-lo sobre o conteúdo da banheira, que irrompeu em chamas.

Deixou a porta aberta e entrou no elevador, o detector de fumo deu o alarme.  Olhou-se no espelho, retocou o batom vermelho e, assim que as portas se abriram, mergulhou na noite, sem saber bem para onde ia.

Bons homens são tão difíceis de encontrar quanto um batom de um tom vermelho perfeito e ela sabia perfeitamente qual dos dois podia dispensar.

*

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Sozinho,

Fecho os olhos,

E desespero.

Posso ser sincero?

Preciso que me regues de ti,

Universo,

Que as tuas estrelas,

Sejam as letras dos meus versos,

Embala-me,

Deixa-me querer,

Deixa-me sonhar,

Deixa-me perder.

*

Carina Pereira

 

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