Maria Clara, A Pequena Detective

Agora que o concurso do Pingo Doce já acabou e que eu, obviamente, não ganhei, já posso publicar a história que escrevi para nele participar. É muito simples e certamente pequena para um concurso com este calibre, mas na altura foi o que consegui escrever. Histórias infantis são difíceis!

*

Maria Clara, a Pequena Detective

Nessa manhã Maria Clara tinha-se levantado para o rebuliço do dia. Normalmente, gostava de acordar e ouvir os pássaros a cantarem, deixar-se espreguiçar como quem estica o sono. Mas hoje, hoje a sua rotina matinal tinha sido estranhada por um zumbir que parecia de abelhas.

Maria Clara levantou-se e espreitou pela janela. Os seus olhos ensonados arregalaram-se de espanto. Lá fora, além do portão de ferro, que a olhava sempre que ela se acocorava no parapeito do seu quarto, e dos variados canteiros que o seu avô tão docemente plantara e com os quais gostava de ter conversas filosóficas, estavam também várias figuras de autoridade. Maria Clara não conhecia nenhuma delas, mas as suas fardas de polícia rapidamente fizeram as apresentações. E ela sabia que polícia por perto nem sempre era bom sinal.

Viriam buscá-la por causa daquela vez em que não comera a sopa toda? Ou quando chorara no supermercado porque o pai se recusara a comprar-lhe o carrinho que ela há tanto namorava na secção de brinquedos? Ou seria porque tinha feito uma birra na livraria pois queria um livro com um coelho na frente que a mãe, atabalhoadamente e a corar, colocara de novo na prateleira, empurrando-a para fora da porta?

Não sabia, mas começou a tremer. Era sempre essa a ameaça que vinha quando ela fazia asneiras. “Se não te portas bem, chamo a polícia.” E agora ali estavam eles, sem ela ter feito nada.

Percorreu a avenida da memória com cuidado. A bolacha. Só podia ter sido a bolacha.

No dia anterior a mãe tinha-a probibido de comer mais bolachas, porque lhe estragariam o apetite. Mas Maria Clara não conseguia compreender qual era o mal de o seu apetite ser estragado se, afinal, a bolacha lhe tiraria a fome e, consequentemente, ela já não precisaria mais de comer. Se uma bolacha enche tanto quanto uma sopa, porque não se podia ela encher antes de bolachas, que eram mais apetitosas?

Não obedecera à mãe. Aproveitara  a sua distracção, até. Sabendo que a mãe saíra para colher algumas flores para o vaso da entrada, Maria Clara esquivara-se para a despensa, arrastara o banco mais alto consigo e subira-o, conseguindo alcançar por fim o frasco hermético que continha as suas bolachas preferidas. Eram de manteiga com recheio de chocolate.

Rodou a tampa do frasco, colocando-se em bicos de pés – a mãe ainda não se tinha apercebido que Maria Clara era agora mais alta uma prateleira – e retirou uma bolacha apenas, tendo a certeza de que deixava as outras de tal forma que seria impossível a mãe dar por isso. Desceu com vagar, colocou o banco no sítio costumeiro, e sorrateiramente enclausurou-se no seu quarto. Ao jantar terminou a sopa, provando assim, mesmo sem poder demonstrar a sua razão, que uma bolacha não era suficiente para lhe roubar a fome.

Maria Clara não tinha ideia como, mas a mãe descobrira. Já a imaginava, na noitinha anterior, a passar distraída pela prateleira da despensa e a reparar na diferença milimétrica do conteúdo do frasco das bolachas. Depois, aproveitando-se do embalo entorpecedor do sono de Maria Clara, tinha ligado à polícia, que prometera lá passar para castigar a menina logo de manhãzinha.

Seria assim um crime tão vil, tão malvado? Roubar uma bolacha de chocolate que em nada tinha ameaçado o jantar?

Maria Clara concluiu que sim, e não sabia o que iam fazer com ela. Prendê-la, certamente, ou talvez até pior: proibí-la de comer bolachas para o resto da sua vida.

