Boteco Das Tertúlias|#1 O Que Desse Tempo Restou

E aqui se apresenta a que será, esperamos, a primeira de muitas publicações deste boteco. Destas tertúlias fazem parte, além da minha, mais quatro vozes. Neste Setembro chuvoso, falamos da escola, cada uma à sua maneira, cada uma com as suas memórias.

Não hesitem em tomar lugar nas várias mesas do boteco. Deixo-vos links para os outros textos, à laia de apresentação.

A Limonada Da Vida

ByCatarina

Espresso And Stroopwafel

Life’s Textures


Tenho uma sobrinha de sete anos que faz as caras de terror mais cómicas quando alguém lhe relembra que a escola está quase, quase a recomeçar. Durante o ano lectivo é vê-la a contar pelos dedos quantos dias faltam para o fim-de-semana e, se existe alguma regra é que, quando não há aulas, não se fala sobre a escola.

Não que ela seja má aluna, antes pelo contrário. Mas, desenrascando-se bastante bem quando tem de ser, não aprecia ser incomodada com trabalho quando é altura de aproveitar a pausa.

Eu, pelo contrário, sempre gostei da escola. Não necessariamente de estudar, – era daquelas que estudava no dia anterior ao exame, ajudada pela minha facilidade em decorar as coisas mais do que em aprendê-las – mas tinha gosto por saber mais. Não tenho jeito para ler livros sobre história, a maior parte das vezes aborreço-me, mas se me falarem com entusiasmo seja do que for, então ouço com curiosidade.

Nunca senti que a escola me tivesse cortado a criatividade; é certo que há sempre alturas em que parece que somos obrigados a remar contra a nossa própria maré para seguir a corrente do ensino, mas havia aulas que me inspiravam. A de Português era uma delas. Escrevi muitos poemas no canto das páginas do livro, quando deveria estar a ouvir o professor, um padre com um conhecimento de história imenso e que acabou por se tornar o meu professor favorito do liceu. E, para quem gosta de falar sobre as coisas – e eu não me calo – as aulas de Filosofia, Psicologia e Comunicação eram a altura ideal para cair nas boas graças dos professores. Escolhi a vertente Comunicação Social, do curso de Humanidades, e disse-me sempre a minha mãe que estranho teria sido eu escolher outra coisa. Talvez por isso, porque sempre gostei de interagir, de participar, a escola tivesse sido para mim um lugar para expandir ideias.

Os amigos ajudavam, é claro. Afinal, a escola também se faz de intervalos e, sendo eu a mais nova de uma fornada de primos e irmãos, passava tardes inteiras sozinha, sem ninguém que me entretesse. Talvez por isso nunca tenha perdido o hábito de conversar comigo mesma, e aprecio bastante estar sozinha mas, ir para a escola significava companhia, conversa, diversão. Tenho amigos que vêm já desde o primeiro ano de escola, pessoas com quem me encontro todos os verões, – quando vou de férias a Portugal – e com quem retomo a conversa como se o Verão passado tivesse tido lugar no dia anterior.

Da escola guardo, no entanto, outras memórias caricatas. Quem não se lembra dos mitos urbanos que passavam de boca em boca, mas ninguém sabia se era assim deveras? Falta colectiva não é falta. Se tiverem passdo cinco minutos do segundo toque e o professor vier ao fundo do corredor podemos ir embora, ainda assim. Ninguém tinha coragem de testar se os mitos eram verdade; protestavamos baixinho uns para os outros, mas seguíamos para a aula, por via das dúvidas. Éramos todos revolucionários, desde que não houvesse consequências.

Dos professores, também guardo um ou outro de forma vívida. O professor de Filosofia do décimo primeiro ano, que comia na aula enquanto estudava para o curso de matemática que estava a terminar, se equilibrava constantemente sobre os calcanhares, balançando para a frente e para trás – isso mereceu-lhe um apelido e uma canção que eu e uma amiga escrevemos com afinco, e cuja letra ainda hoje sei na ponta da língua – e que garantia que só faltaria a uma aula caso estivesse para morrer. Quando certo dia, com estupfacção, o segundo toque se deu e passou e ele não apareceu, entendemos que às vezes estar para morrer pode ser só uma infecção ocular.

