Boteco Das Tertúlias| #3 Viagens

O terceiro encontro do Boteco Das Tertúlias dá-se hoje, neste mês de Novembro de 2015. Hoje falamos de viagens.


Eu vou; agarro um desses panfletos que há de sobra em agências de sonhos e, cada dia, vejo as opções que melhor se adequam.

Onde quero ir hoje, hoje que está aqui cinzento e que a chuva me tira a vontade aos passos? Quem serei e por que caminhos me perderei para me encontrar? Não sei, mas sei o transporte que prefiro: a imaginação, que é segura, confortável, primeira classe desta viagem sem planos nem rumos. Aqui não há lugar a escolhas erradas, aqui a viagem e o destino têm o mesmo gosto, e não há pressa de chegar. Quando chego, regresso de novo, mas desta vez altero a planície que me rodeia, reinvento-me a mim mesma e vou outra vez.

Viajar não é para quem pode, pelo  menos quando a viagem não depende de sair de um lugar, não depende de ter a conta do banco cheia, não depende de ter tempo, disponibilidade. Viajar é o que tantas vezes fazemos de olhos fechados, de sorriso nos lábios, quando a vida nos descruza os quereres e poderes.

Eu vou, com ou sem escolha, de livre vontade ou agarrada à parte de mim que não consigo mudar. Todos os dias é uma aventura nova, que ficou pendente quando o sono levou a melhor de mim, mas logo me deu liberdade de a retomar assim que acordei e vi à minha volta os mesmos sítios, as mesmas ruas, as mesmas caras, a mesma vida.

As viagens que faço são secretas, e não dão para eternizar em câmaras escuras, nem para guardar entre folhas de diários. Mas também elas são vívidas, quase palpáveis. São mais eu do que o eu que eu me permito ser, neste mundo de escolhas onde não se pode voltar atrás, e onde tantas vezes a palavra sonho tem por sombra o imposível. É mais seguro ir quando se sabe que o ir não tem de ser para sempre. É mais seguro partir quando o adeus se apaga assim que se desejar, e a saudade vem de mansinho, se a chamarmos, mas vai de rompante, se a mandarmos ir. Quando os corações que deixamos para trás ainda são nossos, e não sabem que em algum momento deixaram de o ser.

Certas viagens são-me dadas. Têm páginas, capa e contra-capa e cabem inteirinhas numa estante. De outras sou autor, escrevo-as porque as preciso.

Viajar é o que fazemos para sairmos de nós. Gosto tanto de não estar em mim.

Carina Pereira

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10 thoughts on “Boteco Das Tertúlias| #3 Viagens

    • contadordestorias diz:

      Eu não disse que ando sempre a fugir ao que me é pedido? 🙂 Obrigada. Acho que, os do harry Potter me transportam sempre para qualquer lado. Há uma série de coisas que me vêm à cabeça – até lembranças de cheiros – quando penso nele. Mas o que me fez assim viajar mais, não só pela estória mas também pela escrita que é surreal, foi “The Night Circus”. Não sei como é que a autora consegue criar aquela atmosfera com a escrita dela, mas é fabulosa. E, já agora, pergunto o mesmo?

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  1. Limonada diz:

    Ui, eu lancei-te a pergunta e agora não sei se estou pronta para a responder… Nunca li, nem me identifico com os livros do Harry Potter. Admiro muito quem o faz, pois acho que é preciso ter uma imaginação e ainda alguma fantasia e inocência que é sempre de salutar, mesmo quando já somos crescidos.
    Li um recentemente que me levou a viajar até à minha infância: o Caçador do Verão de Hugo Gonçalves. aqui tens o limk se quiseres saber mais http://alimonadadavida.blogspot.pt/2015/07/o-cacador-do-verao.html

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    • contadordestorias diz:

      O Harry Potter cresceu comigo, li o primeiro livro com 13 anos… de maneira que nunca o estranhei, mesmo quando os releio, e faço-o regularmente. Já Nárnia, por exemplo, que li já adulta, não teve o mesmo efeito. Só li o primeiro. 🙂 Ah, agora vou ver esse! 😀

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      • Catarina Queiroz diz:

        Vou meter-me na vossa conversa! Os livros que mais me fizeram viajar foram “Os Cinco” da Enid Blyton! Adorei as “Cronicas de Narnia”, li todos ha uns bons anos atras. Mas recentemente todos os da colecção Game of Thrones, achei incríveis no género da fantasia (e prefiro mil vezes à série).

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      • contadordestorias diz:

        Eita, gosto tanto de saber estas coisas! Olha, eu não tive Os Cinco mas tive Uma Aventura a acompanhar-me! E li o Game of Thrones até meio do quarto livro. Gosto das histórias mas aquilo era tanta descrição, e nunca mais desenvolvia, zanguei.me com eles! 😀

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      • Catarina Queiroz diz:

        Eu só não aguentei as descrições dos Maias lol, as do Game of Thrones têm mais interesse porque são fantasiosas. Cheguei a ler alguns livros da coleção Uma Aventura quando vim de África para Portugal aos 10 anos, mas já era tarde, estava demasiado habituada aos autores ingleses.

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      • contadordestorias diz:

        Juro que me lembrei dos Maias por causa disso! Mas Os Maias eu li duas vezes, numa altura em que não tinha internet e, mais jovem, tinha mais paciência! 😀 Ah, curioso que eu gostei do Nárnia mas também achei que já fui tarde para o adorar!

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