A ideia começou a tomar forma na cabeça de Maria Clara e ela, antes que as lágrimas lhe inundassem os olhos, cerrou os lábios. Não conseguia acreditar que a mãe tivesse feito isto com ela. Quantas vezes a tinha visto, dias depois de ter afirmado que começara uma dieta, a escapulir-se da companhia de todos para atacar qualquer chocolate por ali esquecido? Maria Clara nunca tinha dito nada a ninguém, não entendia como a mãe a podia entregar assim à polícia, por tão pouco.

Pestanejou. Bem, se assim o era, entregava-se com dignidade. Maria Clara Couto não era cobarde. Talvez gostasse de contornar regras, mas sairia dali de cabeça erguida. E se a queriam levar, iam ter de a apanhar.

Mas depois, escutou de novo, atentamente e recordou-se do zumbindo que a intrigara primeiro. Aquele zumbido era conhecido, mas encontrava-o normalmente nas traseiras da Quinta, nas várias colmeias que o avô possuía. Maria Clara também estava proibida de se aproximar das mesmas sem a supervisão de um adulto, e nisso não tinha ela tocado.

A não ser… Seria esse o castigo que lhe queriam impôr? Teria ela de lutar contra as abelhas domesticadas do avô por uma bolacha de chocolate?

Sentou-se na cama, estarrecida. Sabia lutar com espadas de madeira, ou pelo menos fantasiava bem.  Tinha derrotado Dragões e voado nas suas costas, sentindo as asas escamosas a baterem de encontro aos seus joelhos. Tinha aniquilado lobos maus vestidos de capa vermelha, sem ponta de misericordia. Tinha até, uma vez, transformado em pó uma bruxa má que lhe tentara dar uma maçã envenenada, e tudo tinha sido fácil para o seu manejar habituado de espadachim. Mas como se luta contra abelhas? E não lhe dizia o avô sempre que sem abelhas nós deixamos de existir? Que as abelhas é que dão vida às flores e aos alimentos que vêm da terra? Então como seria possivel que, amando tanto as suas abelhas, o avô permitisse a Maria Clara – e ele vira-a lutar, sabia o quão boa guerreira ela era – terminar com elas?

Talvez, só talvez, o avô achasse que Maria Clara não tinha hipóteses contra nenhuma delas. O avô era sensato, lá havia de estar certo.

Ouviu a voz do pai ao longe, chamando por ela. Oh-oh. Levantou-se, engolindo em seco. Depois, abriu o seu baú de verga e retirou o que precisava para a batalha. Vestiu-se a rigor: o capacete da sua bicicleta, o seu tutu cor-de-rosa das aulas de ballet, que envergou por cima do pijama, e a espada de madeira que lhe tinham oferecido nos anos, depois de ela muito insistir. Colocou-a em riste e saiu porta fora, descendo as escadas solenemente.

 En garde, segredou.

*

Ao fim de umas horas, o medo tinha dado lugar a uma ligeira decepção. Afinal, o seu pai não a chamara com o intuito de a obrigar a iniciar uma batalha, e ficara até surpreendido de a ver toda vestida a preceito. A chamada tinha sido, em vez, para uma mesa de pequeno almoço recheada e caras de adultos aborrecidos.

Pelo que Maria Clara pode compreender alguém, ou alguma coisa, tinha atacado uma das colmeias do avô. E, enquanto a mãe lhe preparava o pão com manteiga e fiambre, a conversa decorria em volta desse assunto, sem um pequeno indício que levasse Maria Clara a concluir que a mãe se dera conta do seu pequeno crime na noite anterior.

Ao entrar na cozinha tinha arriscado olhar até de viés para a despensa e visto o frasco de vidro pousado no mesmo sítio onde o deixara. Assim, no mesmo lugar da mesma prateleira, sem pretensão de a acusar ou a colocar em maus lençóis.

