Amsterdão – Holanda | Parte II

parte I

Museu Van Gogh

No segundo dia da viagem a Amsterdão, houve dois factos que condicionaram e definiram o que íamos fazer a seguir. Um deles, a má escolha de sapatos feita por mim que, em dois dias, já tinha maltratado os meus pés mais do que uma vida inteira sobre eles. O outro, o tempo. Não o do relógio, mas o tempo sombrio e frio que fazia. Para mim, não foi mau; sempre quisera visitar o museu de van Gogh e agora tinha a oportunidade perfeita para o fazer.

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O museu fica numa praça bastante bonita e bastante verde. Em tempos de sol é fácil imaginar toda a gente a aproveitar os espaçosos relvados em volta. Tínhamos passado por lá no dia anterior. De um lado há ainda o museu de arte moderna e mais abaixo, logo depois do tão famoso I amsterdam, como podem ver na fotografia que publiquei aqui com o relato do primeiro dia da viagem, encontra-se o Rijksmuseum. Este último é uma das razões que me faz querer voltar a Amsterdão, visto que desta vez não houve possibilidade de o visitar.

De há uns anos para cá, a minha fascinação por Vincent van Gogh tem crescido. Não só pelos seus quadros – que têm tanto de verdadeiro e fascinante, quanto de tosco – mas também pela história de vida, pela sua luta constante – e que nunca terminou.

Antes de visitar o museu comecei a ler um livro romanceado sobre os últimos meses de vida do artista, chamado Leaving van Gogh. Uma leitura fabulosa que mistura factos reais com uma narrativa imaginada pela autora sobre o mistério que rodeia a morte de Vincent. Há várias histórias sobre ele que valem a pena a leitura, pois embora muito do que elas têm seja conjectura, há vários documentos – como as cartas trocadas entre van Gogh e o seu irmão mais novo, Theodorus – sobre os quais a conjectura se assenta. Irving Stone escreveu Lust For Life, um romance biográfico sobre a vida do pintor que eu estou a ler de momento. Há outros sobre o mesmo tema na minha lista de espera.

As melhores horas para visitar o museu não são, certamente, as matinais. No dia anterior à minha visita, quando passeava pelos terrenos circundantes e apreciava os edifícios, havia pouca gente à espera para entrar. Naquela sexta-feira de manhã, quando decidi colocar-me na fila para comprar o bilhete, o tempo de espera rondava a hora e meia. Estavam certos na estimativa; foi practicamente esse o tempo que demorei na fila até conseguir finalmente entrar no museu. O bilhete custa 17€.

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Mal se descem as escadas rolantes que dão acesso ao museu, uma loja com vários artigos envoltos na arte de van Gogh enfrenta-nos. É preciso auto-controlo para seguir para o que é realmente o museu, sem primeiro encher a mala de bugigangas. Às vezes, ter os trocos mais ou menos contados também ajuda.

O museu em si tem vários pisos. Nas paredes, além dos quadros do mestre pós-impressionista, corre uma timeline com factos sobre a sua vida. Vou debitar-vos alguns assim de cor.

Vincent Willem van Gogh nasceu a 30 de Março de 1853 em Zundert, no sul da Holanda. A sua família sempre esteve ligada à arte e ele, tal como os irmãos, teve acesso a uma boa educação. Primeiramente, trabalhou numa galeria de arte da família em Den Haag (Haia), no Norte da Holanda e foi depois transferido para uma filial da mesma sedeada em Londres, onde era um excelente vendedor de arte e tinha um salário bom. Lá, com uns vinte anos, apaixonou-se pela filha da sua senhoria. Pediu-a em casamento, mas a rapariga, apaixonada e prometida já a outro, repudiou-o. Vincent sempre fora emocional e mentalmente instável, e parecia depositar todas as suas forças numa só paixão. Quando isso falhava, falhava tudo o resto. Acabou por se desleixar no seu trabalho, recebendo mal os clientes até ser transferido para a mesma galeria, mas em Paris, onde o seu feitio e as suas opiniões sobre o que era a verdadeira arte acabaram por fazê-lo entrar em conflicto com os donos, e Vincent viu-se obrigado a voltar para a Holanda.

A partir dai, e até ter 27 anos, a vida de Vincent foi uma provação atrás da outra, numa procura constante do seu lugar e propósito no mundo. Tentou ser padre, tal como o seu pai o era, mas a sua visão sobre esse trabalho e uma propensão para o auto-sacrifício – chegava a passar fome para dar a quem precisava – não caiu bem aos olhos dos seus superiores e acabou por ser demitido do cargo que tinha numa pequena vila mineira na Bélgica. Demorou algum tempo até o seu irmão, quatro anos mais novo, o ir visitar e entender que Vincent precisava de um guia, algum lugar por onde recomeçar e um suporte para ter tempo de descobrir o seu propósito. Vincent tinha-se virado para a arte, e Theo prometeu ajudá-lo, providenciando todos os meses uma soma de dinheiro que permitisse a Vincent viver com o mínimo possível enquanto seguia o seu caminho. Theo era art dealer, ganhava bem, e cumpriu esta promessa até à morte de Vincent.

