Crónica #3

27 de Janeiro de 2005

“São cinco horas da manhã. E eram cinco horas da manhã ontem e anteontem e eu continuo hoje, tal como ontem e anteontem, a pensar em ti. Partiste da minha vida como uma ave parte do Norte para o Sul quando o Inverno chega. Partiste da minha vida há muito pouco tempo, porque para mim esse pouco tempo há que partiste já é muito. Mas não partiste totalmente porque tiveste a péssima ideia de deixar as tuas lâminas no armário da casa-de-banho e a tua camisa preferida, ou pelo menos aquela que eu mais gostava de ver em ti, na porta do meio do meu armário, entre as minhas calças de ganga que eu costumava arrumar por cor. E aquela camisa ali no meio destoa. Talvez o tenhas feito de propósito, porque sabes que eu odeio confusão e desorganização e calças desarrumadas no armário. Porque sempre soubeste que eu odiava chegar a casa ao fim da tarde e ver-te sentado no chão do quarto encostado à parede no meio de cem papéis com uma linguagem desconhecida, e um copo de água ao teu lado, a carpete com migalhas das tuas bolachas favoritas e, pelo menos, dois ou três papéis amassados pela tua mão entre os papéis esticados no chão. E sabias também que eu odiava quando me agarravas pela mão e com a tua outra mão fazias os meus joelhos se vergarem e me calavas as queixas com um beijo que sabia a arrumação e a paz, e me estreitavas com a mão que me tinha agarrado o braço e depois fazias com que eu me sentasse no teu colo e visse como por vezes a desorganização pode ser perfeita. Bem, talvez não o odiasse na altura, mas odeio-o agora por alguma vez o ter sentido e saber que não o posso sentir mais, que vou chegar a casa e os papéis vão estar todos arquivados por ordem alfabética e não vão haver papéis amarrotados no chão. Tentei, há três horas atrás, quando ainda não havia tanto tempo desde que tu te foste, vestir a tua camisa e logo depois pensei em deitá-la fora mas reparei que o meu armário e as minhas calças de ganga agrupadas por cor já não fazem sentido sozinhas. Tal como eu.

São agora cinco e um quarto e eu olho o tecto branco do meu quarto, outrora nosso quarto, e lembro tudo o que fomos, e como tu costumavas acordar-me a esta hora da manhã tantas vezes só para me dizeres que me amavas e para me ouvires dizer que eu te amava. E depois voltavas a dormir e era eu quem não encontrava o sono até me agarrar a ti pelo peito como se fosses um urso de peluche e eu uma criança que acredita em castelos e histórias de encantar. E adormecia porque sabia que de manhã lá estavas tu, debaixo do meu cobertor e dos meus braços, com o teu coração a bater debaixo da minha mão que repousava sobre o teu peito. E é por isso que agora não consigo dormir. Porque tenho medo de sonhar que o chão do meu quarto está cheio de papéis e copos de água e migalhas de bolacha e acordar de manhã para ver que o teu coração já não bate debaixo da minha mão.”

Carina Pereira

* Esta crónica foi dactilografada tal como estava escrita em 2005.

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