Lembro também uma professora substituta de Inglês que, com o jeito descontraído que os professores jovens têm, nos fez um exame tão fácil que alunos de negativa tiraram catorze valores. Quando a professora efectiva regressou, já no terceiro período, deu-lhe o chiquebaque nervoso e queria descontar essa nota da média final. Felizmente para nós, não lhe foi permitido. Numa turma onde a maioria desprezava o Inglês, passamos todos, o que valeu à professora responsável pelo milagre uma despedida sentida, e uma caixa de chocolates.

E porque os professores de Filosofia são uma dádiva por si só, recordo o mais estrambólico de todos, do meu décimo ano. Luso-descendente, com um apelido Francês que ele nos ensinou a pronunciar, – visto que toda a gente arrastava o Francês pela lama com a nossa pronuncia nortenha – e que não obrigava ninguém a assistir às aulas, desde que nós nos organizassemos e três ou quatro aparecessem para  engodar as funcionárias. Cumprida esta regra, não havia faltas para ninguém.

Mas desengane-se quem achava que a balda era permitida. Os testes eram tão rigorosos quanto o esperado de um bom professor, e quem não ia à aula é que verdadeiramente se tramava: os discursos que ele debitava em cada uma continham toda a informação necessária para o teste, muito mais do que aquilo que pudessemos estudar pelo livro. Assim, faltar à aula poderia parecer sinal de esperteza, ainda por cima quando incentivado pelo próprio professor, que não queria na sala ninguém que lá não desejasse estar, mas, na verdade, faltar era um risco, porque os exames eram feitos para quem o ouvia com atenção.

O mesmo professor nos disse, a aulas tantas, uma frase que nunca esqueci. De pé sobre o estrado, em frente ao quadro de ardósia, olhou-nos com o seu ar costumeiro e entoou: “as pessoas repetem frases feitas e afirmam c’est la vie,” – e arrastava as consoantes, imitando o sotaque Português – “mas aprendam isto: não é c’est la vie. É la vie se fait!“ Olhou-nos por momentos, apreciando a forma como cada um de nós absorvia as suas palavras, e lá voltou para a sua forma chanfrada de estar na vida.

Recordando este tempo, e a maneira como todos os alunos que pelas salas dele tinham passado falavam da falta de parafusos que o incompletava, cada vez mais me convenço que de maluco ele podia ter muito, mas também não lhe faltaria o génio.

Há uns anos voltei também a encontrar a minha professora da primária. É de referir que a minha cara, conquanto obviamente mais velha, pouco mudou desde esses tempos. Ela olhou-me com alguma reticência e depois, ao ver-me sorrir em reconhecimento, perguntou se eu era a Carina. Eu acenei, satisfeita por ela ainda se recordar. “Lembro-me bem e ti, eras muito boa a Português,” – disse-me ela. Sorri mais. Se é assim que de mim se lembram, serve-me bem.

Esqueci muitos nomes, guardei sobretudo momentos. Às vezes é bom recuperar os dias que arquivamos lá no fundo da cachimónia, a recordação das coisas é o que nos vai mantendo jovens.

Posso sentar-me aqui, a falar de tempos idos com melancolia mas, ao revivê-los, eles acontecem de novo, ou assim parece. A minha mochila favorita cor-de-rosa ainda está novinha em folha e, a pouco e pouco, sou capaz de ler as legendas dos filmes na televisão; era afinal por isso que queria ir para a escola. Hoje recebo um prémio de poesia, e amanhã a minha paixoneta dos onze anos dar-me-á de novo um par de atacadores. Já não preciso da autorização dos meus pais para sair da escola, e as mochilas vão ficando para trás, carrego os poucos livros nos braços.

Tudo isto foi meu. É meu ainda.

Carina Pereira

school

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12 thoughts on “Boteco Das Tertúlias|#1 O Que Desse Tempo Restou

  1. Limonada diz:

    Que memórias tão boas! Faz-nos pensar também nas nossas memórias desses tempos, dos professores que hoje reencontramos no facebook, dos que nunca mais soubemos deles, dos que já partiram, memórias daquilo que fomos nesses tempos maravilhosos sem sabermos que os eram. Obrigada!

    Liked by 1 person

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