O avô parecia bastante desgostoso. Comia com vagar, sem vontade nenhuma. Quando acordara de manhã cedinho e fora fazer a sua ronda habitual à Quinta, para tratar dos animais e ver se tudo estava em ordem, deparara-se com umas das suas colmeias destruída. A polícia, chamada logo de seguida, prometera investigar o caso, mas o avô não tinha a certeza se estes seriam capazes de descobrir alguma coisa. A família tinha boas relações com os vizinhos e o lugar que habitavam sempre fora calmo. Não havia razão, principalmente no meio de tudo o que eles criavam naquela Quinta, de atacar uma colmeia inocente para roubar favos de mel. Também não tinham visto nenhum animal selvagem nas redondezas que pudesse ser o autor daquele acto de vandalismo.

Algumas abelhas tinham conseguido escapar, e agora cabia ao avô tentar reparar o estrago o melhor que podia.

Quando o avô se levantou, depois de ter engolido o seu pequeno almoço sem entusiasmo, Maria Clara foi também dispensada da mesa pela mãe, que lhe pregou um beijo na testa e lhe disse para ir brincar, que tudo ia ficar bem e ela não se devia preocupar.

Era Sábado. Podia fazer o que quisesse e estava até autorizada a percorrer os campos em redor da Quinta, desde que não se metesse com os animais e não saísse da propriedade. Hoje, porém, recebia também um aviso extra para não se aproximar das colmeias. A Maria Clara, sabendo há muito que as colmeias estavam fora da sua área de vadiagem, nunca lhe ocorreria para lá ir. Mas, às palavras avisadas da mãe, uma ânsia de investigar este crime acendeu-se nela num crescendo.

Foi para o quarto e despiu a sua farda de combate. Depois, vasculhou novamente dentro do baú de verga e lá encontrou o que procurava; a lupa, redonda e primordial em qualquer serviço de investigação, estava enterrada para lá dos confins de velhas vestimentas de carnaval e de outros artefactos de que Maria Clara se esquecera até possuir. Usando um velho vestido de algodão poliu bem a lente, até esta reluzir à luz do sol.

Havia um crime a investigar e ela estava preparada.

Sorriu. Aquele baú possuía mundos inteiros.

*

Maria Clara trocara o pijama e escolhera como indumentária a sua jardineira de ganga gasta que possuía um grande bolso à frente, onde podia facilmente ocultar a lupa. Calçou as botas de borracha, na esperança de encontrar algumas poças de água, onde pudesse chapinhar no seu caminho.

Os pais e o avô já lá andavam nos seus afazeres e ela afastou-se para o pequeno parque de madeira que eles tinham construído especialmente para ela. Andou de baloiço, aguardando. Sabia as rotinas diárias dos pais e do avô e não queria ser surpreendida na zona das colmeias, por isso esperava que os pais saíssem para tratarem das compras semanais e o avô fosse trabalhar as suas flores para a frente da casa. Assim, mesmo que a chamassem, ela teria algum tempo para manobrar o seu regresso sem mostrar sinais de que contornara as regras.

Quando o relógio de sol ali perto plantado ensombrou o chão com as onze horas, Maria Clara saiu do baloiço, escutando o carro dos pais a afastar-se gradualmente da propriedade.

O avô acenou-lhe, movendo-se para a frente da casa, como ela esperara, e Maria Clara respondeu-lhe da mesma maneira, sorrindo. Depois, esperou uns minutos e encaminhou-se para as colmeias, olhando sempre por cima do seu ombro, para ter a certeza de que não era seguida.

As colmeias estavam protegidas. Ela conseguia ver uma delas ainda desfeita. Retirou a lupa do seu bolso com cuidado e apontou-a em riste, o seu olho arregalado quase pousado sobre a lente, observando através daquele disco de cristal mágico, que dava forma aumentada a tudo em que pousava o olhar. Maria Clara deduziu logo ali que aquela tinha sido a colmeia atacada. Não haviam dúvidas, obviamente. Pegou num pequeno caderno verde claro e tomou notas. Ou fez de conta, pois Maria Clara só sabia ainda escrever o seu nome em letras maiúsculas. Escreveu-o agora também, como quem anota um crime em código, e observou o que tinha escrito minuciosamente, num jogo de representação consigo própria. Maria Clara sabia levar-se muito a sério quando a ocasião assim pedia.

