Boteco Das Tertúlias | #4 O Natal Da Minha Infância

Dezembro chegou e, apesar da azáfama do Natal, ainda houve tempo para nos encontrarmos todas neste nosso boteco.

Hoje fazemos uma viagem no tempo ao Natal das nossas infâncias. Não se esqueçam de dar uma vista de olhos nos outros Natais, os de quem aqui se reúne todos os meses!


Havia musgo, no Natal da minha infância. Daquele macio, que eu retirava de muros velhos que rodeavam florestas sem dono. Arrancava-se com as mãos e levava-se para casa, os dedos deliciosamente sujos de terra.

Encontrar a árvore de Natal era como embarcar numa aventura; uns quantos homens mais as crianças que quisessem ir, e lá seguíamos sorrateiros pelo bosque, para encontrar o mais farfalhudo, com as agulhas ainda verdes. Aqueles pinheiros não nos pertencíam, mas nunca questionámos nenhum adulto acerca disso. E, assim, víamos as árvores a tombarem no chão, e tomávamos conta para o caso de alguém chegar e nos querer prender. Ao contrário dos muros, os pinheiros tinham donos, e arrancá-los assim era roubar.  No fim, ganhava vida com bolas e luzinhas no melhor canto da sala.

O presépio tinha mais personagens do que eu conseguia decorar. Os Reis Magos iam fazendo o caminho, eram mudados dia a dia, e só na noite de Natal, calcorreando o musgo cuidadosamente estendido, chegavam à mangedoura onde o menino Jesus se prostrava, rodeado pelos pais e pelos animais que o aqueciam. O meu presépio tinha também um pescador, e uma ponte, e o rio era feito de papel de prata enrugado. Para mim era a ideia mais brilhante que o meu pai alguma vez tinha tido.

Os presentes embrulhados nunca ficavam assim até à meia-noite, porque eu era impaciente, a mais nova da família e todos me faziam a vontade. Por volta das dez da noite, contrariando a lógica e a tradição o Pai Natal chegava, a adiantar serviço, e era um rasgar de papel; prendas, havia sempre imensas e, no entanto, eram principalmente roupa que, comprada nessa altura, a minha mãe fazia questão de embrulhar, só para ter mais um monte de papel colorido debaixo da árvore, só para eu poder passar de novo pela euforia de abrir mais uma. No final, havia roupa quentinha, chocolates e alguns brinquedos. Os melhores, de que ainda hoje me lembro, foram um piano cor-de-rosa com microfone, um cavalo de baloiço e uns patins em linha, que eu sempre quisera ter, mas que eram sempre muito caros. Três contos na altura, uma fortuna! No meu Natal dos seis anos lá acederam a comprá-los, usei-os até não mais me servirem.

Havia sempre o cheiro a doçarias, ao creme queimado por cima, mesmo no ponto, que a minha mãe fazia, a sonhos, dos que se comem mas também daqueles que nos devoram, e nos fazem ficar acordados a pensar no Natal seguinte.

O Natal da minha infância está aconchegado no meu coração, sempre pronto a ser desembrulhado, naqueles dias em que só a saudade me serve de agasalho.

Feliz Natal.

Carina Pereira

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6 thoughts on “Boteco Das Tertúlias | #4 O Natal Da Minha Infância

  1. espressoandstroopwafel diz:

    Na minha pequena terra, o que corriamos para encontrar (roubar) musgo 🙂 A arvore era comprada todos os anos, mas o musgo era dificil de encontrar. Que engracado, ao ler os vossos posts estou a viajar pelos meus Natais…acho que tem sido a melhor prepapacao para o Natal nestes dias de rebolico…um beijnho grande!

    Liked by 1 person

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