Sob Um Céu Escarlate I

Era Verão, daqueles em que quando o sol se deita o horizonte vira escarlate, como que em brasa.

Quando desci do avião, vinha meio zonza; tinha tomado um comprimido para dormir – o primeiro da minha vida – para descansar do medo e do aborrecimento. O livro que levara para ler dormitou também a viagem toda no meu colo, não-lido.

A primeira coisa que reparei, quando assentei pés no chão, foi a imensidão do céu. Um céu muito diferente do que eu costumava olhar, do que costumava pairar sobre a minha cabeça. Azul, sem fim; sentia que, se esticasse a minha mão alto o suficiente, lhe conseguiria tocar.

O Mário veio buscar-me ao aeroporto. Mal nos conhecíamos; sabia-o pelas letras e páginas que dele tinha lido – o livro que trazia comigo fora por ele escrito, com personagens tão meigas quanto o seu sorriso – e tinhamo-nos encontrado umas duas vezes em conferências. Foi, por isso, com agradável surpresa que aceitei o convite, quando me garantiu que a sua casa me acolheria se eu assim o quisesse. A oportunidade surgiu meses depois; precisava de escrever um artigo, e uns dias de férias longe de mim e dos meus parecia-me o ideal para refrescar ideias. Tentava, também eu, escrever sobre paisagens, sobre cores e sabores, e para isso precisava de sair de mim. Este chão e este céu ensinar-me-iam a ser outro alguém.

A viagem para casa – era agora a minha casa, durante este espaço de quatro dias – ajudou-me a despertar. Escutava o Mário, que conduzia o jipe de tecto aberto, a falar sobre os lugares por onde passavamos. Até ali era um contador de histórias, e cada pedra tinha um segredo a revelar. Falava das árvores como se sentissem, e das casas como se dali brotassem lendas. Tudo parecia apetecível à minha volta, desde as flores amarelas à água dos riachos.

Insisti em carregar a minha mala – teria agradecido a ajuda se fosse pesada, mas eu tinha trazido o menos possível; a máquina fotográfica, e os meus cadernos, trazia-os às costas, numa mochila novinha em folha que comprara para o efeito.

Ele mostrou-me o meu quarto, num primeiro andar arejado e depois, em cortesia, mostrou-me o resto da casa. Só o rés-do-chão era usado. O andar de cima, dois quartos, uma biblioteca e uma casa-de-banho, eram para as visitas. Antes, explicou-me ele, dormia lá em cima, porque a vista da janela é de perder o ar, mas agora já lhe doíam os ossos quando tinha de subir as escadas, e a mulher preferia assim. Sempre fora de sonhos baixios, explicou-me com um sorriso. Eu sorri de volta, sentindo-lhe já um carinho; era como um tio perdido que eu reencontrara e reconhecera de toda a vida.

Emília, a esposa, era baixa, e não tomava para si quase parte nenhuma do mundo. Discreta, quando falava quase cantava, balançava as palavras na ponta da língua. Deu-me vontade de abraçá-la. Em vez, segui-os lá para fora. O terraço, em frente à casa, tinha um jardim desarranjado – é a nossa obra de Santa Lurdes, brincavam – e flores desenquadradas, sem qualquer organização. Era acolhedor, familiar.

Sentamo-nos a beber um chá frio, e foi quando tu apareceste.

Trazias o cabelo desgrenhado, os caracóis caiam-te ligeiramente abaixo das orelhas, pretos como uma noite sem lua. Pareceste notar onde pousara a minha atenção, tocaste no cabelo e sorriste. Ao sorrir os teus olhos eram ainda mais pequenos, as rugas nos cantos espraiavam-se preguiçosamente, dando-te carisma e não idade. Tinhas a pele torrada pelo sol, barba de alguns dias, e as mãos sujas de terra.

Henrique. Tinha-te visto algumas vezes. Lido outras tantas. Éramos colegas de profissão, embora tu e eu procurássemos histórias diferentes. Eu era objectiva, concisa, como uma jornalista sempre deve ser. Tu eras o crítico, o subjectivo, eras o meu pior pesadelo. Exagero, eu sei. Na verdade, lia-te com graça, porque tinhas coragem para ser quem eu nem sequer ousava.

Não te achava bonito. Interessante, sim. Tinhas aquele qualquer charme que a rebeldia dá. Despreendido, certamente. Talvez tivesse sido isso a puxar-me para ti: ter entendido que nunca pertencerias a ninguém. Às vezes, também me engano.

Tinha de trabalhar. No dia seguinte era tempo de me sentar a sós comigo mesma e começar a alinhavar o que, semanas antes, tinha já planeado. É claro que os meus planos iam sair todos forjados, e eu sabia-o de antemão. Em alturas caminhamos em frente como se não soubessemos o que está prestes a acontecer, mas sabendo-o bem.

Ficaste connosco, pegaste num copo para ti – sujaste-o de terra e depois, limpaste as mãos aos calções que trazias – e bebeste de um trago. Só depois, de garganta fresca, estendeste-me a mão, já o Mário nos apresentava. Ainda assim, sujaste a minha. Não me importei.

Éramos quatro, sentados no terraço, num final de tarde quente, a beber chá de limão frio e doce, e a conversar preguiçosamente sobre nada. Senti que o tempo aqui, era diferente, que se arrastava pelas frestas da nossa conversa e abrandava. Ou, talvez, fosse apenas porque os dias eram longos, e as noites começavam muito depois daquilo a que eu estava habituada.

Horas depois do jantar, um jantar em que nos alimentámos também da companhia uns do outros, em que as bebidas frescas continuaram a ser servidas com mais histórias, e o riso de quem escutava condimentou o serão, subimos juntos para o piso superior. Eu estava cansada. Tinha pedido permissão a Mário para lhe espiolhar a biblioteca daquele piso, mas o sono parecia estar a levar-me a melhor.

Vocês eram amigos; tinhas lido as obras dele, tinhas criticado o seu trabalho e, mesmo nas divergências mas, sobretudo, nos ideais parecidos, tinham atado laços cegos, daqueles que uma vida não desamarra. Emília tratava-te como um irmão mais novo, e até a terra debaixo dos teus pés, que lhes pertencia, parecia ter-se curvado à tua presença. Era assídua; conhecias a casa e os terrenos em volta, tratavas das flores – daí a desordenação do jardim, vim a descobrir mais tarde – mesmo sem perceberes nada sobre elas e dos esforços vãos de Emília e Mário para te ensinarem, e quando aqui regressavas deixavas mais do que companhia.

Alguns dos livros ali, na biblioteca daquele piso que nos tinham oferecido, explicaste-me, eram teus. Alguns comprados, a maioria oferecidos. Sempre os trazias para que, também eles, os pudessem ler.

Vi para lá da janela, sem haver verdadeiramente nada para ver. O verde dos campos era agora noite, e ao fundo distinguia-se a silhueta de algumas casas, ainda iluminadas, ainda por ir deitar. Quando olhei para cima um mar de estrelas equilibrava-se no petróleo do céu. Não reconheci nenhuma constelação; como disse, este céu não era o meu.

Despedi-me, um boa-noite marinado em cansaço, e tu respondeste da mesma forma. Antes de fechar a porta do quarto olhei para trás. Seria capaz de me apaixonar por ti?, questionei-me, enquanto acendias a luz do teu quarto e a tua sombra se iluminava. Talvez, mas não tinha de o fazer. Não tinha de o fazer.

Carina Pereira

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