A Morte, A Vida E Outras Entidades

Tenho vindo a escrever esta história com vagar, mas de forma consistente. Por estranho que possa parecer, têm até surgido personagens quase sem eu as adivinhar; vêm assim sem pré-aviso e eu não tenho outro remédio senão aceitá-las.

Neste momento estou a trabalhar no capítulo doze, mas os capítulos são pequenitos porque cada capítulo é uma personagem, e as coisas ainda estão a começar a acontecer.

Deixo aqui o terceiro capítulo para já, que é um bocadinho mais longo que os anteriores.

*

Prólogo 

Capítulo Um

Capítulo Dois

*

Capítulo Três

O Homem Que Devia Ter Morrido

Foi a 1 de Janeiro de 1987. O ano novo é sempre uma altura propícia para tomar decisões e a minha decisão de ano novo para ‘87, enquanto me encolhia sozinho no meu primeiro carro, rodeado de garrafas de cerveja ainda fechadas, tinha sido essa. Decidi morrer. Achei que, com 23 anos, já tinha vivido tudo o que tinha para viver. Ou melhor, nunca tinha vivido a sério e preferia morrer sem ter vivido a continuar a viver assim.

Havia uma série de razões para me sentir desta forma. Considerava-me um fardo para os meus pais, para os meus amigos e para este mundo em geral. Não estava a contribuir com absolutamente nada e continuava a tirar a energia a toda a gente à minha volta, sem poder retribuír o que faziam por mim. Sentia-me perdido.

Tentei acender um cigarro; já que me ia queria levar todas as experiências possíveis no espaço de 24 horas que tinha dado a mim mesmo para me despedir de tudo e todos. Já tinha dito adeus aos meus pais, embora eles não soubessem na altura que era um adeus. Apertei bem a minha mãe, e ela não estranhou porque eu sempre a apertava assim. O meu pai, o meu pai sim, reparou. Franziu o sobrolho e apertou-me de volta, sem fazer o reparo que os seus olhos calavam. Não lhes disse que os amava porque estranhariam. Desejei-lhes bom ano e saí de casa. Na crença deles eu ia apenas pôr o pé no ano novo numa casa de outro alguém, a meia noite à minha espera para ser festejada com amigos.

O cheiro do cigarro depressa se misturou com o de cerveja, e eu não sabia já qual deles era pior. Abri as janela do carro uma brecha. Lembro-me de tudo isto tão bem, e de estar frio.

Não escrevi nenhuma carta, nenhum bilhete de despedida. Tentei por várias vezes, mas eu era um vazio, era um vazio já há algum tempo. Havia uma inércia em mim e eu não a conseguia combater. Também me sentia incapaz de explicar para outros ou para mim mesmo de onde a inércia vinha, porque é que a minha cabeça estava vazia. Sempre pensei que o desespero fosse negro, mas não. O meu desespero não tinha cor, como a estática cinzenta que passa pelas televisões. Passava horas a contemplar o tecto do meu quarto, paralisado pelo facto de não estar a fazer nada com a minha vida e, no entanto, paralisado com a ideia de fazer algo com ela. Foi por isso que optei por isto.

A ideia começou como uma chama. Como a pequena chama na ponta do cigarro que eu agora fumava. Bastava eu abandonar o cigarro, e a ideia, para essa chama morrer, mas eu sorvi o fumo e reacendi-a. Brinquei com essa possibilidade, a da não-existência, tempos e tempos até ela se tornar numa labareda, lumaréu, flama. A certo ponto ficou fora do meu controlo e era tudo em que eu pensava. Comecei a fazer planos. O medo deixou de me assustar a pouco e pouco e passou a entusiasmar-me. Gostava do medo que sentia, da decisão que tomara, porque era arriscada, corajosa. Era o oposto daquela estagnação onde eu tinha estacionado a minha vida. Parecia-me ser a única opção, a única opção digna.

Olhei o carro que naquele momento me abrigava. Nem aquilo tinha ganho com o meu próprio suor. Ia levá-lo comigo quando nem sequer era realmente meu por direito. O meu pai tinha-mo oferecido quando atingi a maioridade e recebi a carta de condução novinha em folha.

Esta era outra das razões para ninguém entender o meu estado depressivo. Tens tudo, diziam-me. Os teus pais são tão bons para ti, apontavam. Como se a felicidade viesse em notas de banco, como se as condições supostamente perfeitas da minha vida fossem um exclusivo da felicidade. A tristeza também mora onde o sol penetra.

Eu achava que poderia começar de novo. Que haveriam mais vidas à minha espera, que tudo o que eu tinha de fazer era saltar e depois seria um outro alguém, acabado de nascer. Também pensava, nos dias melhores, que poderia sentir saudades de mim, do meu eu de ali, mas tudo passaria. Não me lembraria, tudo ficaria bem. E se não houvesse uma outra vida, eu também não queria esta. Saíria vitorioso, de qualquer forma.

