A Morte, A Vida E Outras Entidades

Este será talvez o penúltimo capítulo desta história que eu publicarei aqui. Introduzo mais uma personagem e estão quase todas apresentadas. Agora, era bom que eu desse corda aos dedos e recomeçasse a escrever esta história com mais pressa, ou não estará pronta antes do prazo que eu  tinha colocado a mim mesma, que era o final deste ano. E não é por falta de ideias, sei perfeitamente onde esta história tem de ir. É mesmo por preguiça, essa inércia que nos prende ao nada.

Deixo os anteriores capítulos aqui também.

*

Prólogo 

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

*

Capítulo Quatro

O Guardião Contrapeso

As pessoas têm uma forma básica de entenderem o mundo. Tudo o que nele vêem são as disparidades, as injustiças. Pobres, ricos, sortudos e azarados são compreendidos como entidades separadas. Na verdade, são o balanço do mundo.

As diferenças, às vezes drásticas, só o são porque há um termo de comparação, porque não encaram cada um como um individuo independente de todos os outros e contribuinte deste todo a que chamam humanidade.

Se todos fossem pobres ou ricos, felizes ou infelizes na mesma medida, o mundo colapsava. Há que haver um balanço para haver também a existência. Esta existência nem sempre é pacífica, mas a paz precisa também de um contrabalanço: a guerra. Há uma simetria na forma das coisas e o que é tido como o sacrifício de uns é a salvação de todos.

Gosto do nome quando o pronuncio. Guardião Contrapeso. Soa muito melhor do que a minha nomeação singela, e até me define bem. Afinal estou aqui para garantir que as forças se balançam, para garantir que o mundo possa continuar a operar como até aqui. Ao contrário do que dizem, este mundo é perfeito. Cada ser humano é para cá enviado com uma função muito específica. Mas é claro que eles têm alguma liberdade, e se mudarem o rumo das suas vidas e o que cá foram colocados para fazer, há-de haver alguém que se aproveite dessa oportunidade, sem sequer o notar. Tudo desliza, suavemente. São engrenagens a atrelarem umas nas outras sem fazerem mossa nem estrilho. O destino em que acreditam é apenas uma predefinição que pode facilmente ser mudada. Basta acederem às escolhas diárias e já está, o caminho que deveriam seguir apaga-se e surge para outro alguém. Desde que haja equilibrio tudo avança.

A minha função é simples: assegurar que há vida. Assegurar que a vida e a morte são equilibradas, que não se desproporcionam.

Há apenas uma vida, entendem? Uma vida a gerir todos os bateres de corações, todas as funções cerebrais. Mas existem muitas Mortes. Mortes a levaram os seres e a alimentarem-se da sua evanescência. Não trabalham umas com as outras, mas são mais rápidas e eficientes do que eu sozinha. A vida é uma coisa muito frágil, basta pouco para a roubar. A Morte, pelo contrário, não tem absolutamente nada a perder.

Eu sou uma assassina. Eu mato a Morte. As Mortes. Eu procuro-as, identifico-as. Não é fácil, neste mundo repleto de criaturas. Tenho de me focar numa de cada vez, seguir-lhes o rasto e depois matá-las. Algumas Mortes são simples de matar, são jovens e inocentes, mas outras dão luta, demora-me semanas, meses até, para encontrá-las.

Há uma Morte bem antiga que me escapou por entre os dedos. Com o tempo tornam-se astutas. Quando eu julguei que a tinha, conseguiu fugir de mim e vagueia por aí deixando um rasto que eu vou perdendo constantemente. Acho que faz isto de propósito, para me escarnecer, como num jogo do gato e do rato que eu estou claramente a perder. Um dia encontro-a e dilacero-a.

Às vezes custa-me matá-las. Acho que a minha convivência com os seres humanos acabou por deixar algo deles em mim. E há seres humanos que, certamente, me daria alívio deixar partir. Se não fosse por esta questão do equilíbrio, claro está. Pior do que um mundo com más pessoas é não haver mundo nenhum.

Cada Morte que eu consigo derrotar significa a sobrevivência de alguém. As Mortes têm trabalhos que lhes são assinados até deixarem de existir e se eu terminar com alguma delas quando é suposto elas irem tratar de alguém, então essa pessoa não vai morrer. Isso garante o tal equilíbrio de que venho a falar. Se eu deixasse todas as Mortes ao deus-dará então em pouco tempo deixaria de haver vida no mundo para compensar esta perda.

Os seres humanos costumam chamar a isto milagres, sobreviverem quando tudo apontava para uma morte certa. Dizem que a Morte estava de folga naquele dia. Questiono-me o que diriam se soubessem que a Morte, na verdade, morreu, permitindo que eles vivessem. Na volta, absurdos como às vezes são, teriam compaixão da morte. É o mais interessante deste emprego, os seres humanos nunca deixam de me surpreender.

Há uma questão a que ainda não respondi, penso. O que acontece com as Mortes que eu oblitero? Ganham vida.

Carina Pereira

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