As marcas na colmeia atacada não eram conclusivas, mas haviam pegadas no chão de terra batida, e a relva que predominava em alguns pontos estava calcada também.  Isto tudo podia ter sido tarefa do avô e da polícia que ali estivera, mas Maria Clara achou que valia a pena observar tudo com atenção. Afinal, ela era uma profissional de combate ao crime e detectives profissionais, segundo o que as histórias contavam, não deixavam nenhum pormenor sem ser atendido.

Esteve assim no que lhe pareceu serem horas, sem conseguir realmente descobrir nada. Regressou ao seu baloiço,  o ponto de partida daquela aventura desventurada, em desânimo. Guardou a lupa e o bloco de notas, sabendo que os seus rabiscos sempre iguais não tinham valor ou informação alguma. Talvez ser detective não fosse para ela.

Levantou-se. Era hora de almoçar e não tardava nada a sua mãe haveria de chamar por ela. Deu-se conta, com desconsolo, que na sua busca pela verdade do que tinha acontecido com a colmeia do avô se tinha esquecido completamente de chapinhar nas poças que encontrara pelo caminho. Haveria de usar aquela tarde soalheira para tratar de mudar isso.

*

Para ela, as poças eram às vezes lagos imensos cheios de sereias que queriam dar-lhe uma cauda igual à dos peixes e fazer-lhe tranças no cabelo comprido cor de mel. Outras vezes eram o mar revolto onde, envergando roupa de pirata, controlava o seu navio, manobrando-o para lá da tempestade que atacava o barco sem perdão.

De todas as vezes em que as suas brincadeiras incluíam alguma dessas coisas tinha de lidar, na verdade, com a fúria contida da mãe, por um lado contente por ela encontrar uma forma de distração, por outro aborrecida pelas nódoas de lama que ensopavam a roupa de Maria Clara.

Tanto melhor; a mãe era sempre o próximo inimigo a combater em mares altos, ou a bruxa madrinha que lhe queria roubar a voz e desfazer-lhe o cabelo entrançado por tantas mãos delicadas de sereia. A brincadeira – e os monólogos de Maria Clara – repetiam-se nos longos banhos de espuma que a mãe, passada a ira, lhe preparava. Maria Clara guiava a imaginação como quem dirige uma peça e a mãe ria-se, seguindo as deixas improvisadas da filha em mais uma aventura.

Maria Clara adorava o barulho que as suas botas faziam quando encontravam a água. Era animador, como um bater de palmas a cada novo salto. A mãe segredava-lhe, sem realmente ter intenção no que dizia, que mal podia esperar que ela crescesse para deixar de querer fazer estas coisas, mas Maria Clara sabia que nunca deixaria de fazer estas coisas. Isso e os tesouros do seu baú de verga fariam sempre parte dela, estava certa disso.

Queria crescer, sim. Queria crescer para, finalmente e a sério, poder embarcar em aventuras. Não sabia ainda o que queria ser, embora lhe perguntassem muitas vezes. Haviam tantas possibilidades à sua frente que achava que nunca seria na vida capaz de escolher uma só. Bem, detective estava, para já, fora da lista. Como se provara nessa manhã não tinha jeito para aquilo, embora continuasse a carregar a sua lupa e o bloco de notas no bolso da jardineira. As coisas que não pudesse ser de verdade poderia sê-las sonhando. Alguém lhe avisara em tempos que as sereias não eram reais, mas isso não a iria impedir de fazer de conta que era uma.