Atirei a beata do cigarro pela janela e depois rodei a chave na ignição. Não estava embriagado. Desisti da cerveja a meio, porque não me queria ir assim, a beber algo que não apreciava sequer.  Andava à procura de um qualquer entorpecer e reflecti que a escolha da cerveja talvez tivesse sido uma forma inconsciente de me castigar. Embebedo-me mas não com algo que me dá prazer. Também foi a primeira bebida alcoólica que me apareceu nas prateleiras da pequena merciaria onde entrei, antes de seguir para casa para me despedir dos meus pais. Não consigo entender porque achei que aquilo seria uma boa ideia, de qualquer forma. Tinha planeado atirar-me com o carro de uma ponte, mas antes disso tinha de lá chegar. Não era boa ideia conduzir até lá embriagado. Era a minha vida que queria encerrar, não queria levar ninguém comigo.

Conduzi com calma pela cidade. Era a última vez que lhe poria os olhos em cima e um misto de melancolia e saudade apoderou-se de mim. Engoli-a, como a água que esperava engolir para deixar de sentir fosse o que fosse.

É claro que me achava egoísta. Sabia que havia pessoas que gostavam de mim, apesar de eu ser uma nuvem negra que lhes pesava a vida. Era sempre o pessimista que só se queixava enquanto os outros se maravilhavam com esta coisa de estar vivo.

Gostava de poder trocar a minha vida pela de alguém que precisasse. Assim como um câmbio. Há tanta gente a querer viver, a agarrar-se ao mais ínfimo sopro de existência e eu aqui, a dar tudo ao desbarato.

Os meus pais. Os meus pais iam odiar-me. Não de verdade, supus que a dor da minha perda ia sobrepôr-se à raiva de eu ter feito tudo aquilo. Mas, na verdade eu também fazia isto por eles. Queria poupar-lhes o fardo da minha existência, e ia substituí-lo por um funeral. Depois não tinham de pensar mais em mim.

Ri-me. Estão a ver? É por isto que eu queria ir.

Comecei a dirigir-me ao lugar escolhido para me enterrar. Era num local discreto da minha cidade. Havia uma pequena ponte onde não passavam carros e eu sabia que ali o rio era fundo o suficiente para não haverem segundas chances. Pesquisei isso também antes de escolher o lugar definitivo da minha ida, como vêem não era um completo idiota.

Se tivesse continuado, se me tivesse sentido em condições de prosseguir com a minha vida e fazer algo com ela, sabia que gostaria de ter feito algo pelo mundo. Mas depois, não gostaríamos todos? Ninguém escolhe viver com a certeza de que não vai ao menos deixar um entalhe nesta terra. O medo do esquecimento é o que mais nos assombra a todos.

Coloquei o carro em marcha atrás. Queria voar. Queria ter uma saída de filme, aterrar na água como um profissional de salto de prancha, o meu carro a servir de intermédio. Dava já cabo do carro e assim nem isso ficava como prova de que eu ali estivera; achei que isso faria as coisas mais fáceis para o meu pai também.

Acelerei. Coloquei o pé ao fundo, larguei a embraiagem – com cuidado, como sempre fazia – e fui. Dei-me conta de que estava a rezar. Não sei bem porquê. Primeiro eu não tinha sequer o hábito de rezar, as preces que sabia tinha-as aprendido na catequese e andara lá por insistência da minha mãe. Segundo, eu tinha decidido fazer aquilo. Suponho que as coisas que mais nos aterrorizam são frequentemente as que mais desejamos.

O carro realmente voou. Prometi que não olharia para trás mas, mesmo assim, os meus olhos encontraram através do retrovisor o pó que o meu carro tinha deixado na estrada. Não consegui olhar mais em frente. No momento em que o carro caía em direcção à água pensei que afinal queria viver. Que todos os problemas que eu achava sem solução podiam muito bem ser arranjados. Nunca tinha amado ninguém, nunca me tinham amado. Iria permanecer neste mundo até a minha memória se dissolver da memória dos meus pais e depois nada restaria de mim. Talvez um artigo de jornal, que ninguém mais leria e sobre o qual a minha mãe iria adormecer a chorar, a noticiar o meu óbito e pronto, esvair-me-ia. Eu tinha 23 anos e monstros dentro de mim a quem eu não dera luta a sério.

O embate na água foi brusco. Ainda tinha os olhos prostrados no que estava na minha retaguarda e senti-me a ser empurrado para a frente e para trás, a água a serpentear por todas as frinchas do carro. Lembro-me de ver as garrafas de cerveja que eu tinha esvaziado a flutuarem e o pacote de cigarros a desfazer-se. Qando a água me chegou à boca estiquei o pescoço e tomei uma última golfada de ar. Senti-me um cobarde. Aquela decisão tinha sido minha e estava a combatê-la. Estava a recuar na batalha, a esconder-me atrás da minha guarda quando eu era o comandante e devia sacrificar-me primeiro.

Tudo isto durou uma questão de minutos. O meu coração latejava em todo o lado e a adrenalina pedia-me que respirasse. Assim o fiz.

Tudo ardia. Talvez estivesse a chorar. Se eu fosse um peixe tudo isto seria mais confortável, lembro-me de pensar. E ri-me para mim próprio. Fui-me assim, a rir-me da minha própria desgraça.

Carina Pereira

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