Para Lá Do Que Se Vê

Quanto mais falo das minhas experiências pessoais com outros, mais as pessoas se sentem à vontade para partilhar as delas comigo, e mais me apercebo que há muita gente que não é verdadeiramente feliz. E, no entanto, antes delas se abrirem comigo, eu olhava para dentro de mim mesma e contemplava as lombas todas no meu caminho e pensava que o mundo estava cheio de pessoas felizes. Pessoas certas das relações que tinham, das coisas que queriam fazer com a vida. Mas depois fui recolhendo contos de vida e descobri que afinal não, que estão tão ou mais perdidas do que eu. Simplesmente, porque não lhes via o mundo interior, não lhes conseguia adivinhar a aflição.

É pena. É pena que as fotografias sorridentes que eu vejo, quando se revela verdadeiramente o rolo e o momento se dissolve, estejam afinal cheias das mesmas dúvidas que durante meses me assombraram, do mesmo medo de dar o passo que se sabe que, inevitavelmente, é preciso. Pessoas que querem recomeçar e, no entanto, ainda aguardam um milagre qualquer que lhes vire a vida para um avesso que já esteve afinal às direitas, ou então uma mão qualquer que lhes empurre para a frente e as obrigue a fazer o que é necessário, o que é melhor, para que o recomeço, a seu tempo, lhes possa trazer uma esperança qualquer no futuro.

Quanto mais conto sobre mim, mais sei de outros contos que não são de fadas, mas em vez são pontes de madeira e corda, cujos fios que prendem uma margem à outra estão a dissolver-se pouco a pouco. E o pior nem é atravessar a ponte, é saber que canto menos danificado escolher, para causar os menores danos possíveis. A ponte há-de cair, outras pontes mais seguras e que levam a caminhos mais certos se erguerão, mas é preciso ter coragem para derrubar o que demorou tanto a construir.

Talvez sejamos todos demasiado inconstantes para amar. Demasiado apegados ao que morre lentamente, para que isso não nos mate também.

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9 thoughts on “Para Lá Do Que Se Vê

    • contadordestorias diz:

      Obrigada, Mia. Eu tive de deitar abaixo algumas que já não davam passagem a lado nenhum. Mas custa quando realmente já perdemos tanto tempo com elas. Por isso espero que por esses lados se encontrem formas de criar pontes até melhores do que as que havia antes! Um beijinho com força! ❤

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  1. Catarina diz:

    Concordo muito com esta tua análise. A questão é que a vida não é cor de rosa a toda a hora, mas acredito que temos de valorizar os pequenos momentos bons da vida para que ajudem a temperar os momentos menos bons. Acho que o mito do príncipe encantado e do milagre certeiro tem de terminar de vez,. Temos de passar a olhar com olhos de ver a nossa vida. Temos certamente de arranjar forças para mudar o que está mal e aceitar o que não conseguimos mudar. Mas sobretudo olhar para todas as variações de cinzento que a vida tem, porque essa, não é de todo a preto e branco. Acredito também, que o que nos falta como sociedade é uma boa dose de compaixão e empatia com quem nos rodeia. Talvez assim deixassem de existir tantas fotografias perfeitas, muitas delas bem longe do que é a realidade. Todos os dias penso que não queria ter a vida perfeita, mas uma vida cheia de amor, carinho, tranquilidade, saúde e sabedoria para poder atravessar os momentos menos bons da vida de uma forma mais positiva e tranquila. Porque a vida é como o mar, tanto tem tempestades como calmarias.

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    • contadordestorias diz:

      Acho mesmo que realmente falta empatia pelos outros, e também não me passaria pela cabeça pedir para ter uma vida perfeita. Só que, obviamente, as pessoas tendem a esconder o que vai mal com elas e nós, que só conhecemos o que connosco se passa a fundo, pensamos que elas são felizes, à maneira delas. E no fim, quando realmente elas se sentem á vontade para falar connosco, vemos que não, que têm tantas dúvidas quanto nós. Não sei se se lembra de um poema que eu coloquei aqui chamado os sensatos? Fala mesmo dos que, apesar de não serem lá muito felizes, lá continuam a fazer de conta que sim. E eu tenho dificuldade em manter relações só para não me chatear a mudar a vida toda que já tinha planeada, mas quando as coisas não dão certo não tenho muita pachorra para ser infeliz. No entanto, nem sempre tomo a decisão certa quando devo. Às vezes arrasto coisas que sei que não são aquilo que quero, até finalmente chegar a um ponto onde é mesmo preciso colocar um ponto final. Era isso que eu também queria transmitir. Há quem nunca tenha coragem de colocar o ponto final.

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  2. João Alberto Roque diz:

    Só uma achega para reflexão:
    Gostei do teu texto e dos comentários que entretanto suscitou e, no geral, concordo com aquilo que defendes… mas não conheces também pessoas que puseram pontos finais e demoraram pouco tempo a perceber que não ficava bem na frase e que em vez disso deveriam ter posto uma vírgula e continuar?
    Muitas vezes só se dá verdadeiramente valor a algo quando se perde. E se foste tu a por o ponto final e depois vens a perceber que aquilo com que acabaste era demasiado importante?

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    • contadordestorias diz:

      Ah, é claro que sim. Há sempre histórias que se terminam e, depois, se sente falta delas. Mas, quanto a mim, estou bem ciente e certa da decisão. Não tenho muita paciência pra ser infeliz, dá um trabalho do catano e, a ser, mais vale sê-lo porque se está sozinha, do que sê-lo porque se está com alguém. Tenho experiência de coisas, e algumas pessoas, que deixei e que, em retrospectiva, foi o melhor para mim. Não que me considere tão forte assim que não precise de ninguém, antes pelo contrário, mas porque sei hoje em dia que não vale a pena lutar por algo – emprego, amizade – que nos dá mais chatice do que benefício. Até agora, ainda não me arrependi de ter cortado certos laços, porque não o faço de cabeça leve, e faço-o quase no ponto de ruptura. Todos temos um limite. Espero que desta vez, como nas outras, a vida me dê coisas melhores. 🙂

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