Marco Rodrigues: Gent Rendeu-se Ao Fado

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Às 20h00 do antepenúltimo dia de espectáculos do Gent Festival van Vlaanderen, já no hall do teatro de Gent ecoavam conversas cruzadas e, de bilhete na mão, as pessoas amontoavam-se, à espera que lhes dessem entrada. O concerto começaria dali a meia-hora, e os Belgas são pontuais. A sala encheu depressa; uma sala bonita, com três balcões, cadeiras vermelhas e paredes trabalhadas. No palco uma viola de fado é pousada sobre a cadeira, estrategicamente colocada ao centro. Há ainda burburinho, mas as portas fecham-se, a luz esmorece e o público vira a sua atenção para o palco. Alguns não conhecem a voz da noite, não adivinham que dentro de nada será impossível esquecê-la.

Como é comum nestes concertos, são os instrumentistas quem primeiro pisa o palco. Pedro Viana carrega consigo a guitarra Portuguesa, Frederico Gato o baixo, e André Ramos a segunda viola do fado.  Acomodam-se, preparam-se.

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O baixo ressoa, qual cortina que se abre, com acordes conhecidos. Tantas Lisboas é o primeiro tema da noite, e Marco Rodrigues entra em palco entoando já a cantiga. O baixo, pontuando-a aqui e ali, não lhe retira a interpretação acapella. O fadista projecta a sua voz sem ajuda de microfones, e todos o escutam em silêncio. É quando termina que a sala entende tudo o que a noite promete.

O concerto, uma semana depois da apresentação do último disco, Fados do Fado, no Festival Caixa Alfama, assenta já neste último álbum, mas trouxe também até quem o ouviu temas anteriores. E Marco Rodrigues gosta de interagir, gosta de levar o público com ele, gosta de o trazer para as suas músicas. Lisboa Menina e Moça e Fado do Estudante são canções sobejamente conhecidas no meio fadista, mas em solos Belgas poucos as conseguem entoar. Isso não demoveu Marco Rodrigues de as tentar ensinar. Primeiro pela língua universal do Lalala, depois com a letra propriamente cantada. E o público aderiu.

A pujança do seu timbre é bem distinta; não é qualquer voz que enche uma sala assim, mas em temas como Loucura, Duas Lágrimas de Orvalho, ou A Rima Mais Bonita, a interpretação de Marco Rodrigues foi portentosa. Qualquer vídeo que se possa encontrar não faz jus àquilo que se ouve ao vivo. E se a entrega é grande enquanto ele se move sobre o palco, mão esquerda no bolso, a direita quase estendida, quase fechada, todo ele fado na postura, em nada a perde quando se senta entre os músicos e a viola vibra às suas mãos.

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Mas se o foco da noite é o fadista, a cumplicidade entre aqueles que o acompanham é notória. Trocam sorrisos, espicaçam-se, entretêm o público com a sua familiaridade. Frederico Gato, em particular, parece sempre perdido num mundo de alegria: de olhos fechados, cabeça a balançar e sorriso no rosto, é um gosto ver o gozo que o espectáculo lhe dá.

Foram vários os temas desfiados durante a noite, músicas de álbuns anteriores, e outras que se escutam regularmente na Casa de Fado onde Marco Rodrigues ainda actua, e da qual é director artístico, a Adega Machado. Do novo disco entraram no alinhamento A Rosinha dos Limões, Noite, Ai Se Os Meus Olhos Falassem, Acho Inúteis As Palavras, e Trigueirinha.

O final foi talvez o ponto alto de um concerto que levou até ao público o que de melhor se faz no nosso fado. Depois de receberem aplausos de uma audiência já em pé, e se retirarem pela primeira vez, são chamados ao palco para o encore da praxe. Os músicos, de intrumentos em mão, puxam uma cadeira e, com o pé direito sobre ela, apoiam os intrumentos contra si. Num improviso se encena uma desgarrada, tão comum em casas de fado, uma relíquia num concerto assim. Mas a surpresa não se fica por aqui, pois desta vez Marco Rodrigues não canta sozinho. André Ramos opõe-se às suas quadras, entoando em conjunto um Fado Corrido, É Tão Bom Ser Pequenino.

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O espírito malandro das desgarradas está bem presente e, mais uma vez – depois de um choradinho delicioso de Marco Rodrigues, que os faz tão bem – a cena se fecha com aplausos e ovações entusiastas.

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Eles agradecem, fazem vénias, e deixam o palco com toda a sala ainda em pé.

As considerações que se ouvem em volta são positivas; mesmo quem não entende o que se canta reconhece a emoção de tudo o que ouviu. Se mais provas fossem precisas para saber que este foi um espectáculo soberbo.

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Numa nota pessoal, este é um dos últimos concertos que vejo este ano. Desde Março que esperava o dia 25 de Setembro, e saí de Gent com o coração a rebentar pelas costuras. E se foi todo um fim-de-semana de novas experiências, foi também um de revelações: já no comboio a caminho de casa, a recordar tudo o que acontecera, a letra de Sérgio Godinho fez finalmente sentido, hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco, portanto… hoje soube me a tanto.

E soube-me a tanto.

Carina Pereira

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Fotografias por © Christophe Vander Eecken [x] [x]

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