A Morte, A Vida E Outras Entidades

Finalmente a minha estória tem um título!

Depois de semanas sem saber que nome dar ao que provisoriamente chamei de “A Estória Da Morte,” esta semana, enquanto trabalhava e pensava sobre tudo isto, o nome surgiu.

Todas as publicações referentes à história serão etiquetadas com o título da mesma daqui para a frente. E, por causa disso, aqui fica mais um capítulo, que apresenta mais uma personagem. Qualquer capítulo poderá estar sujeito a edição.

*

Prólogo 

Capítulo Um

*

Capítulo Dois

José Dos Santos

A bem dizer da verdade, nunca fui uma boa Morte. Fazia o meu trabalho é certo mas, na gíria deste mundo, também fazia algumas falcatruas à parte. Ninguém dava por nada. Pode chamar-se trabalho ilegal se não há absolutamente nada para nos castigar, a dizer-nos que o que fizemos está errado? Quando não sabemos as regras, mesmo que sintamos que as estamos a ultrapassar, podemos ser verdadeiramente culpados? Em minha defesa, nunca soube bem o que andava a fazer para além do óbvio, do que era fácil de entender, por isso não sei se os meus parâmetros de acção eram condenáveis.

Sentia-o, claro. Como quando pedimos um favor a alguém e sabemos que a pessoa não nos quer ajudar realmente, mas aproveitamo-nos da sua incapacidade de dizer que não.  Encolhia os ombros e afastava o mau estar, acomodava-me nos banquetes que fazia e no entorpecer temulento que se seguia.

Hoje chamo-me José dos Santos. É um nome mais do que comum, há imensos. Questiono-me se todos os Josés dos Santos que existem já foram a Morte também em tempos. A verdade é que, apesar de saber que há muitos que parilham o meu nome, nunca conheci nenhum, e duvido que tivesse a coragem necessária de lhes perguntar, se conhecesse. Ser humano dá-nos uma prespectiva diferente das coisas.

A memória de ser Morte é vaga. Está lá, tal como um espelho embaciado ainda contém um reflexo sem que o possamos distinguir bem. Lembro-me de pessoas que levei, de coisas que senti e fiz, mas quando, distraído, me assaltam memórias, nunca são recordações de quando eu era Morte.

Gostava de ser Morte. Era trabalho fácil. Ser vivo custa mais, dói mais. Temos de ter um propósito, fazer contas, trabalhar a sério. Temos de fingir que gostamos de coisas pelo bem da diplomacia, e fingir que não sabemos que não gostam de nós pelo mesmo. E temos de tomar banho, sempre. Não gosto nada de tomar banho. É gelado antes de lá entrarmos e frio quando de lá saímos, e não podemos ficar naquele limbo feito de vapor e água quente para sempre.

Quando era Morte não sentia frio. Também não podia provar o doce da comida, está certo. Um bom bife sabe melhor do que qualquer vida que eu tenha tirado, para ser sincero. Por isso nem tudo é mau.

Não acreditam que eu tenha já sido Morte? Pouco me importa. Concluí, quando me comecei a testar como humano, de que não sou uma pessoa que se importe muito que duvidem dele. Bastam-me as minhas verdades.

Há Mortes velhas, outras mais jovens. Eu era, se a Morte fosse medida em idade humana, um adulto já. Estaria talvez nos meus vinte e tais, embora para entenderem isto tenham também de pensar em termos de infinito. Um ano como Morte não é igual a um ano humano. Mas querendo dar-me uma idade eu estava naquela altura em que temos muitos planos mas andamos ainda um pouco à deriva, sem saber para que lado nos virarmos. Quer dizer, quando me tornei homem comecei nessa idade, por isso não sei como será passar pelas outras. Mas sim, ainda não era uma Morte velha. Nunca cheguei a saber se acabamos por ter mais respostas, enquanto Morte, à medida que o tempo vai passando. Eu entregava vidas, assim que estas se acabavam. Nunca soube para aonde elas iam ou o que lhes faziam quando elas lá chegavam, se é que chegavam a algum lado.