Quando crescesse comeria todas as bolachas que quisesse, sem ter de abanar o frasco de vidro para que não parecesse mais vazio do que antes. Não teria uma hora para se deitar e decidiria quando podia ver televisão ou quando teria de brincar lá fora. E, mais importante, se algum dia decidisse que queria ser presidente, haveria de decretar gelado como comida oficial para jantar. Com direito a gelado como sobremesa também.

A vida de adulta apresentava-se bem aos olhos dela.

Ouviu um barulho, vindo de longe e parou de pular. Não eram passos, nem as galinhas que às vezes decidiam que as suas asas não eram totalmente incapazes e achavam por bem saltar a vedação da capoeira. Era um guinchar agudo e aflitivo. Maria Clara inclinou a cabeça para ouvir melhor, tentando identificar de onde o ruído vinha. Quase distraidamente retirou a sua lupa do bolso, como se aquilo a ajudasse a decifrar melhor o barulho que a intrigava.

O chiado parou tão abruptamente como tinha começado. Passados alguns segundos Maria Clara assobiou. A resposta não se demorou. O mesmo barulho de antes, vindo das traseiras do celeiro, onde o velho poço se situava. Maria Clara tinha medo do velho poço e não gostava de se aproximar, mas pressentiu que alguém poderia precisar dela.

Andou devagar, assobiando e recebendo mais guinchos de cada vez que o fazia. Esta troca de ruídos, esta comunicação rudimentar, levou-a à fonte do outro interlocutor. E, não se tendo enganado desta vez, foi o poço que Maria Clara viu.

Aproximou-se a medo, como todos nos devemos aproximar de poços, e espreitou, apenas porque o poço estava abaixo dela. Na água, chapinhando, com as forças quase a falharem-lhe, estava um cão.

Maria Clara arfou, em sobressalto. O cão, ao vê-la, aumentou a chiadeira e o bater de patas para se manter à tona de água. Ela, apercebendo-se da aflição dele, correu, numa viagem de regresso aflita até à Quinta.

Chamou os pais e o avô, que vieram a correr ao seu encontro, e explicou o que vira, a tremer. O pai, perante a sua aflição, agarrou-lhe a mão e seguiu-a a trote, com a mãe no seu encalço. O avô apanhou-os logo de seguida, carregando uma corda espessa nas mãos.

Quando lá chegaram os três o canídeo já se mostrava quase sem forças, prestes a desistir da sua luta.

Maria Clara não pode seguir de perto a operação de socorro, foi afastada para longe do poço enquanto o pai e o avô trabalhavam para tirar o animal dali. Mas, quando finalmente o conseguiram puxar para fora daquela abertura perigosa, Maria Clara viu o cão a caminhar lentamente, com as quatro pernas a tremer, na sua direcção. Deixou-se cair aos seus pés e ela jurou que viu no seu olhar um profundo agradecimento. Isso, e no focinho, o inchaço que só se poderia atribuir a um enxame de abelhas.

Ali, mesmo sem intenção, Maria Clara tinha descoberto o ladrão dos favos de mel e, mais importante do que isso, salvo uma vida.

*

Para seu grande deconsolo, Maria Clara não acompanhou o pequeno cachorro na viagem para o veterinário. Ele estava magro e sem coleira, o que indicava que tinha sido abandonado e devia, já há muito, andar a vadiar sem rumo nem alimento pelas redondezas, sem que ninguém se tivesse apercebido disso.  Na sua busca por algo para comer teria dado com a Quinta e as colmeias tinham sido, para seu mal, a primeira coisa que tinha decidido atacar. Na sua fuga, e na escuridão, acabara por cair no poço. Era um milagre que tivesse conseguido lutar para se manter acima da água durante tanto tempo.

Quando ele ficou finalmente fora de perigo, e o veterinário decretou que estava salvo e pronto para sair dali, Maria Clara foi autorizada a visitá-lo. O cão pareceu conhecê-la e assentou o focinho no seu colo, olhando-a com ares mimalhos.

