Fados do Fado de Marco Rodrigues

O dia 10 de Julho deste ano marcou uma nova norma ditada pela Federação Internacional da Indústria Discográfica, a partir da qual as novidades musicais passam a sair às sexta-feiras. Nesse âmbito, o mais recente álbum de Marco Rodrigues, Fados do Fado, foi editado pela Universal neste dia, o primeiro de muitas sextas-feiras recheadas de novidades.

Nascido em Amarante, Marco Rodrigues mudou-se para Lisboa aos 15 anos, e se já antes tinha arrebatado um honroso segundo lugar na Grande Noite do Fado do Porto, foi ao ganhar o primeiro lugar na Grande Noite do Fado de Lisboa, em 1999, que o Fado encontrou permanentemente um lugar na sua vida. Percorrendo casas de Fado, participando em tertúlias, caminhando na soberba envolvência desta herança tão nossa, o fadista arrematou este nome para si próprio, e com direito.

A Casa de Fado Café Luso foi a primeira morada da sua voz, e enquanto é presença assídua nos festivais de Fado – actuou no primeiro Caixa Ribeira este ano, e estará a 18 de Setembro em mais uma edição do Caixa Alfama – e em outros palcos do país e do estrangeiro, é na Adega Machado que o podemos ouvir todas as noites, de viola na mão e Fado na postura.

Não será o seu nome, por ventura, tão conhecido como Camané, ou António Zambujo, mas é apenas por desatenção de quem ouve Fado ocasionalmente, porque o talento equipara-se, sem deixar lugar para dúvidas. Voz pujante, certa. Tom afinado, um controlo de voz fabuloso, e choradinhos deliciosos, são as principais marcas da sua interpretação. O talento natural – a voz bonita – ajuda, claro. Mas o Fado faz-se de muito mais do que isso.

Fados do Fado é o quarto álbum do fadista, e uma afirmação da sua versatilidade e talento. Se até aqui nos tinha brindado com originais, – na sua maioria, porque os fados tradicionais fazem também a sua vénia em cada um dos álbuns anteriores – Marco Rodrigues achou que era altura de criar uma homenagem. Uma homenagem aos homens do Fado, tantas vezes esquecidos e subestimados, tantas vezes colocados aquém dos holofotes, para dar lugar a uma crença tão comum quanto errada de que o Fado é um universo exclusivamente feminino. Amália criou um legado muito forte, uma voz como ainda não se tornou a ouvir, e é por isso difícil esbater esta noção, provar que a história do fado também se fez de homens.

Neste disco entram nomes tão importantes para o Fado como Max, Tony de Matos e Tristão da Silva, havendo ainda lugar a referências mais recentes: Camané, Carlos do Carmo e Jorge Fernando. Compositores, poetas, interpretes.

Pode-se questionar a necessidade de gravar temas que já foram ouvidos e interpretados sobejamente, mas os argumentos que Marco Rodrigues nos apresenta são válidos: há canções a serem esquecidas, nomes que é preciso trazer de novo ao lugar de destaque a que pertencem. E, se estas razões não fossem já convincentes, basta ouvir os mesmos fados cantados por pessoas diferentes para entender que estes vivem do cunho pessoal que cada artista lhes dá.

Neste caso, é uma lufada de ar fresco, por duas razões: há a melhoria na qualidade da gravação que, não raramente, torna os temas mais prazerosos de se ouvir, e há a inegável beleza do timbre do fadista que, correndo sobre estes temas, os torna superlativos. Que venham todos os fados já com dono, todas as cantigas já anteriormente gravadas, há sempre vontade de as ouvir mais uma vez na voz de Marco Rodrigues.

Neste disco ganham nova vida temas tão conhecidos como A Rosinha dos Limões,- que foi o single de apresentação deste trabalho – Nem Às Paredes Confesso, e Bairro Alto, e outros tão esquecidos como É Só Por Causa Dela, Guitarra, Guitarra e Noite. De realçar também Trigueirinha, composição de Jorge Fernando, que Marco recorda escutar na voz de quem lhe entregou o prémio da Grande Noite de Fado de Lisboa: Fernando Maurício, o pai do Fado Castiço.

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Mas existem excepções neste disco; gravado anteriormente por Marco Rodrigues, parte do seu primeiro álbum, – Fados da Tristeza Alegre – e cantado originalmente por Amália Rodrigues, revisitamos Acho Inúteis As Palavras e, a termo de comparação, surpreendem as nuances que o alteram em relação a esse primeiro disco, e o facto de o mesmo, repetido, ser ainda assim um trunfo para o álbum. Rosa Lobato Faria também se infiltra aqui, mais uma excepção que confirma a regra, e dá a sua poesia ao tema É Só Por Causa Dela, uma declaração de amor a Lisboa.

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Há músicas pesadas e tristes, há fados mais corriqueiros e de bater o pé, e há letras que contrariam a batida da melodia. O Fado é assim: histórias do povo, intenções escondidas, músicas de amor e desamor, com um final mais ou menos feliz. Os meus favoritos, sem ordem certa, são Arraial, Ai Se Os Meus Olhos Falassem, e Trigueirinha.

A produção musical do álbum esteve a cargo de Diogo Clemente, que foi quase um mestre dos sete instrumentos, tendo-se ocupado também da viola de Fado, da guitarra acústica e do baixo, acompanhado na guitarra Portuguesa por Ângelo Freire e, num tema cada um, Guilherme Banza e Luís Guerreiro, nomes bem conhecidos nestas andanças.

Vale a pena ouvir tudo isto na voz de Marco Rodrigues; perder o tempo entre trémolos, na renovação do antigo, na descoberta do que ainda não conhecíamos, e chegar à conclusão que o único senão deste disco são as meras onze faixas, imensas no seu valor interpretativo, mas que parecem sempre pouco por isso mesmo.

Fados do Fado é um disco feito de homens, mas que merece um lugar num cantinho do coração de toda a gente.

Carina Pereira

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*Podem ouvir o álbum na sua totalidade no Spotify e no Youtube

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3 thoughts on “Fados do Fado de Marco Rodrigues

    • contadordestorias diz:

      Não conhece o Marco Rodrigues? É que ele tem um aparelho vocal fabuloso! Espere que goste, posso recomendar também a interpretação dele do “Lisboa Menina E Moça” que é cheia de pujança – e se pode encontrar no youtube. Depois diga-me o que achou! 🙂

      Gostar

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