Sob Um Tecto Quase Branco

Parte I 

O tecto acima de mim era branco. Bem, quase. Havia lá marcas que nenhum de nós conseguira apagar naquela sexta-feira de férias em que o pintámos a dois. Não foi, como os ecrãs de cinema nos mostram tantas vezes, um pintar cheio de risos e caras sujas, mas felizes. Aborrecemo-nos, porque estávamos cansados depois de uma semana de mudanças que ainda nem sequer estavam terminadas, zangámo-nos porque férias não era sinónimo daquilo, e acabamos a jantar frente-a-frente sem dizer uma palavra, aí sim, cheios de tinta nas mãos, nos cabelos, e na cara. Nenhum de nós era exactamente um pintor exímio.

Só voltamos a dirigir palavras quando, estafados, acabamos por nos aconchegar nos braços um do outro. Eu fui tomar banho, e senti a tua mão gelada nas minhas costas, pedidndo para ocupar algum do espaço. Sabia que a água, assim em jorro, não nos ia aquecer aos dois, mas o teu abraço aquecer-me-ia o suficiente. Não tentámos pintar melhor o tecto; afinal, era só um tecto.

O tecto acima de mim era quase branco e eu senti a tua mão a percorrer às cegas o meu braço nu. Olhei-te, embalado pela tua carícia, e no meu suspiro sussurraste o desafio proposto quero ter um bebé teu. E aquilo era tudo o que eu queria, porque eu também queria ter um bebé teu. Ou dois. Mas, para já, um parecia-me bem.

Ainda levaste um mês ou dois a deitar no lixo o que até agora nos impedira de ser pais. Ainda levaste um mês ou dois a enrolar a palavra na tua língua para ter a certeza que o papel te serviria. Mãe. Ías dizendo baixinho, para ti, e eu ouvia e sorria sem dizer nada. Também eu, em lugares-comum do meu dia segredava o papel que me cabería, e cada vez mais deixava de ser eu apenas eu, e era eu, Pai.

Ainda levou pouco mais de um ano a percebermos que as palavras sussurradas e o desejo destas se tornarem nomes, os nossos nomes, não estavam a ser suficientes. A primeira parte foi fácil. Exames. Demos aquilo que nos pediram. Depois, e é neste depois que sempre me recordo daquele tecto quase branco.

As palavras do médico eram distintas. Fáceis de compreender. Fiquei ali por uns minutos, a tentar apenas saber ao certo como reagir. Afinal, o problema era eu. Infértil. Não, não havia forma alguma de eu poder ser pai. Falou de opções, claro. Ouvimo-las em silêncio e saímos sem que nos pressionassem a tomar alguma.

Caminhámos do consultório até ao carro, e nunca um caminho me pareceu tão longo. Não trocámos palavra, não nos olhámos sequer. Queria o teu abraço, aquele que me deste quando me roubaste o espaço no chuveiro, ou talvez quisesse apenas voltar atrás, quando as certezas eram outras. Quando as certezas eram ainda possibilidades. Não tive nenhuma das coisas que queria. Só aquele silêncio estéril. Como eu.

Sentei-me no lugar do condutor; irónico, visto que eu estava tão perdido. Tu sentaste-te no lugar de sempre, ao meu lado. No carro, e na vida, sempre ao meu lado. Como quando eu olhava aquele tecto quase branco e a tua mão me acariciou o braço e me disseste quero ter um bebé teu. Agora, quase te conseguia ouvir dizê-lo de novo. Mas em súplica, em desesperança.

Fitávamos o caminho em frente como quem tenta encontrar um futuro qualquer. Foi então que a tua mão encontrou caminho na minha. Primeiro, os teus dedos sobre os meus, depois os teus dedos no meio dos meus. Olhei-te, já que em frente, naquele futuro qualquer, eu não conseguia olhar nada. Sorrias. Não um sorriso, mas um sorriso que era um abraço quente. Olhos rasos de água, sempre a água. Puxaste-me para ti e encostaste-me ao teu corpo, o melhor que conseguias. Tinhamos tanto entre nós agora. Não só as caixa de mudanças do carro, mas metáforas que eram folhas de papel em branco com outros caminhos que íamos ter que traçar. E de novo sussurraste um desafio eu quero ter um filho contigo.

Decidimos adoptar. E eu ia dizendo que era loucura, quando a culpa me atacava, porque nunca irias sentir a graça de uma grávida, que era injusto o provilégio que eu te estava a tirar. E tu ias dizendo que era loucura, e que ser mãe era o que querias, o privilégio que eu te estava a dar. Que me perdoavas fazer-te perder as dores de parto, e os enjoos matinais, e os pés inchados ao fim do dia, e não poderes dormir mais de barriga para baixo, como gostavas. Ironizavas, e eu chorava depois quando não me podias ver, mas tu sabias, e de novo me abraçaste e me roubaste espaço no chuveiro e eu entendi que ia ficar tudo bem. Que tu não deixarias que ficasse de outra forma.

Três anos depois as palavras materializaram-se. Um rapaz tímido, de sorriso meigo, que outros infertéis de amor tinham deixado para trás. Nele, eras Mãe, e eu era Pai.

Anos mais tarde, sentados num banco de jardim a vê-lo brincar, a pergunta surgiu, numa curiosidade sem qualquer pretensão de maldade o vosso pequenote, é mais parecido com quem?

Sorriste, olhaste para mim, e respondeste certeira, como sempre tem o coração do pai.

Não. Tem o teu. Sempre o teu. Felizmente, o teu.

Carina Pereira

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4 thoughts on “Sob Um Tecto Quase Branco

      • João Alberto Roque diz:

        Gosto sempre dos teus contos. Não vou muitas vezes ao teu blogue, mas quando vou leio quase tudo o que publicaste desde a última visita.
        Quanto a mim, ando com falta de tempo, e mais ainda de disponibilidade mental, para colocar no blogue o que escrevo.
        Textos em prosa escrevo para tertúlias, uma delas num grupo do fechado no facebook, com datas limite para publicar… Outra é presencial, com local de encontro aqui em Aveiro. Vão “obrigando a escrever”, o que é bom.
        Além disso, vou escrevendo sobretudo poesia, ou para a “gaveta” ou vou participando em concursos (pela mesma razão de me estimularem a escrever) desde que possa enviar os textos por e-mail. Um beijo.

        Liked by 1 person

      • contadordestorias diz:

        Fico feliz de ouvir isso, claro! É sempre bom saber que há quem nos lê. Mas entendo que se foque em outros projectos fora do blog, desde que o mantenham a escrever, isso é que interessa! É o mesmo comigo! Beijinhos!

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