A Estória Da Morte – Capítulo Um

No mês passado comecei a escrever uma história, provisoriamente chamada de “A Estória Da Morte.” Títulos são difíceis e não sei realmente que nome dar a esta narrativa, por enquanto vou-me referir a ela desta forma.

Estou a escrever os capítulos por personagens, são capítulos pequenos, e como tinha prometido ir partilhando aquilo que vou escrevendo, aqui vai mais um excerto, desta vez do primeiro capítulo. Poderei fazer revisões mais tarde, mas para já terminei-o assim.

Estou agora no quinto capítulo e parece-me que esta história vai encontrar o seu porto seguro.

Podem também ler o prólogo aqui.

*

Capítulo Um

A Morte E A Humanidade

Hoje o dia está fresco. Não o sinto, mas vejo. Pessoas apressadas a encostarem mais os casacos a si mesmas, cachecóis de lã a serem vendidos com mais facilidade, sopa a fumegar nas vitrines de restaurantes, o cheiro de castanhas assadas enroladas num jornal já caducado. Rio-me. Não consigo sentir cheiros, ou sabores, mas imagino-os ao vê-los. Ouço o barulho da casca da castanha a ser esfarelada entre os dedos, ouço o ranger dos dentes como um almofariz sobre o fruto áureo, a moê-lo cuidadosamente. Vejo a satisfação nos rostos.

Os humanos são estranhos; vivem insatisfeitos com a vida mesmo quando cheios de satisfação. O vendedor de castanhas recebe os trocos na sua mão queimada e pensa só no que não vai poder comprar com aquilo. Não pensa na forma como assa as suas castanhas, tão bem, que outros vêm para comprá-las. Não pensa no sorriso das crianças que colocam as castanhas ainda quentes nas palmas em concha e as fazem saltitar, para não doer. Não pensa que o tempo que está a trocar não se traduz em trocos, mas em emoções. As castanhas queimam as mãos primeiro, mas depois afagam a barriga. E eles ficam a chorar, por causa das mãos.

Já há uns dias que não trabalho. Não tem aparecido nada. Passeio por estradas desertas e mal frequentadas, por obras em construção, por hospitais e lares, mas está tudo calmo. Os locais onde passo têm todos uma neblina trigueira, como o sol a entrar por uma janela, pondo a descoberto os grãos de pó. Quando assim é sei que posso descansar; não há ninguém a guiar. É quando a atmosfera é mais pesada, e a neblina se torna opaca e fria – de ver – que sei que é altura de arregaçar as mangas. Metaforicamente falando. Gostava de ter mangas, na verdade. Só para as poder arregaçar. Às vezes é estranho ficar ali, sem ter onde pôr as mãos, ou o que fazer com elas. Se tivesse mangas puxava-as para cima e, depois, se ainda não soubesse o que fazer com as mãos, voltava a colocá-las em baixo. Era bom.

Gosto de ouvir os sinos tocar. As catedrais por onde passo têm melodias bonitas. Algumas sei-as de cor, outras ainda as tenho de aprender. Gosto de trautear essas melodias, primeiro de frente para trás, na ordem justa, depois de trás para a frente. De trás para a frente parecem melodias novas e sinto-me um compositor. Uma vez, na verdade, cantei uma delas assim do avesso para um compositor. Não sei o quão bom fui, mas ele olhou-me como se eu, a Morte, fosse uma benção nessa hora. Depois partiu. Se no lado de lá há memórias, espero que ele não se tenha agarrado a essa. Nunca é bom quando as pessoas se agarram à memória de mim.

O que mais gosto nas catedrais, além dos sinos, são os vitrais. Gosto das cores, claro, até mais do que das imagens. Não percebo as imagens. As cores, não lhes sei os nomes, mas sinto-as. A calma é fulva. A morte, não eu, mas a que mata mesmo, é ausente. O calor é circular, como o sol, como as curvas ondeantes do interior das árvores. É quando o sol aparece que as pessoas guardam os casacos e mostram o riso.

