Os Destruídores De Amor-Próprio

Recordo-me como se fosse hoje de, aos seis anos de idade, olhar o meu rosto vermelho de choro no espelho e questionar-me, na minha simplicidade de criança, o porquê de não ser bonita. De, já aí, ter coragem de enfrentar o meu reflexo e dizer-lhe o que não diria a mais ninguém, porque as minhas palavras para mim mesma, essas sim, eram feias. Lembro-me de querer saber porque é que eu, no meio de todas, é que tinha de ser a menos atraente, como  o rosto menos chamativo. Aos seis anos não deveria haver sequer a análise duvidosa do meu valor para o mundo, muito menos no que diz respeito à beleza física e, no entanto, ali estava eu, zangada, despedaçada até, por não ser bonita. Não me recordo se, antes disso, alguma vez tinha questionado a minha aparência, mas achando que seis anos é prematuro para pensar nestas coisas, e para não me achar bonita, sei também que com seis anos é a idade em que a escola começa e deixamos de estar protegidos pela rede da infância. Ali começa a competição.

Muitas das vezes a destruição do amor-próprio começa com a família; não que o façam sempre de propósito, mas há comentários que, sem eles notarem, nos deixam cicatrizes e, sem eles se aperceberem, acabam por moldar a maneira como nós, durante toda a vida, nos percebemos. A maior parte dos elogios vêm até com um embrulho que nada mais é do que pura comparação: para nos vermos a nós temos de ver os outros também.

Quando, aos dez anos, me dizem que eu sou feia, mesmo sem a intenção que eu acredite, mas numa vil vingança que quer de facto magoar, eu vou encolher os ombros e fingir que não tem importância, que não ligo e que não concordo. No fundo, é sal na ferida que nunca sarou e que continua a crescer a cada negação, porque achamos sempre que não gostam de nós porque não somos bonitos o suficiente. Quem cresceu na casa dos “comuns e feios” em oposição à casa dos “bonitos” sabe bem ao que sabe a rejeição e, independentemente da matriz da mesma, a explicação será para nós regularmente essa, que não somos bonitos o suficiente para que nos dêem uma oportunidade.

Quando me dizem, com dezasseis anos que, se usasse maquilhagem e saltos altos e me arranjasse, podia ser tão bonita, isso não se apresenta aos meus olhos como um conselho ou sugestão bem intencionada; é um insulto velado, é a certeza de que, se eu fosse bonita, não precisava de me arranjar. Ou, pelo menos, não insistiriam tanto para que o fizesse, porque quem é bonito é bonito de qualquer maneira.

A adolescência é já em si um paradoxo: se te arranjas estás a dar ideias erradas, a querer parecer o que não és; se não te arranjas és desleixada. Não há como agradar a todos. Mas, a questão principal é mesmo essa. Com dezasseis, dezoito, ou seja que idade for, eu não deveria achar que o meu valor é provado pelo que vejo no espelho e que o meu tempo só é aproveitado se houver um cavaleiro andante que me aprecie e me encha os dias. Em qualquer idade eu deveria saber que, acima de tudo, está o meu amor-próprio e que ele não é definido por estereótipos de beleza nem é garantido pelo amor de outro alguém. O meu amor-próprio deveria, sem qualquer dúvida, assegurar que eu desista de uma relação se ela me fizer mais mal do que bem, porque eu não preciso de ninguém para ser um ser inteiro, em vez de me aprisionar ali com medo de que mais ninguém chegue. Há muito mais além do que os filmes contam e da ideia de família ideal que os nossos pais nos tentam passar. Há muito mais além do “amor verdadeiro,” que tantas vezes se torna em amor nenhum. E aí, quando o outro ser não nos vê mais com os olhos que nós queremos, temos de saber dar amor a nós próprias, temos de ir preparadas para isso. Mas, se nos rasgam o amor que a nós mesmas deveríamos ter antes ainda de nós sabermos o seu sabor, como é que nos levantamos depois da batalha?

Faço parte da chamada “geração rasca” e, no entanto, é a mim e às gerações futuras que cabe apagar de vez com estes papéis doentios que nos tornam infelizes. É à minha e às gerações futuras a quem toca “desenrascarmo-nos” com aquilo que para nós sobrou, porque nós não levamos com o rótulo, nem caímos aqui, do nada. Somos o reflexo da geração que nos criou, uma geração presa entre novos e antigos valores. E há costumes que têm de ser atacados, eliminados à paulada, até termos a certeza de que não se levantam mais.

É altura de ensinar às nossas meninas – e meninos também – que é preciso amar toda a gente, todas as diferenças que não magoam ninguém. Que não há ganho em invejar, mas sim em dar valor ao próximo, em ter a certeza que ele se ama a si mesmo para que possa depois, e só depois, nos amar a nós. É altura de ensinar que em nada se ganha em provar que se é bom apontando que o outro é mau, que a nossa genialidade só vale se a for independentemente dos outros. Que há coisas que são graves, e que um corpo rebuliço que não corresponde aos estandartes de beleza quase impossíveis de alcançar, não é uma delas. É altura de eu ligar para casa a perguntar como determinada pessoa está sem ter de ouvir a resposta básica de que “está mais gorda/o” como se isso fosse um trejeito de carácter que me deveria interessar.  É altura de fazer raparigas de dezoito anos pararem de pensar que vão “ficar para tias” só porque nunca tiveram um namorado, porque se aos vinte e oito anos a vida ainda dá mais voltas do que conseguimos contar, imaginem aos vinte e um.

Os destruidores de amor-próprio colam-se a nós, a tentar apontar o que não temos e não somos e o que isso faz de nós. É altura de nós pegarmos nas gerações vindouras e lhes ensinarmos que o valor próprio só pode ser definido por uma pessoa: eles mesmos.

As gerações anteriores chamam à corrente a “geração selfie,” com o desdém próprio de quem já se esqueceu. Eu proponho que esta geração lhes troque as voltas e se torne a “geração amor-próprio,” a geração “tolerância,” sendo, contudo, também a “geração selfie,” porque é de seu direito usarem o que têm actualmente à sua disposição, sem culpas.  Não sendo narcisismo, não pode magoar ninguém. Se eu me amar a mim própria vou ter amor de sobra para distribuir pelos outros, sem invejas nem más intenções.

Que os seis anos de idade sejam para perder tardes a criar a base de que são feitos os sonhos, sem nos questionarmos mais se seremos bonitos o suficente para que os nossos sonhos gostem de nós.

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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8 thoughts on “Os Destruídores De Amor-Próprio

  1. Magalhães diz:

    Olá, Carina !

    Completamente de acordo ,com esta forma de “estar ” na vida !
    Mas este texto – “Os Destruídores De Amor-Próprio ” ,in “Crónicas Ao Acaso” é da tua autoria ?
    Se sim – os meus sinceros parabéns !
    Gostei muito !
    Beijo,
    José

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