Harry Potter And The Cursed Child

Era Sexta-feira, a minha Sexta-feira de folga em cada quinze dias e aproveitei o fabuloso calor que se faz sentir aqui na Bélgica para me sentar no jardim do prédio onde moro, a apanhar sol e a ler.

A meio da tarde apareceu por aqui um visitante inesperado: um coelhinho preto, que pertence aos vizinhos do lado, e que eu ainda não entendi se está por cá de visita ou se atravessou a rede que separa os dois jardins e agora não consegue voltar. Quando o tentei abordar, fugiu. Não quis conversa comigo. Talvez achasse que eu lhe vinha com conversas de Deus mas, se ele me ouvisse, eu podia garantir-lhe que só lhe queria dar uma bela festa de mimos. Ele é que perde.

Enquanto o sol não se punha, pareceu-me boa hora para falar sobre o livro tão esperado, a peça de teatro que arrancou Potterheads do seu marasmo de nove anos.

A primeira vez que li Harry Potter, alugado na biblioteca da escola e recomendado por uma amiga de turma, tinha treze anos. Cresci com Harry Potter, que cresceu comigo.

Não, não fui a nenhum lançamento à meia-noite e só vi o último filme – que foi dividido em duas partes – no cinema. Não porque a minha devoção era menor, mas porque a informação que me chegava sobre o universo Harry Potter era escassa (não tinha internet) e porque só o terceiro, quinto e sérimo livros ocupavam um espaço na estante lá de casa; os outros, tive de os alugar na biblioteca também, porque na altura em que saíram eram muito caros para eu os poder comprar. Fui acompanhando a saga como podia, e é um mundo que vai sempre acompanhar-me e que espero poder passar a outros. Aos treze, aos vinte e nove. Always.

Descobri, mais tarde, no teste do Pottermore para saber que casa de Hogwarts me calhava em sorte,  que sou uma Ravenclaw. Desiludida, em princípio, por não fazer parte da casa das personagens principais mas, entretanto, entendendo que nem sou muito corajosa e que o conhecimento é uma das coisas a que mais valor dou, afeiçoei-me ao meu destino. (ver foto abaixo)

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Assim, também eu estava em pulgas para ler o guião daquela que seria a história final, que revisitava as personagens que tão bem conhecemos e nos apresentava uma nova geração. Não podendo comparecer a nenhuma das exibições da peça em Londres, poder ler o guião era melhor do que nada. Comprei o livro em pré-venda e esperei ansiosamente, tal como Harry esperava por notícias dos seus amigos enquanto estava confinado ao seu quarto no número 4 de Privet Drive.

Gostava de poder aqui escrever  que adorei o livro; que, mais um vez, J.K. Rowling não desapontou, que me trouxe por mais alguns momentos as minhas personagens favoritas, deu-lhes vida e reavivou-me! Não posso. Não posso porque, se o fizesse, estava a deixar de lado a minha capacidade crítica para dar lugar à imparcialidade que as coisas que gostamos tanta vezes nos imbui.

Houve uma série de coisas que me deixaram de sobrolho franzido, a questionar a necessidade delas e se esta última história, passados vinte e dois anos da timeline do mundo Harry Potter (três anos depois da cena final do último livro, Os Talismãs Da Morte) não poderia ter sido desenvolvida de outra forma.

*spoliers ahead* 

Para começar, uma troupe que acontece regularmente e me irrita em geral é serem criadas possibilidades em coisas que eram impossíveis. Sim, aquilo não dava mas, por qualquer motivo, convenientemente já dá. Os escritores devem manter-se fieis às impossibilidades que criam, ou acabam por deixar de ser credíveis perante o leitor e, neste caso, isto aconteceu em três vertentes: Harry perdeu a sua capacidade para falar Parseltongue quando o horcrux que Voldermort criou dentro dele, por acidente, foi destruído.  No quinto livro, A Ordem Da Fénix, na batalha no Ministério da Magia, todos os vira-tempo foram quebrados. Voldemort morreu. Tombado no chão, humanamente.

Neste livro, de repente Voldemort está de regresso e apenas por isso, Harry torna-se capaz de voltar a falar Parseltongue, a sua cicatriz volta a doer e há não um mas dois vira-tempo que miraculosamente, foram fabricados por amadores e que aparecem em duas alturas distintas, mas cruciais. A bit too much for me to handle.

Depois, há as personagens: não sei quem são o Harry, Ron e a Hermione que me aparecem neste livro mas eu tenho a certeza que, conhecendo-os tão bem quanto conheço, seria capaz de escrever fanfiction com elas e mantê-las mais em personagem do que eles aparecem neste livro. Em nenhuma das falas consigo rever os meus heróis favoritos. A relação entre Harry e Albus, que parecia tão chegada e tão forte no final de Os Talismãs Da Morte, de repente está no chão e não parece haver nada que a consiga levantar. Não, Harry Potter não seria assim. Ron, e a sua amizade sem precedentes, é quase inexistente na história servindo apenas de comic relief em algumas cenas, só para dizer que lá está, e Hermione, agora Ministra da Magia – uma tarefa que eu nunca lhe atribuiria, por razões óbvias – é demasiado fria, distante. Esta não é a minha Hermione.

A história em si – e tenho a certeza que isto se deve mais ao facto de, sendo uma peça, tudo acontecer demasiado rápido para o leitor conseguir assimilá-la da forma devida – tem potencial. Ou, teria. Mas acaba por ser um grande imbróglio de mundos alterados por viagens no tempo com diálogos, na minha opinião, demaisado lamechas. Talvez o meu coração se esteja a transfomrar em pedra, quem sabe. Nunca li diálogos destes em nenhum dos outros livros.

Nem sequer me apetece falar muito sobre a gravidez de Belatrix e Delphi. Não podia Voldemort ter engravidado uma outra personagem qualquer, alguém que nem sequer tivesse aparecido nas tramas anteriores? Faria muito mais sentido do que a gravidez escondida de Lestrange.

Gostei das pesonagens Albus e Scorpius, e embora as tenha entendido como um possível romance – e faria tanto sentido nesta altura, especialmente depois de practicamente terem apagado a homosexualidade de Dumbledore – fizeram questão de assinalar uma paixão feminina a cada um. Porquê? Não sei, visto que nenuma das paixonetsa me pareceu necessária para a narrativa, por isso, a não ser que pretendessem impossibilitar uma leitura homoerótica das duas personagens principais, não sei bem porque lhes atribuiram estas paixões. Podiam ter enchido linhas com tanto do que ficou por entender.

De consolação serve-me o facto de que, na verdade, não foi J.K. Rowling quem escreveu as falas para a peça, embora o livro tenha, obviamente, a sua aprovação.

Agora vão sair mais três mini-contos associados a eventos passados antes desta peça, esses sim escritos por J.K.Rowling e apenas para kindle. Algumas são histórias já publicadas no site Pottermore, editadas mas haverá textos novos. Esses, dos quais já li alguns, valem a pena.

Resta esperar também pelo filme, prestes a sair, do Fantastic Beasts And Where To Find Them.

E, se alguém perguntar, The Cursed Child não é canon. Se, eventualmente, tiver oportunidade de ir ver a peça, logo refaço a resenha.

Carina Pereira

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