No dia seguinte, o pai entrou pela Quinta com o cão por uma coleira, soltando-o assim que fechou o portão, perto das flores do avô. O cão cheirou-as e Maria Clara, que estava sentada à janela da sala a desenhar e a pensar na vida, viu-o a correr de um lado para o outro, o focinho ainda inchado, mas parecendo muito mais feliz do que quando ela o encontrara.

Também ela correu porta fora, ao seu encontro.

A mãe seguiu-a e o pai sorriu quando as viu.

– Foste buscá-lo?

A voz de Maria Clara estava embargada de emoção e ela aceitou nos seus braços o cachorro, dobrando-se para ele lhe chegar. O cão lambeu-a repetidamente, arfando contra a sua cara e Maria Clara riu-se.

O seu pai acenou.

– Sim. Tive uma conversa com a tua mãe e o teu avô e achamos que talvez ser altura de tu ganhares algumas responsabilidades. Pensamos que teres um cão poderia ser uma boa forma de começar. E o teu avô decidiu perdoar e esquecer o incidente com as abelhas, para o bem de todos.

O pai piscou-lhe o olho e Maria Clara riu-se, olhando o cão de novo, assimilando o que o pai lhe dizia.  Acenou. Depois, retirou a lupa do seu bolso e atentamente observou o cão, a concentração de um detective profissional no seu pequeno rosto.

– Abelhudo, – afirmou, depois de grande consideração. – Vais-te chamar Abelhudo.

O cão abanou a cauda, como que em concordância.

*

Maria Clara colocou o chapéu sobre o cabelo que a mãe entrançara cuidadosamente e abriu a porta da frente. Este era o último dia de Verão e, para Maria Clara, o último dia antes de embarcar na aventura do primeiro ano da escola primária.

Já tinha a roupa escolhida para a sua estreia, e a mochila pronta, – um caderno, alguns lápis e uma malinha cheia de lápis de cor que a mãe a deixara comprar – assim como uma lancheira a condizer. Na sua pequena e vazia carteira carregava também uma fotografia do Abelhudo, a usar o chapéu que ela colocara agora.

A sua lupa, bem polida, tinha também um espaço entre os seus materiais escolares. Afinal, nunca se sabia quando o crime estaria à espreita, a precisar de ser combatido.

Ser detective tinha acontecido sem ela contar, quando tinha dado já por encerrado a possibilidade de se  vir a tornar isso. Às vezes são os acasos que nos transformam.

Ia sentir saudades do Abelhudo. Passaria mais tempo na escola e os pais e o avô tinham-lhe garantido que as tarefas que a ela tinham cabido até este momento seriam agora divididas pelos três. Isso não fazia Maria Clara sentir-se mais contente; queria ir para a escola, queria aprender a ler as legendas dos filmes que passavam na televisão, aprender a tomar verdadeiras notas no seu caderno e queria fazer mais amigos, mas tinha receio que o Abelhudo se sentisse sozinho sem a companhia constante dela. Era a primeira vez que se separavam a sério.

Sentou-se nas escadas, em frente à porta e, como era costume, Abelhudo sentou-se ao lado dela, espraiando-se para que a sua cabeça descansasse sobre o colo dela. Ela fez-lhe festas, olhando-lhe o focinho, sem nenhuma prova já de que ele tivesse sido o atacante das colmeias do avô.

– Quando me tornar presidente, – sussurou-lhe ela, para não o incomodar, e o Abelhudo levantou uma orelha – A minha primeira lei vai ser que os animais de estimação são autorizados nas salas de aulas.

Abelhudo olhou-a, como que inquirindo algo. Maria Clara encolheu os ombros.

– Há coisas mais importante que comer gelado ao jantar.

E sorriu. Talvez a mãe estivesse certa. Talvez crescer fosse mesmo inevitável. E talvez fosse algo bom, via agora Maria Clara. Mas, para já, ainda havia algo de que não prescindia.

Levantou-se, seguida por Abelhudo, e foi encontrar uma poça ampla onde se pudessem sujar os dois.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s