José Eduardo Agualusa Em Den Haag

Às vezes, os planos de última hora, são os melhores.

Quarta-feira à noite, a minha feed do facebook oferece-me uma notícia que eu esperava há muito, na própria página do autor: José Eduardo Agualusa ia estar na Holanda, especificamente em Haia, para falar do seu último livro traduzido para Holandês – A Teoria Geral Do Esquecimento – tudo inserido no festival de literatura de Den Haag.

Queria ir, claro. Queria ir com todo o querer, mas é-me comum encontrar impossibilidades em tudo. O evento era já nos dias seguintes. Den Haag não é exactamente ao fundo da rua. Mais: era na Holanda; onde raio podia eu deixar o carro na Holanda para poder ir de comboio? E se não chegava a Eindhoven a horas e perdia o último autocarro da noite e lá ficava, a vadiar até às primeiras horas de manhã? Conduzir 1h45 para chegar a Den Haag também não é a maior viagem já feita, mas para alguém que, como eu, teme o desconhecido e nunca tinha feito semelhante trajecto, ainda para mais com ameaça de neve, pareceu-me ambicioso. Arriscado. Lá está, peçam-me impossibilidades e eu arranjo-as.

Então, alguém veio em meu auxílio. E, mesmo depois de me ter sido dado um plano, continuei na dúvida. Vou, não vou? Tão em cima da hora, vou comprar bilhete para o evento, bilhete para o comboio, para ver Agualusa por vinte minutos. Valerá a pena?

Fernando Pessoa falou mais alto – e umas outras quantas vozes de incentivo – e, a ser verdade que tudo vale a pena se alma não é pequena, procurei a minha alma e fui.

Já disse várias vezes que adoro andar de comboio. Podia ir ali, horas e horas, de um lado para o outro, entretida por um livro ou algumas canções, sem me aborrecer. Deixei o carro em Eindhoven, comprei bilhete para Den Haag e, embalada por uma frase de Agualusa – o melhor da viagem é o sonho – lá fui eu sonhando na viagem.

Cheguei a Den Haag passavam dez minutos das cinco da tarde. O dia já escurecia, e a vontade de passear um pouco pela cidade esmoreceu. Estava frio e eu, sem saber bem como tudo ia correr, ainda estava um pouco ansiosa. Encontrei o local do evento facilmente – era apenas a uns minutos da estação – o Theater Aan Het Spui. É difícil de passar ao lado, visto que é a figura central que nos recebe. Tem luzes coloridas no chão, à entrada, e um aspecto acolhedor. Fui pedir informações acerca do evento da noite e, sabendo que as portas para as palestras abriam às sete, saí de novo para a rua.

Quero voltar à cidade um dia, porque nem sequer me afastei daquela praceta que rodeava o local do evento. Tinha restaurantes, um café simpático, imensas lojas, e um dos edifícios centrais era a biblioteca. Estava aberta, fechava às 20h00 e era enorme! Não cheguei a visitar o piso superior, mas na entrada era possível comprar souvenirs, e beber alguma coisa enquanto nos perdíamos na leitura. Queria regressar ali para tomar café, mas primeiro fui dar mais uma volta, jantei e só depois me instalei numa das mesas com um latte macchiato e o meu kindle. Tinha começado a ler, ironicamente, Um Estranho Em Goa, e decidi queimar a hora que ainda faltava nessas páginas.

Às sete voltei ao teatro. Entreguei o meu bilhete, fiz ainda algumas questões – aquilo estava vazio à parte de algum pessoal da organização – e sentei-me a uma mesa à espera. Fui lendo e fui olhando em volta, vendo quem ia chegando. A certa altura, ouvi falar Português; levantei os olhos do livro e ali, num grupo de cinco pessoas, estava o José Eduardo Agualusa.

É estranho porque, escrevendo em retrospectiva, só no dia seguinte é que a ficha me caiu e se assentou no facto de que, na verdade, eu conheci o meu escritor favorito. (Está bem, um dos meus dois, porque Mia Couto é bom demais para eu lhe dar o segundo lugar do pódio, as histórias de ambos podem ficar ali, no primeiro lugar de favoritismo.)

Olhei, à espera de uma pausa na conversa que o grupo estava a ter e que nunca mais chegava. Não queria ser rude, e ir lá interrompê-lo. Quando fui para Den Haag nem sequer era certo eu conseguir falar com ele, visto que teria de me vir embora antes do evento acabar. Mas continuei a olhar, de vez em quando, a ver se ele dava sinal de mim. E, a certa altura, funcionou. O José Eduardo Agualusa olhou, eu olhei de volta, ele ficou na dúvida e finalmente reparou que a atenção era para ele. Pediu licença ao grupo para se afastar, eu peguei nas minhas coisas, e encontramo-nos a meio caminho.

