Gato Preto, Gato Preto

O gato era vadio. Preto, de jeito dócil, não hesitou em aproximar-se quando ela colocou o pires com leite do lado de fora da porta. Quando acabou de beber, miou a pedir mais e enroscou-se nas suas pernas. Estava ferido numa das patas e mancava, mas parecia esquecido disso quando ela lhe trouxe o segundo pires e alguma coisa que sobrara do almoço para ele comer. Ficou por ali a tarde toda, depois desapareceu. No dia seguinte, quando Rita chegou da escola, lá estava ele outra vez. A mãe da Rita, impaciente, mandava-o embora.

– Deste comida ao gato ontem, não deste?

Não precisava de uma resposta; o tom era zangado, furioso mesmo. Olhava a Rita como se ela tivesse cometido uma atrocidade, como se dar comida e tratar de um gato ferido fosse crime maior. A Rita encolheu os ombros e esperou que a mãe fosse para dentro. O gato já tinha desaparecido de novo, afugentado pela vassoura que a mulher mais velha tinha brandido contra ele. Voltou no dia seguinte, de manhã cedo.

– Porque é que não podemos ficar com ele? Um bocado de comida e água não nos vai fazer assim tanta falta.

A mãe olhou-a como se a quisesse enxotar também com a vassoura, resmungou algo indecifrável e avisou-a que se pusesse mais comida para o gato, ia ter de se haver com ela. A Rita não quis saber do aviso; antes de lavar a loiça, enquanto a mãe tratava da roupa do pai para o dia seguinte, meteu os restos num saco, deu-lhe um nó e escondeu-o dentro da camisola. Mais tarde, quando os pais viam televisão na sala, fez de conta que precisava de encher os pneus da bicicleta e foi lá fora. Deixou a comida perto da garagem, no chão. O gato havia de encontrá-la antes da mãe dela.

Quando saiu para a escola, no dia seguinte, viu-o no quintal e sorriu, sem a mãe ver.

*

Tinha-se esquecido do trabalho de Português em casa, junto ao velho computador que era do pai, mas que o pai a deixava usar quando os trabalhos da escola assim o exigiam. Semanas de trabalho, a entrega era hoje e ela tinha-se esquecido. Contava para quarenta por cento da nota, precisava de o ir buscar. Ia faltar à aula de matemática, mas não fazia mal. Nunca faltava, era boa aluna, se o professor lhe viesse pedir justificações acerca da falta só teria de dizer a verdade, mas não ia colocar em risco a nota de Português. A professora podia não acreditar na desculpa do esquecimento, não lhe dar oportunidade de entregar um dia mais tarde, não estava para arriscar.

Caminhou até casa, o mais rápido que conseguiu e encontrou-a vazia. A mãe fazia pequenos arranjos e tinha a sua oficina no quarto extra, mas não estava lá e a porta da entrada não estava fechada à chave.

Rita recolheu o trabalho, que estava no lugar onde ela o esperara encontrar, e pôs-se de novo a caminho. Melhor assim, desta forma não teria de explicar à mãe que se tinha esquecido do trabalho, nem precisava de falar da falta a matemática, que daria um sermão de durar dias.

Olhava em frente enquanto caminhava, mas pareceu-lhe ver algo na sua periferia; uma sombra a mover-se por entre a floresta. Parou e procurou. Ali estava. Ao fundo, uma figura distinguia-se, mexendo-se por entre as árvores. Era a mãe dela. Empunhava uma pá e parecia estar a alisar a terra.

Um frio na barriga: Rita tinha a estranha sensação de que aquilo significava sarilho, soube-o quase imediatamente, mas mesmo que as suas piores suspeitas se revelassem verdadeiras, nada havia a fazer agora. O dia arrastou-se mais lentamente do que o normal. Quando regressou a casa da escola, o gato não estava lá.

Planeou tudo ao pormenor. Ao Sábado os pais iam às compras para a casa. Esperou pelo Sábado. Os pais arrancaram e ela aguardou ainda meia hora. Depois, foi à garagem buscar a pá e pôs-se a caminho. Sabia para onde se dirigir, só tinha de encontrar um pedaço de terra remexida. Quando o encontrou, começou a escavar e viu os seus receios confirmados. Voltou a cobrir a cova com terra e voltou para casa.

Às vezes, a espera é indispensável.

Deitou-se, de luz apagada, e aguardou pacientemente. Um minuto depois de ouvir a sua mãe a entrar no próprio quarto para se deitar, a gritaria começou.

Levantou-se a correr, encontrou o pai a acalmar a mãe, que se contorcia num ataque de histeria, ar aterrorizado. Na cama, espalmado como um corpo preparado para autópsia, estava o gato preto. Esquartejado, todo ele aberto, de tripas de fora.

Rita gritou – tinha encenado bem essa parte –  e foi a chorar para o quarto. A comoção na casa demorou a acalmar, as questões de quem teria feito aquilo, as suspeitas em voz baixa – quando já pensavam que Rita estava a dormir – de que algum vizinho a tivesse visto a afogar o gato e, depois, a enterrá-lo. O medo de algo sobrenatural, um castigo divino, talvez.

A Rita sorriu. Para actos atrozes, castigos atrozes.

in “Estórias Da Minha Aldeia”

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