“A Primeira Vez” – Blogazine

Fiquei a conhecer através da Ana, do blog Escreviver, a revista Blogazine, uma revista online feita por e para bloggers.

Até ao dia de amanhã, associado ao lançamento da revista que será no dia 15 deste mês de Maio, qualquer pessoa que goste de escrever pode enviar um texto centrado no tema A Primeira Vez, havendo a possibilidade de o texto ser publicado no primeiro número da revista.

Decidi participar. Qualquer coisa que me faça escrever é sempre uma boa desculpa. Assim, deixo aqui no blog também a narrativa que escrevi. Para cumprir as regras do desafio tive de retirar frases ao texto inicial; só quando já era tarde é que me dei conta que o limite máximo de palavras eram 500 e eu já o tinha ultrapassado. Por isso aqui fica o texto completo, sem cortes.

Para quem quiser também participar, tudo o que precisam de saber está disponível na página do facebook, aqui.

*

Caminho pelo passeio sem notar que os meus passos se desviam e tomam o caminho que o meu pensamento lhes indica. Se o pensamento fosse o vento eu seria uma folha; corpo leve ziguezagueando, sem contestar. As solas dos meus sapatos estão gastas e, se pudessem, contariam estórias de asfaltos, os segredos que as pedras lá presas lhes contaram, chorariam as despedidas que fizeram, porque quem lhes dita o caminho sou eu. Vou sem pressa, porque não tenho para onde ir.

Pela primeira vez não sinto aquela força a tocar-me no ombro de leve, só para me empurrar de seguida, dizendo-me enquanto cambaleio que é preciso seguir viagem, ir em frente, continuar sem pausas nem dúvidas. Que não ter metas definidas é o mesmo que dar a corrida como perdida, que não ter um plano traçado é desgraça na certa. Notas, autocolantes de cores que etiquetavam cada hora da minha vida, separando os artigos dela cuidadosamente, para que eu nunca me perdesse. Sorrisos delineados com cuidado, porque sorrir gasta energia e atrai perdas de tempo. Foco, sem distracções.

Nunca precisei de contar o tempo porque o sentido de cada minuto era um general, sei por onde vou, sei para onde vou. E vou. Um atraso qualquer tinha já na manga a compensação. A vida seguia morna, certa.

A mochila pesa-me nas costas. Pela primeira vez sinto que os meus ombros carregam em mim uma qualquer vida que eu ainda não sei viver. Pela primeira vez isso não me preocupa.

Antes não era folha. Antes era tijolo, parte de um todo estratégico. Sabia onde me assentar, mas o cimento, que me dava o apoio para me conseguir estabelecer e fazer assim parte da casa, não me deixava sair do sítio. O cimento da minha vida eram as horas que de antemão eu adivinhava, os passos seguros que nunca me levaram a lado nenhum.

Vendi o carro, porque ver o mundo através de um vidro transparente é o mesmo que senti-lo fosco. Esvaziei as minhas gavetas, deitei fora os meus separadores coloridos e guardei o relógio, apertei-o bem no pulso para ter o prazer de ver as horas a fugirem. Rasguei todos os planos. O plano A e plano B e aceitei de braços abertos a desordem do imprevisto. O temor de me perder de mim mesma soube a casa; na verdade, nunca soubera quem era, tinha-me acostumado a ser tudo aquilo que não abanasse alicerces, tudo o que não saísse das linhas. Tornei-me eu mesma primeiramente, antes de me tornar primeiramente eu.

Desfiz-me das ideias pré-concebidas e dos lugares comum. Desertei todas as expectativas que um dia julguei terem sido minhas, e depois parti. Pela primeira vez, sem saber para onde. Não usei pensamentos mágicos, virei à esquerda apenas quando a esquerda me apareceu e o meu corpo foi no seu embalo.

Se me encontrei pelo caminho? Não. Porque ser alguém não é uma pintura já feita que se escolhe de uma vitrine e se veste mesmo assim. É preciso pegar na tela e ir experimentando tintas, pintá-la de branco de novo e recomeçar. É encolher os ombros perante a desilusão da nossa falta de talento. É livrarmo-nos dos pincéis que já só fazem estrago na tela, mesmo que os nossos lábios se fechem com força e o peito se feche porque aqueles pincéis fizeram parte da nossa tela toda uma vida. É aceitar que a maior parte não vai gostar da nossa obra de arte. Viver é acabarmos a tela por nós, porque quando a galeria fechar quem fica com o que fizemos somos só e apenas nós. A memória da nossa vida vai perdendo força na memória dos outros; nós temos que a relembrar todos os dias.

A primeira paragem é um parque. Está já cheio de pessoas que nunca conheci, estranhos que provavelmente nunca se entranharão. Agarro a pequena árvore que carrego comigo com mais força, as suas raízes pendentes, como todas as possibilidades que na minha frente agora se colocam.

Não preciso de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Quem me define sou eu e não frases feitas de quem julga que todas as vidas precisam do mesmo para serem completas. Mas quero plantar a árvore, para relembrar que as nossas raízes não o são da mesma forma e, assim sendo, pertenço ao chão que eu quiser.

Pela primeira vez tenho medo do que aí vem. Pela primeira vez tenho coragem de ter medo.

Carina Pereira

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