Em toda a sua vida, van Gogh parecia ter tendência a apaixonar-se pelas mulheres erradas: nenhuma sentia por ele o que ele sentia por elas. Regressou a Den Haag, em busca de um “mestre” que lhe ensinasse a arte que ele tanto queria ser capaz de amestrar e encontrou um no pintor Anton Mauve, que aceitou reluctantemente ensiná-lo. Como tantas das outras relações de van Gogh, também aquela com Mauve acabou da pior forma. Vincent tinha um feitio muito peculiar, chegando a ser conflictuoso.

Viveu depois em Paris com o seu irmão Theo, mas viver com Vincent não era fácil e van Gogh acabou por se mudar para outra parte de Paris. Nesta altura conheceu Paul Gauguin e, maravilhado com os seus quadros, conseguiu persuadi-lo a ir viver com ele por uns tempos em Arles, sul de França, na famosa casa amarela que Vincent chegou a retratar numa pintura. Paul Gauguin, perante a insistência de van Gogh, aceitou e é aqui que um dos mais conhecidos episódios no que a van Gogh diz respeito teve lugar.

A maior parte das alusões a van Gogh falam da sua orelha, ou da falta dela. É errado que van Gogh tenha decepado a orelha toda e enviado a mesma à sua amada. Na verdade, ele e Gauguin tiverem uma qualquer discussão – algo que se vinha a tornar frequente na altura – e, num episódio psicótico, Vincent ameaçou Gauguin com uma lâmina. Gauguin saiu de casa, deixando van Gogh para trás, que cortou parte do seu lóbulo, o embrulhou num pano, foi ao bordel mais próximo e o entregou a uma prostituta, pedindo-lhe que guardasse aquilo bem porque era importante. Se não fosse tão trágico, seria hilariante. Acabou por desfalecer e ser socorrido, acordando no dia seguinte sem se lembrar do sucedido. A partir daqui a sua saúde mental começou a degradar-se. A certa altura, ele próprio decidiu internar-se num asilo.

Depois de ter deixado o asilo, van Gogh mudou-se para Auvers-sur-Oise, a sua última morada. A 27 de Julho de 1890, com 37 anos, van Gogh dirige-se para a taberna Ravoux, ferido por um tiro no estômago. Com poucas condições para os médicos o poderem ajudar, acaba por falecer dois dias depois, de maneira pacífica, com Theo do seu lado (Theo viria a morrer seis meses mais tarde, de sífilis, provavelmente agravada pela morte do irmão).

A pistola com a qual Vincent se feriu no estômago nunca foi encontrada. Por causa da arma desaparecida, há teorias para a sua morte, claro. A minha preferida? Dois miúdos brincavam com uma arma no mesmo campo onde Vincent se encontrava. Por descuido, dispararam, atingindo o pintor. Para não os meter em sarilhos, Vincent decidiu fingir que a ferida tinha sido auto-infligida.

As suas últimas palavras, para o seu irmão Theo, foram: a tristeza durará para sempre.

Se há forma de os mortos saberem o que acontece por cá, espero que van Gogh saiba o quanto os seus quadros são apreciados e o quanto significam para tantos. Que a sua tristeza não tenha durado para sempre.

O museu tem uma data de quadros conhecidos, o maravilhoso – e pessoalmente, o meu favorito – Almond Blossoms, que Vincent pintou aquando do nascimento do seu sobrinho, filho de Theo, baptizado também de Vincent Willem van Gogh. Os girassóis, que calham de ser a minha flor favorita, e que deram a Vincent a sua alcunha, o pintor dos girassóis.

Foi a esposa de Theo que, após o falecimento do marido, reuniu os quadros que tornaram, postumamente, Vincent reconhecido como um dos maiores pintores do seu tempo. O museu de van Gogh em Amsterdão existe também graças ao neto de Vincent, o seu homónimo. As lojas que lá se encontram têm verdadeiras relíquias a preços bem razoáveis e é um lugar para regressar assim que possível.

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O meu segundo e último dia em Amsterdão, foi van Gogh. Daí, fomos buscar as coisas ao hostel, apanhamos o tram até à estação e seguimos no comboio com destino a Eindhoven, onde regressei a van Gogh e ao livro sobre os seus últimos dias.

Dificilmente poderia ter sido melhor.

Carina Pereira

de seguida: Bruges

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