Há duas cores de tristeza. Há a tristeza escura, com cor de relva ensopada. E há a tristeza que tem uma cor sem cor alguma, que se vê quando se olha assim no fundinho dos olhos. Não está em mais nenhum lado. Não há soluços, ou rostos tristes. Há uma nébula grossa, o embaciar da retina. Mas é palpável, se olharmos bem.

Às vezes as pessoas gritam, de lábios cerrados, gritam bem lá dentro. Eu ouço-as. Chamam por mim, mas não é a mim que procuram. Querem um não existir que eu não lhes posso dar. Dizem o meu nome quase como se diz uma oração, mas vem carregada de veneno e sabe-me a amargo. Nunca provei o amargo, mas tenho a certeza do que é. Tento tapar os ouvidos para não ouvir esses gritos calados, e às vezes resulta. Acordo noutro sítio qualquer, onde há realmente trabalho para mim. Ou então, resulta porque sou preciso mesmo ali. Vejo sempre nos seus olhos que, sendo o meu nome que chamaram, não era a mim que esperavam.  Era uma versão diferente. Não me chamo paz. Chamo-me Morte.

Ao contrário dos humanos, só toco, vejo e ouço. Algumas pessoas são àsperas como as pedras do caminho, outras suaves como o algodão tecido de um casulo. Algumas, por fora, parecem enganar o toque, por isso eu estendo a mão e toco-as bem no âmago, para saber ao certo. Questiono-me porque levo eu tão regularmente os casulos enquanto as pedras aqui vão ficando, conspurcando o chão, rompendo até outros casulos e petrificando-os lentamente, criando o caos. Não tenho a quem perguntar, nem me cabe a mim saber destas decisões. Sou o construtor de uma peça sem saber qual é a sua serventia. Sou o operário final da linha da vida e, no entanto, entrego o trabalho sem o ver completo.

Poderia fazer-me ver, se quisesse. Já tentei algumas vezes e resultou. Mas o cepticismo é muitas vezes preferivel à crença e eles cegam-se de mim num piscar de olhos. Os humanos acreditam em muitas coisas, mas não imaginam que eu tenha uma forma. Para eles sou apenas uma palavra, definição etérea que lhes leva aqueles que amam. Sou o parar de um coração, um cérebro que se finou, o sangue que se esvai por entre lascas de pele entreabertas. Imaginam-me no papel com objectos típicamente humanos, mas não passa disso. Quando me vêem não me reconhecem e o que quer que lhes transmita eles apagam antes de eu ter tempo de os alcançar. A partir do momento em que me fecham a porta já não adianta bater. Só se abrirá de novo quando for hora de eu os levar comigo.

Gosto de observar os humanos saudáveis. Os que andam na sua vida sem saber que a podem perder a qualquer instante. A maior parte gasta-a, claro. Não há nada como a minha ameaça eminente para os corações começarem a bater mais forte. Tiquetaqueiam ao passo do tempo que lhes foge das mãos. Os outros, os que ainda não se deram conta dos baques contados e preciosos, são mais interessantes de observar. Não vivem por instinto, vivem por prazer. E em prazer definham-se. Definhar é pior do que morrer. Não dizem, guardam as palavras dentro de campânulas de vidro, deitam jornais ao lixo porque fazer o que gostam é perigoso. Pensam não ter as competências para agarrarem os seus sonhos, mas na verdade depois de se agarrarem os sonhos, sonha-se com o quê? É preciso também coragem para inventar sonhos novos, e a maior parte das vezes inventar sonhos novos é visto como ganância. Não lhe chega já o que tem? perguntam os outros. Não lhe chega já a concretização do sonho e o entorpecedor acostumar? Há coisas que só se querem enquanto não as são.

