Boteco Das Tertúlias #11 | Isto De Ser Português

Este mês portei-me muito mal! 😛 Fui de férias a Londres e, no caminho de comboio, aproveitei para escrever o texto para o Boteco, mas acabei por não ter tempo durante as férias para o publicar aqui!

Estou de volta, por isso tardou mas chegou, e aqui vos deixo o texto do mês de Julho, que fala nas peculiaridades de ser Português. Ganhámos o Europeu de futebol e outras mais medalhas do desporto e isso merece ser celebrado!

Não se esqueçam de ver os textos das outras meninas nos seguintes links:

Anas Há Muitas

A Limonada Da Vida

Espresso And Stroopwafel

Life’s Textures

Carina Pereira

*

Costuma dizer-se que, por vezes, para ver melhor as coisas, precisamos de nos afastar um pouco delas. Principalmente quando essas coisas são grandes demais para as vermos, por completo, ao perto.

Ser-se Português acentua-se quando deixa de ser a regra; em Portugal, na nossa própria individualidade, não deixamos também de ser um todo, malhas de uma mesma camisola, com umas e outras peculiaridades que, examinadas com cuidado, deixam a descoberto sermos aquilo sobre o que nem sequer pensamos. Lá fora, – cá fora – no entanto, entendemos que somos uma malha criada para um outro projecto e, aquilo que já somos de sobra em Portugal, derrama-se em tudo o que vemos à volta. Temos mais consciência da nossa portuguesisse, mesmo que ninguém a aponte ou mostre, mesmo que tentemos fugir dela. Quanto mais dela tentamos escapar, mais óbvio se torna o que realmente, de raíz, somos.

E o que é que somos? Paradoxais, no mínimo. Talvez nos tentem tirar os sonhos e ambições porque temos os trocos contados, talvez se reflicta em nós uma síndrome qualquer de inferioridade que nos leva a achar que o que vem de fora é que é bom, um estranho paradoxo para um povo que, no fundo e na superfície, se acha – e se sabe – bom.

Temos do melhor do mundo. Nas nossas garras humildes agarramos quem não é nosso pela comida, pelas paisagens, pela hospitalidade. As mesmas garras que arrancam quem parte do novo chão onde se assentam e nos impede de criar raízes verdadeiras noutros chãos do mundo. Vamo-nos acomodando, como uma planta mudada de vaso, mas a nossa seiva ainda corre nas ondas do Atlântico e nunca outro mar ou oceano vai ser chamado por nós com o mesmo direito de posse. Havemos sempre de voltar, porque levamos esse mesmo sal dentro da saudade.

Como qualquer povo, deixem-nos falar mal deste país, mas não se acomodem para o criticar se ele não vos pertencer também. Só nós podemos ser igualmente desapontados e orgulhosos, apaixonados por ele com reservas, mas sem dúvida.

Enchemos restaurantes com as nossas vozes e a mania de falar com gestos, indicamos o caminho certo a gente perdida levando-os quase pela mão, as mesas para três ou quatro dão para acomodar o estômago de um batalhão.

Isto de ser Português nem sempre é fácil, mas é tão bom! Podemos ser pobres, revoltados que pouco fazem para mudar um país que precisa de líderes que o amem mais do que a si mesmos, talvez esqueçamos na adversidade daquilo que somos capazes enquanto povo unido mas, – que se foda – quando chega a hora de sermos felizes, somo-lo como poucos sabem ser.

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