Boteco Das Tertúlias #14 | Das Imagens E Das Letras

Este mês o desafio do Boteco alterou-se: é uma imagem que lança o mote e nós temos de escrever sobre ela.

A Catarina cedeu-nos a imagem abaixo e aqui está o que eu fiz dela.


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Dizem que não há duas ondas iguais a beijarem a mesma areia, que a onda que vem rebentar à praia e se retrai com a maré parte logo depois, para sempre. Os rios e os mares são cursos que correm sempre em frente, mas quem sabe, talvez a chuva caia no mar um dia e a mesma água e a mesma areia sejam a história a repetir-se.

Caminhei na direcção do lago, esta manhã. Trouxe o pão que sobrou de ontem, para dar aos patos e aos cisnes, ou para dar às crianças e vê-las depois a dar o pão que lhes dei aos patos e aos cisnes, com um sorriso no rosto e o peito a rebentar de contentamento. Há alegrias a valerem muito mais do que a sua simplicidade.

Sentei-me aqui a imaginar-me onda, a imaginar-te areia. Quantos anos passaram já desde que partimos um do outro? Demasiados. Tantos são já esses anos que nem me consigo lembrar. É quase como se tivesses partido desde sempre, antes ainda de teres chegado. E eu também, parti de nós há tempo demais. Sofre mais quem conta o tempo; para mim, que não o conto, posso fazer de conta que foi só ontem e que ontem durou tanto tempo que me parece então esse tempo todo.

Tinhas um andar gingão, de quem aparenta ainda não ter aprendido bem a andar sobre os seus próprios pés, mas traçavas com tamanha certeza o teu espaço no mundo e eu, que não sabia por onde ir, acabei por me deixar ser traçada também pelos teus dedos seguros. Nunca me levaste por caminhos que eu não quisesse trilhar, nunca me prometeste nada de que não estivesses certo; terrível sorte essa de estares tão certo de tanto e, afinal, não teres acertado em nada.

Os cisnes guardam um mesmo amor por uma vida inteira. A nossa história não tem nada de peculiar, ou digno de se tomar nota, não merece sequer menção em edições de colecionador, foi mais um romance que fulgiu e nos fugiu por entre os dedos, fugaz como o instante de um beijo roubado. As recordações, essas sim, são como o amor de cisnes: se a memória fosse interior de árvore e me rasgassem para me verem por dentro, contassem os anelos de tudo o que de ti me lembro, notariam que há mais de ti em mim do que o que em mim, verdadeiramente, foste. Há tanto que é teu que eu imagino, coisas que não chegaste sequer a ser.

Passo-te um pouco de pão, que atiras aos cisnes. Tu levantas-te. Estendes-me a mão, na tua convicção serena, e eu sigo-te: és todo o caminho que conheço e confio. Sou a água que se evapora e volta ao mesmo mar, para beijar a mesma areia. Que interessa que não seja verdade, que interessa que a água te tenha levado antes de teres beijado a areia do meu corpo uma última vez, antes de termos podido enterrar o nosso amor nas certezas todas que tinhas.

Dentro do que invento, somos aqueles dois cisnes, guardando um mesmo amor por vidas inteiras. Disso, estou eu certa.

*

Não se esqueçam de ler os textos das outras meninas nos links abaixo!

Anas Há Muitas

A Limonada Da Vida

Espresso And Stroopwafel

Life’s Textures

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