A Vida No Céu de José Eduardo Agualusa

O título parece pressagiar uma história espiritual mas, se foge a presságios e adivinhações, é uma prova do fantástico imaginário do autor. Uma história que, quem sabe, dentro de alguns séculos poderá ser consultada para servir de guia.

Em A Vida No Céu a Terra já não existe; ou melhor, aquilo que dela resta está debaixo de água e a gente que sobreviveu ao dilúvio que ditou o seu fim – acontecido pouco a pouco e não de rompante como é tão comum ver em contos distópicos – arranjou uma forma de viver, no céu, por entre nuvens e o azul. José Eduardo Agualusa acredita o suficiente nos seres humanos para saber que, face à adversidade, também arranjamos formas de sobreviver, de inventar, de nos mudarmos para o céu se for preciso e, assim, criou esta fábula que, sendo imaginada, não é tão ridiculamente impossível.

Nestas páginas, a vida faz-se entre balões motorizados – zepelins – e outras engenhocas aéreas, mas os títulos das grandes metrópoles mantêm-se, serviram como baptismo para estas novas cidades flutuantes. Teremos sempre Paris; neste caso, o Paris.

O início de cada capítulo aquece-nos logo o peito; palavras comuns como Céu, Sonho, Viagem, ganham magia com as reinvenções que Agualusa lhes oferece ao redefini-las.

A narrativa é contada na primeira pessoa por Carlos, um dos que, como tantos outros, nasceu já neste novo céu. A balsa que lhe deu luz é Luanda e a história principia quando o pai deste desaparece durante um temporal. Com a ajuda de uma residente do Paris – Aimée – e de outras personagens que se juntam a caminho, e com o pai de Carlos já são e salvo de volta a Luanda, acabam por se ver numa outra aventura, para encontrarem a Ilha Verde – um local algures na Terra de outrora que ninguém tem a certeza se existe verdadeiramente.

Ao contrário do que é habitual nos livros de Agualusa, esta é uma história muito simples de ler, a direito, e onde a fantasia nos parece tão real e possível que, ao olhar pela janela, estranhamos ter os pés tão bem assentes na Terra. Quase sem notarmos, damos por nós a sentir uma nostalgia do tanto que temos a perder, e que tomamos tantas vezes como garantido: o cheiro que da terra emana quando chove, o chão seguro debaixo de nós sem paredes que nos prendam, o cheiro de uma cozinha acabada de limpar.

A Vida No Céu é uma história igual ao céu de África: é fácil imaginar que nos abarca, mas é preciso vivê-la para saber o quanto.

*

“Sabemos que crescemos quando começamos a temer a morte.”

“O céu dispõe-se em camadas, como uma cebola infinita. por mais que a descasquemos, há sempre céu.”

“Nascemos sem asas, mas com a capacidade de as sonhar.”

“Sonhadores – pessoas com a cabeça nas nuvens, como se dizia antigamente, antes de andarmos todos realmente com a cabeça entre as nuvens – costumam ver melhor o que está para vir. Quanto mais alto estivermos, quanto mais sonharmos, mais longe vemos.”

“Identidade é o que a viagem faz de nós enquanto continua. Só os mortos, os que deixaram de viajar, possuem uma identidade bem definida.”

“O tempo, aliás, não faz senão correr. Por vezes, em certas tardes soalheiras, quando no céu nada se move, acreditamos que adormeceu, mas é uma ilusão. Nós. sim, adormecemos. O tempo nunca se cansa.”

“- Não vejo o meu próprio futuro! Não quero. Avançar por um futuro já sonhado é como viver uma vida que outra pessoa já viveu por nós.”

“Os meus olhos viajam mais do que as minhas pernas. O meu pensamento mais do que os meus olhos.”

“Esperança: é o nome que damos às nuvens quando nos falta a água.”

“- Custa a crer que a beleza possa ser tão terrível. Preferimos acreditar que o mal é sempre feio.”

“‘Quem tem um coração nunca se perde’, costuma repetir. ‘Só o coração é capaz de encontrar o que a razão perdeu.'”

“O melhor da viagem é o sonho.”

*

Carina Pereira

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