O Sujeito E O Predicado

Namoravam à porta de casa dela, sobre a supervisão da mãe, que tricotava variados panos, panos que eram guardados mais tarde num baú de verga, designado desde a sua nascença para manter todas as quinquilharias que a mãe achava importante fazerem parte de um enxoval.

Ela era uma rapariga de respeito; ao contrário das outras não se dava a desvarios, não se vestia de maneira provocante e, mais importante, fazia sempre aquilo que os pais, pessoas de nobre carácter e costumes brandos, lhe impunham.

O namoro começara como tantos começam, numa festa da aldeia. Maria – assim se chamava tão casta rapariga – ajudara a costurar as vestimentas que muitos levavam na procissão. Sebastião, que há duas primaveras atrás tinha deixado os jeitos esguios de rapaz para se transformar num homem a sério, com barba que necessitava de tratamento pelo menos duas vezes por semana, tinha-se dado ao voluntariado para delegar as actividades extras que a paróquia necessitava naquela altura atarefada. Tratara de angariar fundos para a comissão de festas, ajudara a entregar os papéis que eram precisos, correra de porta em porta para ter a certeza de que todos faziam o seu papel. No entretanto, encontrara forma de ser preciso sempre onde Maria sempre estava.

Maria e Sebastião tinham trabalhado juntos, como era agora também habitual, debaixo do olho da mãe dela, com risinhos mal disfarçados enquanto a progenitora, entre a preocupação e o orgulho, balançava os prós e os contras de uma possível relação. Informara-se, daquela forma que só algumas pessoas se sabem informar, de quem não quer a coisa mas a querê-la toda, sobre o rapaz, a sua família e crenças. Achando que ele era digno do tempo da sua filha, arranjou forma de Sebastião se despedir da sua timidez e convidar Maria para dançar, já a procissão tinha acabado e o bailarico se alongava noite dentro. Nunca se afastava muito dos dois, mas dera-lhes espaço suficiente para que, cobertos pela falsa sensação de estarem a sós, pudessem já ansiar por momentos de privacidade, que lhes seriam concedidos mais tarde, a seu tempo.

Tudo decorria como previsto, imaginado e traçado pela mãe de Maria. Viam-se umas quantas vezes durante a semana, quando Sebastião saía do trabalho. Colhia uma flor em qualquer lado e passava à casa dela, batia duas vezes. Maria, olhando de soslaio para a mãe, ia abrir a porta com um sorriso matreiro no rosto. A mãe fingia que não via, mas via, a mão de Sebastião a pousar longamente sobre a de Maria quando lhe passava a flor, mais tarde até o beijo imaculado que lhe pousava sobre a testa. Depois, seguia o seu caminho, e Maria voltava para dentro, para a sua máquina de costura. Nunca falavam sobre este amor tão confinado a pouco mais do que quatro paredes e cheio de espiões. Pouco era preciso dizer. A mãe de Maria consentia com ele e um dia Sebastião compraria um anel e o enxoval tão minuciosamente preparado pertenceria a outro baú.

Maria possuía um traje que reservava para Domingo e comprara com a mãe: um vestido azul marinho que lhe assentava bem abaixo dos joelhos, um leve casaco de malha castanho que condizia com os sapatos sem salto e simples. De manhã acordava cedo, vestia esta indumentária e ia à missa. Levava sempre flores, para deixar na campa do avô. No final da missa, a que assistiam juntas, a mãe seguia para casa e Maria levava as flores ao cemitério. Era sempre assim. Menos de uma hora mais tarde abria de novo a porta de casa e apressava-se a ajudar a mãe a terminar o almoço.

A mãe de Maria tinha orgulho nos costumes que tinha passado à filha, na sua sobriedade tão díspar das jovens da sua idade. Tinha feito com ela um bom trabalho, e Maria aceitava o seu esforço, seguia as regras de conduta que qualquer jovem decente deveria seguir.

Assim pensava a sua mãe.

Maria, quando só os olhos de Sebastião a viam, era fogo incandescente e impetuoso, de altas labaredas que lambiam a decência a qualquer um que a tocasse. As flores que deixava no cemitério depois do serviço religioso de Domingo eram sempre pousadas sobre a campa à pressa.

O coveiro gostava da sua dose de remédio matinal e saía durante largas horas, para afogar a dor que já não sentia a enterrar qualquer vida na tasca do sítio. Não levava a chave e a sua pequena choupana, que pouco mais tinha senão as coisas essenciais para uma existência pacata, ficava logo ali nas traseiras do cemitério.

Maria agarrava a mão de Sebastião como só ela sabia fazer e no chão, na mesa, onde o desejo lhe arremessasse qualquer rasgo de bom senso e vergonha, amava Sebastião por todas as vezes em que só se podia deleitar no toque dos lábios dele na sua testa, na mão trémula a correr com uma urgência velada sobre a sua, ora antecipando ora recordando o que, na solidão daquela casa estranha, acontecia.

Às vezes, quando os corpos se cansavam da rotina daquela entrada fortuita mas pouco arriscada, fugiam para a igreja e, contendo os ruídos da sua ânsia, amavam-se onde sabiam que alguém os poderia encontrar mas, mais certamente, não encontraria.

Entre a corte feita à porta de casa, a ignorância santa da mãe dela, e os Domingos roubados depois do serviço religioso numa casa que não lhes pertencia, eram felizes.

A mãe dela também.

Carina Pereira

in “Estórias Da Minha Aldeia”

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