As Mulheres Do Meu Pai de José Eduardo Agualusa

Nem sei bem por onde começar com este livro, mas vamos lá fazer isto.

José Eduardo Agualusa conta histórias que, apesar de todas as fantasias a que ele recorre, tão regularmente usadas na literatura Africana, podiam ser reais. É isso, aliás, que torna as histórias tão merecedoras do nosso tempo e tão difíceis de seguir.

Nos livros que já li de Agualusa há, tal como na vida, imensas personagens. Ao contrário da maioria dos romances, onde há duas ou três personagens principais e a história toda roda à volta delas até se desenrolar para nos fazer saber o fim, nos escritos de Agualusa há mais personagens do que conseguimos prestar conta. Histórias entrelaçadas umas nas outras que, a não fazerem exactamente falta à narrativa inicial, nos desvendam muito mais sobre cada pessoa que nos é apresentada.

Tudo isto faz com que eu chegue ao fim dos seus livros completamente satisfeita, – José Eduardo Agualusa escreve de tal forma que, entendendo o que me está a ser contado ou não, eu quero é continuar a ler – mas em parte frustrada e com a sensação de que não percebi metade do que li. Ou melhor, entendi mas não memorizei e, por isso, não o consigo reproduzir.

N’As Mulheres Do Meu Pai a narrativa é feita – à imagem do Vendedor De Passados e Barroco Tropical – na primeira pessoa, com a particularidade que Agualusa não revela no início de cada capítulo quem está a falar no momento. Por isso, lá vamos nós caminhando em algumas linhas à deriva, até percebermos quem narra agora.

Já decidi que no próximo livro de Agualusa me vou munir de um bloco de notas e apontar o nome de cada personagem, e o que as liga a todas, a ver se consigo resumir o livro mais concretamente.

Aqui, Laurentina quer descobrir tudo sobre o seu falecido pai, um contrabaixista outrora muito famoso chamado Faustino Manso. Às páginas tantas decide percorrer África para falar com todas as mulheres que o seu pai teve, sete no total. Nesta viagem muito sucede e mais ainda se descobre, não só sobre Faustino Manso, mas sobre cada personagem que acompanha Laurentina nesta jornada. É interessante vê-las a redescobrirem-se a elas próprias também. Bartolomeu Falcato, personagem de Barroco Tropical, regressa nesta história.

Vale bem a pena ler.

*

“Comovem-me os desastres ou as alegrias de amor dos outros, mas não me lembro de ter chorado alguma vez em razão dos meus próprios desaires.”

“Raízes? Raízes têm as plantas e é por isso que não se podem mover. Eu não tenho raízes. Sou um homem livre.”

“O ruído sufoca a cidade como um cobertor de arame farpado.”

“Os perigos supostos assustam tanto quanto os reais.”

“Sentia-me acanhado em Portugal, como se tivesse vestido por engano um casaco alheio, e ele me ficasse demasiado justo nos ombros.”

“Um sorriso manso. Quente como um abraço.”

“Parece uma imagem roubada a um sonho.”

“Porém, o homem põe e Deus indispõe-se.”

“É isto: onde uns vêem luz outros apenas distinguem sombras.”

“Queria amá-lo como no princípio de tudo.”

“Isto é o meio do caminho entre o nada e lugar nenhum.”

“O meu pai entregava-se de alma e coração a todas as causas perdidas, aos vencidos da vida, aos lugares sem salvação.”

“No meu caso também foi assim. Tive um grande amor e perdi-o. Não teria sido um grande amor se o não tivesse perdido.”

“Sim, gosto dos lugares onde não se passa nada, mas gosto deles apenas enquanto passo.”

“Se realmente vê é com os olhos da alma. Desses não sei tratar.”

 “Navios ferrugentos enconstam-se ao sólido cais de betão como sonhos mortos.”

“- Estou certo de que haverá muitas coisas nas quais não acreditas, meu irmão, mas a tua descrença não impede que elas prosperem, um pouco por toda a parte, e sobretudo aqui, sob os céus de África. A realidade tem mais imaginação do que tu.”

“Não há nada mais triste, e mais bonito também, do que uma carta de despedida.”

“Incomoda-me ainda mais a possibilidade de efectivamente cair no sono, e sonhar os restos dos sonhos que alguém deixou para trás.”

“Movia-se em silêncio, sem ferir o chão, e ao mesmo tempo seguro, o anjo da morte a passear ao crepúsculo.”

“A bala atingiu-o no coração. No funeral alguém comentou, creio que foi o padre, não ser de admirar que a bala tivesse atingido o coração porque ele tinha um coração enorme.”

“- A morte é tão triste quanto a vida, mas dura mais.”

“Há manhãs que parecem vir de muito longe.”

“É como imaginar um leão que conseguisse impor a sua autoridade miando como um gato.”

“Amo-te muito, amo-te sem esperança, e sem promessas, que é o amor mais puro e mais autêntico que o coração de um homem pode experimentar.”

“A verdadeira beleza não se pode aprisionar, não se repete, e não se prevê. Um arco-íris será belo enquanto permanecer indomável.”

“- Leve os sonhos a sério – sussurrou – Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado.”

*

Carina Pereira

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