BOTECO DAS TERTÚLIAS #12 | Introspecção

A Ana, do blog Anas Há Muitas e botequeira residente, trouxe para o nosso grupo uma discussão acerca do vídeo abaixo e hoje o Boteco das Tertúlias reflecte um pouco sobre metas, felicidade e realização pessoal.

Podem ver a reflexão das outras colaboradoras deste projecto nos seguintes links:

Anas Há Muitas

A Limonada Da Vida

Espresso And Stroopwafel

Life’s Textures

*

Ao longo dos anos as coisas que eu mais queria foram-se alterando. Acabei por entender que a minha visão sobre o meu futuro se assentava, na verdade, nos ideais que muita gente quer, que se espalham por aí como o cliché de uma vida feliz. Quando assim é, esquecemo-nos que o standard que pode fazer algumas pessoas felizes, não tem de ser o nosso standard de realização pessoal. Não há mal em ser-se a cor fora do risco, o pensamento fora da caixa. Mais importante ainda, é aprender a ignorar quem não entende que a felicidade pessoal não tem de coincidir com a felicidade dos outros. Não somos obrigados a seguir um trajecto porque, a tom de exemplo, os nossos pais assim o delinearam desde a nossa nascença, e é um risco fazer os pais – ou qualquer outra pessoa que nos seja querida – felizes quando isso não vai de encontro ao que nos deixa a nós satisfeitos.

Aos dezoito anos achava que aquilo que eu queria para o meu futuro era um emprego que gostasse, alguém com quem partilhar a vida e isso bastava. É esse, afinal, o pináculo de felicidade que nos vendem e nos transmitem. Aos vinte e nove, sei melhor. Sei que nada disto é obrigatório para eu encontrar a felicidade e a realização pessoal.

Tinha pressa, aos dezoito, de encontrar a cara metade, achava que já tinha perdido metade da vida sem encontrar a única coisa que valia a pena. Hoje, sei que há tantas outras coisas a valerem a pena e que o tempo também consegue ser bondoso. Principalmente, aprendi que sou feliz sem encaixar em nenhum dos moldes que a sociedade impõe – conquanto até possa ser feliz nesses moldes também, desde que seja eu a defini-los. Também não devo nada a ninguém – se há quem sonhe em ter netos e sobrinhos, a responsável por esses sonhos não sou eu, logo também não sou responsável pelas desilusões. A desilusão é, muitas vezes, o resultado de uma ilusão que criámos sozinhos e ninguém tem de responder por ela.

Não sou boa a delinear projectos porque, como já disse em vários textos, sou uma criadora de impossíveis. Quando o objectivo é mais alto do que eu, evito ir buscar cadeiras e escadotes; arrumo-o numa gaveta qualquer, sem fundo. Talvez seja o meu maior defeito, deter-me a mim própria. Tenho-me deixado levar pela vida, e na inércia vou encontrando o lado bom das coisas.

Talvez seja culpa do meu lado optimista: como sou – facilmente – feliz, nem sequer me passa pela cabeça acreditar que este deixar-me levar não termine exactamente da forma que eu quero. Afinal, o que eu quero está em constante mudança. Tal qual como eu. E, quando é mesmo preciso, também sei deixar para trás aquilo que já morreu e reconstruir-me, pouco a pouco vou-me tornando naquilo que quero ser: um ser melhor.

Carina Pereira

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