Crónica #4

27 de Janeiro de 2005

“Há dias como este. Dias em que sinto que o mundo lá fora é perfeito e, mesmo que não o fosse, pouco importava, porque aqui dentro sempre seria. Há dias como este, em que a chuva bate contra o vidro da janela e o vento uiva mas eu estou aqui com o sol a brilhar mesmo à minha beira. Dias em que a vida já não parece vida porque isto é demasiado para ser só viver. Pegas na minha mão e colocas-la entre os teus dedos porque as tuas mãos são grandes e as minhas pequenas e os nossos corações enormes. E sussurras no meu ouvido coisas que eu não percebo completamente mas que apenas o contorno das palavras me faz sorrir. E depois peço-te para repetires tudo e tu dizes que já não te lembras e não é importante porque as palavras nada significam. E eu olho para ti, com as pernas encolhidas em cima do sofá e sei que é verdade. Porque ainda a semana passada dissemos um monte de parvoíces sem sentido, palavras que o vento destruiu e elas nada significaram. E é por isso que tu estás aqui agora, a demonstrar-me o porquê delas nada significarem. E é por isso que eu acredito. Depois vais à cozinha e preparas-me um chá com leite e deixas-me sozinha com o sentir das tuas mãos nas minhas que permanece à tua ausência. E voltas e ficas a olhar-me embevecido enquanto eu bebo o chá e aqueço as mãos à volta da caneca. Vejo que queres falar mas nada dizes porque não queres estragar o silêncio, o silêncio em que me dizes tudo o que sentes e eu te digo tudo o que sinto, e confirmamos que o que sentes é o que sinto e o que sinto é o que sentimos e queremos sentir. Eu acabo de beber o chá e tu pegas nas minhas mãos e eu encosto-me ao sofá e tu encostas-te ao sofá, o ombros a baterem no pano azul, e olhamos um para o outro, enquanto a chuva cai lá fora e o sol brilha cá dentro. E enquanto me depositas um beijo nos olhos que eu fecho, naquele micro-segundo em que os meus olhos deixam de ver o teu rosto e o passa a ver o pensamento, eu consigo perceber porque é que a vida é perfeita.”

Carina Pereira

* Esta crónica foi dactilografada tal como estava escrita em 2005.

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