Adeus

Quando demos as mãos naquele Setembro ainda quente, sabíamos que os dias eram contados e fomos com a promessa de que o adeus era uma certeza. Prometemos, ali mesmo, de costas sobre os lençóis ainda quentes, e olhos fixos no tecto branco, que não viveríamos cada dia como se fosse o nosso último. Nós sabíamos quando o nosso último dia seria, por isso o melhor era viver este amor como se não fosse acabar. Afinal, quando só há uma promessa num tempo sem promessas, de nada vale viver com fervor o que já estamos a perder com o passar de cada hora. Foi tranquilo, o nosso amor sem precalços, e por isso foi feliz. Quando se sabe do fim não vale tentar apressá-lo.

Foste o primeiro rapaz a convidar-me para subir. Não sei se subiria com mais algum, pois quando subi contigo o meu coração deixou de ver outras inclinações. O teu quarto, num apartamento de estudantes que dividias com mais três, era tudo aquilo que o nosso amor jamais seria: desarrumado, cheio de cantos por encher.

Fizemos um calendário com papéis coloridos e desenhos a dois; os meus, meticulosos, os teus, atabalhoados, porque nunca soubeste desenhar. Sabias fazer contas, planear datas, contar os meses a fio até o nosso amor se desfiar. E celebrávamos: este é ao nosso fim que está para vir. De todas as certezas, tinhamos essa.

Despedimo-nos cada dia, em lugares cliché. Num ontem qualquer foi um banco de jardim que viu o nosso beijo de cinema, noutro foi uma estação de comboio onde me entregaste a flor que eu guardei depois no meu diário. Já não fecha, o meu diário, de tantas despedidas que fizemos, de tantas últimas flores que me deste. Cada dia o tempo era menos tempo, nunca deixámos o calendário que fizemos mentir.

Hoje não me despeço sabendo que num talvez qualquer as tantas milhas que nos separam teriam pouca importância. Não te solto os braços achando que havemos de encontrar uma forma de passar por cima de todo o tempo e todo o espaço. Porque o tempo que contámos bateu certo; afinal, foste tu quem as contas fez, e as contas que tu fazes nunca se enganam. Sei que isto é um adeus, e que o útimo beijo nesta estação de comboios onde ensaiámos tantos beijos últimos é o último de verdade. Vivemos o nosso amor sabendo que tinha os dias contados. Fizemo-lo bem.

O erro dos amores em reticências é ficarem por adivinhar, e por isso se adivinharem perfeitos. Quem sabe um dia eu, infeliz, de coração torcido por um amor falhado, ainda conte a alguém, talvez só a mim mesma, como contigo não teria sido assim. Só os amores que poderiam ter sido são amores eternos.

Despedimo-nos ao dizer olá, eu te amo, trouxe flores para ti, fiz café para levares, moro já no teu abraço, o meu coração é teu agora. Despedimo-nos nos silêncios que eram poucos, nos beijos que eram tantos, nas mãos que mal largamos desde aquele Setembro ainda quente.

Nunca pensei que em tão pouco tempo pudessem caber tantos adeus.

Carina Pereira

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