O Vendedor De Partes Soltas

Lúcia limpou bem os pés no tapete pousado à porta antes de a abrir e, anunciada pelo toque da campainha, entrar na loja. Era uma loja que, sem ser grande, nem pequena, estava coberta a toda a volta por armários de madeira escura e mal polida. Os armários, esses, continham gavetinhas, gavetas e gavetões, e de dentro delas parecia pulsar a própria vida.

Não era mentira. Pulsava.

O vendedor de partes apareceu de lá do fundo, que é de onde todos os vendedores de lojas assim, sem serem grandes, nem pequenas, aparecem, quando a campainha da porta retine. Olhou-a, de alto a baixo; carregava consigo uma gaveta igual às tantas outras que ali eram parede. Limpava-a com um pedaço de pano usado. Poderia ter sido, em tempos, uma camisola antiga, ou o que sobrara de uns calções de praia, mas já não era possível adivinhar as cores ou os padrões por causa do desgaste. Contrastava o pano com as mãos do vendedor. Essas, eram delicadas, esguias e suaves. As suas unhas estavam bem arranjadas, e os dedos não tinham calos.

Quando a olhou, Lúcia entendeu que ele adivinhara o porquê de ela ter vindo. Os olhos dele pousaram mais longamente no lado esquerdo do seu peito, onde o coração lhe doía. Esperou que ele falasse primeiro.

– O que deseja?

A voz era áspera, mas musicada, como se uma serra tivesse aprendido a dedilhar as cordas transparentes de uma harpa. Talvez, por isso, a tivesse desconcertado.

Lúcia respirou suavemente, para ele não lhe notar o nervosismo da postura, e respondeu:

– Um coração.

O vendedor pousou a gaveta vazia e já limpa no seu sítio, e depois encarou Lúcia. Encolheu os ombros, abriu as mãos, palmas para o céu, e a sua expressão suavizou-se, como o primeiro raio de sol que espreita por entre as nuvens depois de um aguaceiro forte.

– Já não temos. É o que toda a gente me vem pedir. As pessoas deviam ter mais cuidado; andam com o coração ao deus de Ará, e qualquer falha no manuseamento lhos desloca do peito. Depois, já não serve mais lá bem. Ainda ontem veio cá um rapaz, é o segundo coração que lhe vendo em quinze dias. Foi o meu último, agora não tenho mais. Para o mês que vem, talvez.

Lúcia desapertou as mãos que tinha junto ao peito, sobre esse seu coração também ao deus de Ará. Deixou-as cairem a seu lado. Viera de tão longe, uma viagem que parecera durar uma vida. Não a poderia fazer de novo.

O vendedor, com as gavetas cheias de tantas outras partes, abarcou com um movimento de braço todas as possibilidades.

– Posso ajudá-la com outra coisa? Uns pulmões? São muito populares hoje em dia, e há uma máquina de tabaco lá atrás…

Lúcia abanou a cabeça. Tentou sorrir, para quebrar de vez o embaraço e a desilusão, mas sentiu o coração a deslocar-se mais um pouco. Tentara tantas vezes aferrolhá-lo, para que não lhe andasse assim a chocalhar entre as costelas.

– E olhos? Tem olhos?

E o vendedor entendeu. Já que não podia sarar de imediato o coração desenquadrado, ia encantar outros corações que por aí andassem, ainda bem ajustados nas avenidas dos seus próprios peitos.

– Sim, – respondeu, e foi às caixas mais altas, às relíquias mais preciosas, porque quem pode pagar um coração, pode pagar os melhores olhos desta terra – Tenho estes azuis turqueza, uma raridade…

Mas Lúcia interrompeu-o, estendeu a mão, abanou a cabeça.

– Não. Quero aqueles.

Para a estante mais baixa, apontou certeira, dedo em riste.

O vendedor olhou duas vezes, depois mais uma, para ela. Lúcia tinha já olhos castanhos, mais belos ainda do que aqueles que, com tanta certeza, indicava.

– Aqueles. – Lúcia insistiu, perante o sobrolho franzido do vendedor, perante a hesitação do seu gesto.

O vendedor acenou, colocou os olhos turquesa de volta ao lugar a que pertenciam, e depois pegou nos olhos que Lúcia escolhera. Levou-a para dentro e terminou a operação em minutos. Era minucioso, treinado.

Lúcia não sentira nada, apenas um ligeiro formigueiro quando ele lhe retirara os seus olhos antigos e lhe colocara os novos. Via melhor agora, mais longe. Guardou os seus antigos olhos, embrulhados em fina seda, dentro da bolsa, com carinho.

Pagou e depois saiu da loja. Esperou ver o vendedor abrigar-se de novo lá atrás e encarou-se por fim na vitrine espelhada.

Os seus olhos, os seus novos olhos, eram de um castanho mais escuro, mais opaco. Eram perfeitos.

Talvez assim, quando ele lhe perguntasse se ela o amava, e ela mentisse, dizendo que não, ele não conseguisse ler no fundo dos seus olhos a mentira, e resolvesse partir.

Talvez, quando ele chegasse a saber-lhe ao sabor de uma outra boca, perguntando-lhe se, ainda assim, o continuava a querer, não fosse então capaz de vislumbrar nos olhos dela o perdão que ela lhe dava ainda antes de ele pedir.

Talvez assim ele decidisse ir embora, já que a ela, por causa deste seu coração com defeito, lhe faltava a coragem.

E assim sendo, quem sabe, um dia o seu coração voltasse ao sítio, e os seus verdadeiros olhos também.

Carina Pereira

*

Inspirado no conto Coração De Porco, por Ondjaki, do livro E Se Amanhã O Medo

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