Fiquei agradavelmente surpreendido com a minha falta de sadismo enquanto ser humano. Sou sociavél, embora não tenha muitos amigos, por escolha própria. É difícil querer fazer amigos quando o nosso passado é ter sido Morte. Então, onde cresceste? Em lado nenhum. Nasci Morte e depois tornei-me humano. Pode parecer um bom quebra-gelo nas conversas, até as pessoas começarem a perceber que acreditas mesmo no que estás a dizer. Podia mentir, e faço-o constantemente – não tenho outro remédio – mas o esforço é maior do que a recompensa que me traz. E, como Morte habituei-me a andar sozinho.

Eu era uma Morte bastante sádica. Não, não é um oxímoro. Ou, pelo menos, eu acho que não é. Como já referi, nunca conheci outras Mortes, não posso saber se eu era mais ou menos sádica do que as outras, ou se ser sádica é apenas uma característica intrínseca de qualquer Morte.

Precisam de entender que eu me alimentava da vida alheia. É assim que nos mantemos sãos e fortes, prontos para o próximo trabalho. Mas para mim não me bastava a dose de alimento que recolhia de ir levar quem morria aonde tinha de ser entregue, não. Eu gostava do prazer de consumir essas vidas.

Um dia matei uma criança de cinco anos. Estava ali, a brincar no passeio, quando passei por ela. Devia ter seguido em frente, não era o meu trabalho. A Morte não deveria matar; somos apenas os guias das almas cujos corpos se finaram. Não nos cabe a nós criar defuntos. Mas eu vi-a ali, indefesa, a fazer correr o carrinho de madeira sobre o passeio, a rodá-lo entre as mãos num caminho imaginado. E tive fome. Não, fome não: ganância. Chutei o carrinho para longe, sabendo que não havia ali assunto para mim. Não me tinham atribuido aquela vida. Eu sabia quando era para ir buscar alguém. Há sempre um cheiro que nos guia, o único cheiro que sentimos. Às vezes está onde nós estamos, porque somos irremediavelmente atraídas para aqueles que estão prestes a partir, mesmo quando a morte é inesperada, outras surgem como o nascer do sol no horizonte e nós lá vamos cumprir as nossas ordens.

A criança levantou-se, sem me ver, sem compreender como o gesto dela poderia ter feito o carro sair assim disparado. Eu olhei em volta e calculei-lhe o trajecto. A criança regressou e eu coloquei o meu pé sobre o dela, calcando-o. Ela tropeçou, bateu com a cabeça frágil de encontro ao passeio, mesmo no ângulo agudo do cimento. Vi o carrinho a fugir-lhe das mãos para o meio da rua, voando primeiro e caindo depois com um baque sobre o chão. Ela perdeu os sentidos antes de poder assimilar bem a dor, e eu guiei-a para a luz onde os entrego a todos, deixando a ferida aberta do seu corpo a manchar a rua de sangue.

Naquele momento senti-me culpado, admito. Mas assim que ela partiu e a abundância da vida dela me encheu – as crianças são sempre as que têm vidas mais sumarentas – o arrependimento deu lugar ao deleite. Sentia como se as entranhas se me enchessem, era a Morte e sentia-me vivo, resplandecente como uma manhã de Verão. Mais tarde voltei, para me alimentar do desespero dos pais dela. O desespero e a tristeza que a morte deixa à sua volta não são tão ricos em alimento quanto uma vida, mas também enganavam a fome de uma Morte como eu. Eu andava sempre sequioso de mais, e mais.

Depois disto, matar sem horário era fácil. Nunca mais escolhi crianças, no entanto; ainda tinha alguns escrúpulos.

Agora, vivo sem saber quando outra Morte me virá buscar a mim. Não que me assuste. Morrer, pelo que pude compreender nos temps em que eu me encarregava disso, não dói. É viver que mói os ossos.

Amanhã tenho uma apresentação no trabalho. A minha empresa cria coisas novas com o lixo comum de todos os dias. Dá vida ao que morreu.

A minha humanidade é uma ironia pegada.

Carina Pereira

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