“Infinito Presente” de Camané

Cinco anos decorridos desde que editou o seu último álbum, Camané brinda-nos agora com este Infinito Presente. Se a espera, regada com espectáculos para matar a saudade, foi longa, fica a certeza de que valeu também a pena.

Este disco foi criado com aqueles que já conhecem de cor do que Camané é feito; a pluralidade de Manuela de Freitas e José Mário Branco – a quem roubo estas palavras – e os domadores de instrumentos que tão bem acompanham a voz: José Manuel Neto na guitarra Portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola do Fado e Carlos Bica no contrabaixo.

O disco, para bem de quem tanto tempo esperou, contém dezassete maravilhosos temas e, não fosse isso já razão suficiente para regozijo de quaquer fã, é-nos oferecido também um DVD que em muito se assemelha ao documentário “Fado Camané de Bruno de Almeida, e nos dá de novo um olhar mais próximo do que acontece nos bastidores da criação de toda esta obra. Gravar um disco é muito mais do que cantar apenas e a oportunidade de observar todo este processo é uma oferenda preciosa.

Mas vamos às cantigas que compõem o álbum. A primeira coisa que fiz, ainda antes de me sentar para o ouvir, foi pegar no booklet que vem com o CD e percorrer as letras. Acho a letra de qualquer música tão importante – se não até mais – do que a melodia. Afinal, o que nos faz escolher aquela música, vermos nela um reflexo de nós, criarmos uma ligação com ela, é a história que se conta cantando. É claro que os arrepios vêm da emoção transmitida pela melodia, mas da história que ela conta queremos nós todos saber, cantá-la mais tarde também à nossa maneira.

Gostei – muito – das letras. Manuela de Freitas continua a não desapontar. Aliás, se for a escolher predilectos neste disco, aponto o dedo a duas composições que contam com os seus poemas: Passaste Por Mim e Lume. À semelhança do Fado Da Recaída, – da mesma autoria – há nos escritos de Manuela de Freitas uma qualquer melancolia alegre. As histórias nem sempre têm nuances felizes, mas a forma despreendida com que são contadas deixam-nos com um sorriso no rosto.

Felizmente, Camané continua a enebriar os seus Fados com os versos dos grandes poetas. David Mourão-Ferreira – o meu favorito, nem mais – embeleza três canções deste disco: Chega-se A Este Ponto (título original Equinócio,) Paraíso e Infinito Presente (título original Corpo Iluminado XII,) que acabou por titular toda esta compilação. Aqui Está-se Sossegado, de Fernando Pessoa, é outro exemplo.

No que toca a melodias, há Fados tradicionais com fartura. No DVD, Camané sublinha que tentou não repetir Fados tradicionais que já tivesse gravado mas, no fim, acabou por fazê-lo porque há poemas que parecem terem sido criados a pertencerem já a certos Fados, letras que encaixam ali na perfeição. No entanto, o mesmo Fado tradicional deixa espaço a variadas intrepretações e, o que seria mais do mesmo, já não é.

Duas das músicas têm autoria do avô do Fadista, José Júlio Paiva; a uma delas Camané entregou as palavras de Fernando Pessoa, a outra as de Frei António das Chagas. A melodia que acompanha A Correr, com letra de Manuela de Freitas e o tema escolhido para abrir a cortina desta peça, é um inédito de Alain Oulman, compositor que já pudemos ouvir anteriormente em Te Juro.

A interpretação de Camané – e já tive o prazer de o ver ao vivo – transpira Fado, e o álbum que tenho em mãos é o resultado de toda a dedicação de quem o ama e nele vive, de quem não descansa enquanto não cantar a história como ela deve ser contada para que, mais que palavras soltas, o público leve consigo tudo o que elas querem dizer.

Para mim, Camané continua a ser um dos melhores do Fado, e este álbum veio só fazer renovações de precaução em alicerces já perfeitamente assentes.

Faço-lhe aqui uma vénia alongada e primo o play de novo, abandonada de mim neste Infinito Presente. 

Carina Pereira

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12 thoughts on ““Infinito Presente” de Camané

  1. Carla Sousa diz:

    Adorei ler as tuas considerações sobre o novo trabalho do Camané. Revejo-me tanto no modo como articulas as coisas e de como ‘olhas’ para a música (não me estou a comparar, longe disso, porque tu escreves muito melhor que eu). Mas sou igualmente apaixonada pelos livrinhos que acompanham cada CD. Gosto de saber quem fez, porque foi feito assim, porque ainda acho que há pormenores que engrandecem uma música.
    Tenho de o comprar!

    Beijinhos*

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    • contadordestorias diz:

      Eu já devia ter feito este tipo de crítica a outros Cds, inclusivé os do Marco Rodrigues, que são bons demais para não se partilhar desta forma.
      Ainda bem que há alguém que se identifica com a forma como eu escrevo! É sempre bom saber que quem nos lê se revê no que lê. Eu tenho tendência a, quando gosto muito de alguma coisa, ir pesquisar tudo sobre essa coisa, e o Fado veio assim de rajada nestes últimos dois anos, de maneira que fico sempre curiosa em saber quem toca o quê, quem escreve o quê… É por isso também que gosto de ter os Cds sem ser comprados em formato mp3… Assim ficamos com os livrinhos e pormenores todos! 😀
      O facto do Cd trazer um DVD é mesmo uma mais valia, embora o documentário de que falei acima, de Bruno de Almeida, seja ainda mais completo no que toca a trabalho de estúdio. Tem mesmo graça vê-los a trabalhar, principalmente porque também se vêem os desacordos entre eles e como tudo se acaba por resolver eheh. Por isso, será uma boa compra (e não sou paga para fazer este tipo de publicidade! É bom o suficiente para eu falar porque quero! :D)
      Vale a pena, nesta altura, estar atenta também à página do Facebook dele, tem aparecido alguns mini-concertos por lá!

      Beijinhos! ❤ (xii, que resposta tão longa que eu dei!)

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