Joana Amendoeira: Fado Com Doçura Em Maastricht

Roubando parte das palavras do inesquecível Vasco Santana, e alterando-as como me convém, “Fadistas há muitos!”, e para todos os gostos. Tantos que eu, ainda jovem neste meu amor pelo Fado, lá os vou descobrindo aos poucos.

Joana Amendoeira, conheci-a através do disco Brincar aos Fados. Tem uma voz melodiosa, que acompanha a expressão carinhosa com que se apresenta ao público. Se já a entendia como doce na forma de cantar, posso garantir que em palco a doçura se mantém. Mas desengane-se quem julga que doçura e garra são incompatíveis; Joana tem-nas na mesma dose.

Às 22h00 certas de um 19 de Setembro precocemente Outonal, na cidade Holandesa de Maastricht, as portas da sala Papyrus do Theatre aan het Vrijthof fecharam-se, e uma sala cheia conversava e contemplava o palco, adornado por quatro cadeiras e três instrumentos: guitarra Portuguesa, viola de fado e baixo. Em breve, os instrumentos insuspeitos que ali repousavam seriam abraçados pelos músicos: Pedro Amendoeira, João Filipe e Fernando Nani entraram em palco, o público aplaudiu e aguardou que a voz da noite a eles se juntasse. Chegou sem demora, num vestido branco que varria o chão com suavidade, contrastando talvez com o cerne típico do fado, mas afirmando em Joana Amendoeira a doçura de que acima falei.

A sala nunca escureceu completamente, mas o ambiente fadista impôs-se mesmo assim. A fadista ofereceu-nos músicas do seu novo disco, – de nome Muito Depois, que será editado brevemente – entreteu-nos com outras mais populares, deixando um cheirinho no ar a Santo António, e como se não fosse isso já bastante, ainda trouxe até nós fados tão conhecidos como Lisboa Menina e Moça, Fado das Horas (sobejamente conhecido na voz de Maria Teresa de Noronha), Estranha Forma De Vida e Barco Negro, ambos do reportório de Amália Rodrigues. Barco Negro, em especial, pôs a sala a cantarolar com o seu refrão corriqueiro, e Joana foi sempre uma excelente anfitriã. Do público pediu palmas, – não de ovação, essas foram-lhe dadas sem rogar, mas de acompanhamento – pediu canto, e deu em troca uma performance para recordar.

Mencionou os músicos que a acompanharam, os compositores dos fados tradicionais tocados, e os poetas, Tiago Torres Da Silva em particular, letrista de renome. Explicou atenciosamente, para quem as não entendia, as histórias que as músicas contavam.

Terminado o espectáculo, com o público de pé, muitas palmas, clamores e assobios de regozijo, Joana ainda se encontrou com quem com ela queria trocar uma palavra no hall. Deu autógrafos, tirou fotografias e manteve-se ali para dois dedos de conversa com aqueles que, momentos antes, se tinham rendido à sua sublime actuação.

Uma mais valia para o Festival de Música Sacra de Maastricht, onde este concerto se inseriu, um nome que esperamos poder escrever na agenda de fado dos anos vindouros.

Carina Pereira

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