Boteco Das Tertúlias|#6 Valha-nos São Valentim

Neste Fevereiro de tempestade, despedimo-nos de uma das partes deste nosso boteco. A Catarina, do byCatarina.com, foi obrigada a deixar-nos por obrigações profissionais. Para trás deixa excelentes contribuições e aconselho todos a darem uma vista de olhos ao blog dela. Da nossa parte, agradecemos o tempo que pudemos contar com a sua colaboração.

Mas, como tão bem cantaria Freddie Mercury, The Show Must Go On, e aqui estamos nós agora – reduzidas a quatro elementos, mas com vontade de trabalhar – para vos continuar a fazer chegar um novo tema a cada mês.

Desta vez, porque a época assim o pede, falamos sobre o dia do amor. Apeteceu-nos trazer à baila o Santinho dos Corações, festejado a 14 de Fevereiro em todo o mundo.

Deixo-vos a minha reflexão sobre esta data e convido-vos a espreitarem também os outros cantinhos que tornam este boteco numa tertúlia completa:

A Limonada Da Vida

Espresso And StroopwafelEspresso And Stroopwafel

Life’s Textures

E que o amor – em todas as formas e feitios – vos sorria sempre! Até ao mês que vem!

*


 

Já vem sendo hábito, em datas tomadas como especiais, serem apregoadas pela blogosfera as duas faces de uma mesma moeda: por um lado o sentimentalismo intrínseco à data em questão, as mensagens cliché cheias de boa vontade e a crença de que, neste dia, tudo é luminoso e puro.  Por outro, lá vem a torrente de mal-dizer, de apregoar aos quatro cantos a inutilidade de tal data, variações, no fundo, de uma mesma frase-cliché adaptada ao momento: o (preencher de acordo com a data relevante) é quando um homem quer.

Certo. As datas especiais são quando cada um de nós quer, e não precisamos de aguardar ansiosamente agarrados ao calendário, para finalmente fazermos o que quer que seja: uma doação, um gesto bonito, oferecermos uma flor ou juras de amor eterno. Mas isso também não significa que estar certo passe por esmifrar com desdém cada data-cliché, – que são todas elas, se pensarmos bem – que acordar de manhã com um ódio medonho àquilo que a maioria ama nos torne melhores do que os outros, mais atentos, mais dignos dos gestos que fazemos. Afinal, se todos os dias são dias de demonstrar o amor pelos outros, talvez este dia o possa ser ainda mais.

Não concordo que o São Valentim ou o Natal se tenham tornado datas meramente comerciais. Não, as pessoas é que se tornaram mais comerciais, e isso surge de um aumento do poder de compra e não de uma diminuição nos valores morais. No tempo da minha mãe, havia castanhas no sapatinho. O que não se podia dar, era retribuido em amor e carinho. Hoje em dia, a minha sobrinha recebe mais prendas do que aquelas que consegue contar, e também recebe em dobro amor e carinho. As prendas não são substitutos de afectos mas, é um facto, damos mais prendas materiais a quem mais amamos. Quando podemos. Porque o material, conquanto não possa preencher o que o amor oferece, pode ser um extra nesta coisa de mostrarmos aos outros o quanto gostamos deles. Desde que, na sua falta, continuemos a saber que um beijo vale mais do que um relógio novo.

Odiar São Valentim, porque está mais cheio de jantares caros à luz de velas, e prendas que não se dão em tal quantidade no ano inteiro, parece-me exactamente o oposto do que esta data precisa.

A par com os actos de amor, talvez este dia se tenha tornado também uma desculpa para os solteiros celebrarem a sua condição com maior euforia, mas que mal há nisso? Não há nada de ridículo em juntar quem se ressente mais neste dia, porque não há uma companhia para partilhar a data, quem finge que dela não precisa ou quem, efectivamente, está muito bem solteiro. Ridículo é usar as fragilidades dos outros para lhes tentar cortar as asas, apontar com dedo certeiro uma atitude que não magoa ninguém. Que os restaurantes se encham também de solteiros – ressabiados, até – para que este dia deixe de fazer sentir tão só quem, à sua passagem, se perde em memórias e ânsias daquilo que não volta ou do que ainda não chegou.

Não quero, de todo, dizer que a data tem que agradar a quem quer que seja. Não tem. Mas não é preciso achincalhar com desdém quem dela gosta, numa tentativa de se destacar dos outros, tão óbvios, tão materialistas, tão cliché. Tão subjugados a mais um dia que lhes diz o que fazer. Quem ama não precisa do dia para aprender a amar, tal como quem não ama também não saberá amar neste.

Nada disso é desculpa para arrastar a data pela lama; São Valentim não morreu  para isto.

Carina Pereira

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