Teoria Geral Do Esquecimento de José Eduardo Agualusa

É uma história de amor incondicional, e sem retorno.

Não o livro, cujo único traço de um amor romântico é uma mensagem de amor clandestino levada por um pombo-correio, e que nunca chega a ver o seu destinatário. Este amor de que falo é entre mim e a escrita de José Eduardo Agualusa. A cada livro tenho mais certezas.

Não é um amor óbvio, este nosso. Agualusa é bastante político nos seus contos e eu, até aqui, demasiado preguiçosa para procurar saber e entender melhor a história política de Angola. No entanto, isso não me afecta a afeição pelas palavras alinhavadas, é apenas um pequeno detalhe que não me afasta nem me desilude. Não me importa o assunto desde que a sua fabulosa escrita continue.

A Teoria Geral Do Esquecimento tem base numa história verídica, pontas juntas pelo autor ao ter em mãos os reais cadernos escritos pela personagem principal. Há muita conjuntura, e ficção, mas também uma grande dose de facto.

Ludovica Fernandes Mano é proveniente de Aveiro e tem medo do céu. O céu, estando acima de si, assemelha-se a ela a um imenso abismo onde, por distracção, se poderá perder, e poderá perder-se. Vive, desde a morte dos pais, com a sua irmã Odete e, após o casamento desta com um engenheiro, partem os três para Angola. Uma noite, a irmã e o cunhado saem para uma festa e não voltam mais.

Ludovica viu-se abandonada num dos prédios mais luxuosos de Luanda, tendo por companhia apenas Fantasma, um cão albino de raça Serra da Estrela que o cunhado em tempos lhe oferecera. Recusando-se a abandonar a sua casa em época de revolução, constrói um muro com tijolos e cimento que se ergue entre ela e o resto do mundo e, criando várias formas de subsistência, assim ficam, ela e Fantasma, durante anos, isolados dos homens e do perigo.

Se me agradou todo o enredo, agradou-me também o que é já uma constante nas histórias de Agualusa: imensas personagens que, no fim, se entrelaçam umas nas outras, às vezes directamente, às vezes unidas por um pombo-correio transportando um bilhete de amor.

Se o conto é demasiado complexo para ser resumido assim, é digno do tempo de qualquer um. E talvez não haja uma história de amor fulgente, mas há amizade, e a boa vontade dos homens em tempos de conflito, que vale tanto ou mais.

A Teoria Geral Do Esquecimento é, por paradoxo, daquelas histórias que ficam na memória da gente.

*

(Por lapso meu perdi as frases que mais me tocaram neste livro. Ou esqueci-as. Se foi esquecimento serve-me de algum consolo por as ter perdido; prefiro a ironia à desilusão.)

*

Carina Pereira

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