Guardo muitas histórias comigo. A minha memória não tem fim, é feita de ramificações. Como os afluentes de um rio, os ramos de uma árvore. Cada humano é feito de mais do que apenas a linha contínua em que se vêem. São um todo muito maior. Aquilo que mais me surpreende neles é a sua capacidade de auto-comiseração. Sempre que vou buscar alguém sinto a dor que se espalha à minha volta e questiono-me se eles saberão do seu egoísmo. Claro que choram em parte porque alguém partiu. Mas não carpem inteiramente porque a pessoa deixou de existir para ela mesma, em vez choram porque a pessoa deixou de existir para eles. Agonizam-se porque o lugar da ausência não pode ser preenchido da mesma forma, porque os sentimentos não se vão fazer sentir de novo. Porque não ouvirão mais as vozes, não darão mais os abraços, porque não podem recuperar o que um dia tiveram. Se os humanos soubessem que morrer nunca dói continuariam a chorar, porque quem morreu lhes dói a eles. Vai fazer-nos falta, ouço-os a murmurarem. Alguns acreditam num Céu e confortam-se, porque nem sequer lhes concebe perguntar se os que cá ficam hão-de fazer falta a quem partiu.

A tristeza sabe-me aos pés enlameados de outros a sujarem o chão imaculado de uma casa que não é minha. Fere a vista, mas não penetra para lá da superficie. Sinto a tristeza deles mas nada me diz, não a consigo sentir nas minhas próprias costelas. Não mora aqui.

Tenho inveja deles. Não sabem de nada, no entanto vivem como se houvesse neles um propósito. Formam laços, famílias, movem-se como se fizessem parte de um todo. Não se vêem como seres individuais. Chamam-se a si próprios humanidade. Mesmo quando a morte vem e lhes tira um membro da elite continuam a ser a humanidade. Só faz falta quem cá está. Quando as gerações crescem e o tempo passa o suficiente é mesmo assim. A memória tem data de validade também, só dura enquanto todos os que deles se lembram durarem. Depois, são um nome numa pedra de cemitério, assombrandos pela questão que às vezes surge de um visitante tão obtuso da sua condição quanto eles foram: Como terá sido a sua vida?

Há o costume judaico dos visitantes deixarem pedras sobre a laje dos falecidos, para assim demonstrar fidelidade a quem partiu. A maior parte das pessoas deixa flores. As flores morrem também, talvez não se apercebam que as flores são um espelho da condição humana, mais do que tudo, o que não deixa de ser irónico. Em tua memória trago-te algo que desfalece. Se eu morresse preferiria que me deixassem uma pedra;  as pedras são fortes, sólidas e não murcham. Quando eu deixar de te visitar e me juntar a ti na terra, o meu sentimento continuará,, porque há coisas bem maiores do que a morte. Parece-me uma homenagem mais digna.

Tenho fome. Não, não a fome que os humanos têm, que pede pão e água a acompanhar. Vêem, eu alimento-me do meu trabalho. Quando alguém morre sacio-me da vida que ficou para trás. É essa a minha fonte de sustento. Há vidas suculentas, cheias, que me consolam a alma que não tenho e depois há vidas que não cabem na cova de um dente. É assim a expressão, não é?

Alimento-me de quem perde a vida, guio-os para onde têm de ir e, no entretanto, dou uma dentada no que deles fica. O que é que isso faz de mim?

Eu sou a Morte, a morte não devia ter consciência.

Carina Pereira

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6 thoughts on “A Estória Da Morte – Capítulo Um

  1. filosofaresidente diz:

    Gostei bastante. Acho que a personagem relembra duas versões da morte muito distintas: a morte no The Seventh Seal do Ingmar Bergman e a morte em Meet Joe Black. Acho que é uma boa personagem para explorar toda a diferença de sentimentos, muitas vezes contraditórios, que fazem parte da raça humana. Parabéns. 🙂

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    • contadordestorias diz:

      Vi o “Meet Joe Black” mas não “The Seventh Seal” embora pelo resumo que li parece ser um filme interessante também. Já nem me lembro como é que me lembrei de colocar a morte como narrador, mas a verdade é que à medida que vou escrevendo esta história parece que mais narradores surgem. 🙂 Vamos ver! Obrigada por ter lido!

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