Cumprimentei-o, agradeci-lhe ter-me tirado algumas dúvidas que eu colocara através do facebook sobre o evento, e perguntei-lhe se me podia assinar os livros que eu trazia. Acedeu ao pedido de boa vontade, conversou um bocadinho, tirou fotografias. Não lhe quis roubar muito tempo – afinal a agenda dos últimos dias tinha sido cheia – e, quando ele olha para mim a escrever a data para finalizar o autógrafo e, a rir, me pergunta se estamos em Janeiro, dá para ver que o cansaço é sério. 😉

Despedi-me, com a promessa de nos vermos novamente na palestra, e às oito horas lá fui para a sala designada.

Era uma sala pequena e, infelizmente, não estava exactamente cheia. Digo infelizmente porque acho que, mesmo entendendo que um escritor de língua Portuguesa vai ter certamente mais sucesso e atenção em países da mesma língua, gostava de ter visto a sala cheia. Mas, tanto melhor para mim, podia ver e ouvir melhor o que ia ser dito.

O tema da noite era O Texto Da Minha Vida, e os autores eram convidados a escolherem um texto que os tivesse marcado, moldado a sua escrita, servido de inspiração aos escritores em que se tinham tornado.

José Eduardo Agualusa, o primeiro autor a subir ao estrado para falar do seu texto, escolheu um livro. Escolheu Fernando Pessoa (Bernardo Soares, na verdade) e o seu Livro Do Desassossego.

O orador fez algumas perguntas – a palestra era em Inglês – e José Eduardo Agualusa foi explicando Fernando Pessoa, foi falando dos heterónimos e de como é extremamente difícil escolher apenas um texto. Tinha escolhido uma passagem do livro, mas também apontou que toda aquela obra, qualquer passagem sua, poderia ser o texto a sua vida. Aquele livro em particular, – do qual possui vários exemplares em vários lugares (a relembrar que apesar de ter nascido em Huambo, Angola, José Eduardo Agualusa vai morando entre Luanda, Lisboa e o Brasil) – viaja sempre com ele. A versão que ele prefere, (pois O Livro Do Desassossego não é um romance, ou um livro de poesia, mas um emaranhado de textos soltos e descomprometidos uns dos outros, que Fernando Pessoa guardou numa gaveta e nunca terminou e foi depois compilado por vários editores de formas diferentes) é a catalogada por Richard Zenith.

Não tomei apontamentos, e nunca antes li este livro mas, se a memória não me falha, deixo aqui o trecho que José Eduardo Agualusa escolheu.

“12. Invejo – mas não sei se invejo – aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço. Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Croché das coisas… Intervalo… Nada… De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo… Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter… Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a’ um filho vivo… Sim, croché…”

Agualusa falou também sobre A Teoria Geral Do Esquecimento, uma narrativa fabulosa e, questionado acerca do surgimento desta história, explicou que não se recorda ao certo de como a começou, mas que tem uma vaga ideia da história ter vindo até ele em sonhos, já que isso acontece com vários dos seus romances. (Deus quer, o homem sonha, e a obra nasce.)

Por pena os vinte minutos da palestra eram contados, e embora Agualusa tenha dado a entender que aprendeu a controlar alguma parte dos seus sonhos, o orador não fez perguntas acerca disso.

O escritor confidenciou também que, quando está a escrever e precisa de inspiração, de algo que o empurre para a história que quer criar, é sempre à poesia ou ao Livro Do Desassossego que recorre. Uma passagem, alguns versos, e as engrenagens começam a girar.

Falou ainda no facto de ter sido jornalista – e um mau jornalista – porque tudo no jornalismo tem de ser facto, mas para ele havia sempre um ” e se…?”. E foi assim que passou do jornalismo para a ficção, porque a ficção é a realidade depois de se perguntar “e se…?”.

Eram 20h20 quando o segundo escritor da noite a trazer um texto tomou o lugar ocupado por Agualusa, que se sentou ali, na primeira fila a escutá-lo também. Quando este terminou, às 20h40, peguei nas minhas coisas. Despedi-me do meu autor predilecto (!!!), agradeci mais uma vez a disponibilidade, e vim embora, de coração leve.

Valeu a pena uma tarde toda para poder ouvi-lo por vinte minutos, para ver de perto o construtor daquelas palavras que leio, e me lêem tantas vezes a mim.

 

A saber: José Eduardo Agualusa dobra as páginas dos livros. Foi assim que marcou a passagem escolhida n’ O Livro Do Desassossego. 🙂

Este foi o meu Milagrário Pessoal de Janeiro.

Carina Pereira

DSCF8921

 

Anúncios

One thought on “José Eduardo Agualusa Em Den Haag

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s