Como Se Eu Percebesse Alguma Coisa Disto | Auto-Estima vs Amor-Próprio

au·to·-es·ti·ma
(auto- + estima)

substantivo feminino

Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios actos e pensamentos.

a·mor·-pró·pri·o

substantivo masculino

Respeito que cada qual tem de si mesmo, da sua dignidade.

(Dicionário Priberam de Língua Portuguesa)

 

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa.

Nunca tinha consultado as definições antes, foi uma conclusão a que cheguei sozinha e, de certa forma, me mudou. Ou talvez eu tenha mudado primeiro e, daí, tenha chegado a conclusão.

Há quem se orgulhe de não querer saber o que a sociedade pensa, mas não é isto já um pensamento criado a partir do que a sociedade pensa? Somos todos um molde proveniente da forma como somos criados, de aceitarmos ou repudiarmos os valores que nos passam, de nos rebelarmos ou condicionarmos. Mesmo não querer saber o que a sociedade diz é um gesto dirigido à sociedade: fugir de normas é viver, ainda assim, do ponto de partida delas. E a sociedade é cruel.

Penso que cada vez mais se apoia o amor-próprio, o aceitarmo-nos da forma que somos, mas continua-se a cair no erro de enaltecer uns para rebaixar outros. Uma publicação que é uma ode a alguma coisa, criticando outra, é tão inútil como uma publicação que apenas critique. As coisas que têm valor só precisam de si mesmas.

É-me impossível escrever isto sem que se torne pessoal, como quando escrevi a crónica  Os Destruidores De Amor Próprio, que acabou por ser publicada na plataforma Capazes e é um retrato de algo que eu, tal como todas as mulheres (e alguns homens, mesmo que sejam a excepção) sentiram de perto.

Ainda no outro dia, ao telefone, o meu pai aproveitou o embalo de uma cena que se passou com a minha sobrinha, para me dar a achega de que se ao menos eu tivesse uma auto-estima mais elevada, embora eu tenha crescido a ouvir coisas que me levaram a acreditar que eu só seria mais bonita ou mais desejável se seguisse certas normas, como usar maquilhagem ou saltos altos, ou roupas mais femininas (o que quer que isto signifique). Basicamente, precisava de duas horas para sair de casa, em vez de demorar vinte minutos a tomar banho e a vestir-me. Eu uso maquilhagem de vez em quando, mas é quando e se me apetece, depende do esforço que estou disposta a fazer naquele dia e para onde vou; admiro quem tem paciência para tratar de si todos os dias com pormenor, porque tem uma habilidade para estas coisas que eu não tenho. O curioso é que, mais uma vez, a mesma sociedade que nos diz para tratarmos de nós de forma a sermos desejáveis aos olhos dos outros é a mesma que nos chama fúteis quando o fazemos. Há ali um equilibrio qualquer mas, a linha é tão fina, que se torna difícil não ficar atrás dela ou não a ultrapassarmos completamente.

Há, no entanto, algo que escapou ao meu pai quando me disse que eu precisava de mais auto-estima, o ponto que eu não cheguei a debater porque não estou para gastar energias em coisas que nem sempre são compreendidas mas que, venha o mesmo assunto à baila e conhecendo-me, vou inevitavelmente abordar: auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa e eu sou livre de não gostar do que vejo ao espelho, de me queixar mesmo não querendo – ou não podendo – fazer nada por causa disso e, apesar das queixas, gostar de mim na mesma. Nem sempre é fácil, mas é manobrável e, com o tempo e alguma sorte, aprendemos. A mim, demorou 28 anos a perceber isso e uma série de situações que me deixaram farta de não gostar de mim mesma. É que não gostarmos de nós próprios dá um trabalho do catano.

Eu não me acho bonita, nem tenho a figura que quero (há aqui uma coisa que posso mudar, outra que não). É o que é, o que sempre foi e nós temos quase sempre uma visão reprovadora de nós mesmos. Mas, caraças, eu gosto de mim à brava. Não de uma forma egotista que não me dá espaço para gostar imenso dos outros, ou que me faz achar que sou melhor do que eles, mas na certeza de que eu mereço ser feliz, de que eu mereço ser respeitada e adorada e todas essas coisas boas que temos direito a receber quando somos bons para os outros. Criticar-me a mim própria não dá aos outros o direito de acharem que podem fazer de mim gato-sapato, ou que eu vivo à custa das migalhas que me dão porque não consigo ganhar o meu próprio pão. Tenho uma auto-estima baixa, sim, mas o meu amor-próprio conhece bem os ares rarefeitos. É disto que precisamos, de sabermos que, mesmo sem gostarmos de nós, temos o direito a que outros gostem. Que, mesmo sem olharmos com confiança ao espelho, consigamos ver se algo é, ou não, suficiente para aquilo que somos como pessoas.

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa. O amor-próprio é muito mais importante e mais fácil de encontrar, porque se cultiva desde dentro e, se a embalagem nem sempre pode ser modificada, o conteúdo pode ser moldado, sempre. Ser bondoso também se aprende e a bondade merece sempre ser amada.

Podem olhar-se ao espelho e não gostar daquilo que vêem, mas saiam de lá de cabeça erguida, a saber que ninguém pode usar o que vocês não gostam contra vós. Não sou bonita, e depois? Gosto suficientemente de quem sou para saber que não é isso que define como os outros me tratam. E tentem tratar-me mal, a ver se eu deixo.

Carina Pereira
insira-amor
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