O Homem Que Não Queria Morrer… Morreu

Ou, pelo menos, está comatoso.

Lembram-se de, há uns tempos atrás, eu ter feito um post, este post, a explicar que queria escrever um “livro” este ano? Pois bem, de boas intenções estava esta intenção cheia. Não passei do prólogo desta história. Lá dei voltas à cabeça e tinha uma ideia vaga do que queria fazer com a história, mas acabei por desistir. Para já, quero eu dizer. Não é que tenha abandonado a ideia que me surgiu completamente, mas deixei de fazer um esforço para criar acontecimentos plausíveis que me permitissem continuar a escrevê-la. Um dia hei-de voltar a ela. Não há “escritor” que se preze – mais uma vez entre aspas para amaciar a coisa, escritor é tudo o que ainda não sou – que não tenha umas quantas histórias arrumadas na gaveta para um dia acontecerem.

Mas nem tudo são finados! A verdade é que uma ideia amornou mas surgiam duas ideias novas! A primeira já tem dois capítulos escritos, curtos, e sei exactamente os pormenores da história. hei-de levá-la a bom porto, devagarinho. A segunda está a deslizar como meias sobre chão de madeira. Sei as personagens, sei a história, sei o que quero que aconteça e, mais importante, estou a escrevê-la! Vai devagar, mas vai! Esta quero mesmo acabá-la, e estou ansiosa por fazê-lo.

A última história de que vos falo ainda não tem nome. É narrada primeiramente pela morte e tem como narradores secundários outras personagens bizarras.

Tenho consciência de que a minha ideia de colocar a morte como narrador não é original. O meu livro favorito – The Book Thief – é narrado pela morte. Mas prometo-vos que a história não é em nada semelhante a esse livro, a única coisa que têm em comum é mesmo isto.

Fica aqui o prólogo e agradeço comentários e críticas, são sempre bem vindos.

De resto, vou mantendo-vos actualizados acerca desta narrativa.

*

Prólogo

Morte. É assim que me chamo. Cinco letras, uma palavra só. Não tenho sobrenomes, embora tenha apelidos de sobra. Ouço o meu nome com constância, pronunciado ao vento, às vezes com despreendimento, outras com o murmúrio que antecede sempre a minha aparição. Nunca ninguém me chama o nome com doçura, com o entusiasmo da espera. Quando de mim falam, sem terem sequer cuidado de olhar em volta, para ver se eu estou à espreita, é com desdém, com temor. Não lhes quero fazer mal. Tenho um trabalho. Chamo-me Morte mas, na verdade, não mato ninguém. As doenças matam pessoas, os carros, as balas de aço a perfurar o tórax, os cutelos a rasgarem carne, os próprios orgãos a definharem-se em sacrifício. Eu não. Eu guio, levo. Também não sei aonde vão. Não me cabe a mim abrir portas entre mundos. Cabe-me a mim ceifá-los e fazer-lhes companhia até pertencerem ao lado de lá. Não uso armas, nem força. Não sou bruto. Sou meigo, uso a mesma meiguice com que gostaria que pronunciassem o meu nome, mas aqueles que me chamam sem me quererem dar morada não podem saber isso, por isso não lhes culpo a brusquidão.  Entendo-lhes as razões.

Ando sozinho. Tento fazer amizade com aqueles que partem, mas logo me apercebo da minha contradição. Às vezes nem eu sei que eles vão partir. Sinto-me atraído por eles, e chego-me, fico a planar à sua volta. Nunca me vêem, embora alguns adivinhem que estou perto. Mas então, quando podem falar comigo e me fazem perguntas a que não sei responder, é tarde demais. É sempre tarde demais. Acompanho-os e depois, como se nunca ali tivessem estado, partem. Para o meu nome ser Morte, parece-me que quem vive sou só eu.

Sinto-me só. Creio que hajam outras Mortes, porque vejo às vezes caras, em campas de cemitérios, que não reconheço. Não fui eu quem as levou, não foi meu aquele trabalho. Já viajei por vários lugares, mas nunca encontrei uma Morte senão eu. Uma vez vi o meu reflexo num espelho, pensei ser outra assim, mas não era. Era só eu.

Sou bonito. Não tenho a cara craniana que às vezes vejo pintada nos jornais dominicais. Nem carrego comigo uma segadura, ou manto preto. Como já disse, não sou eu que mato alguém, não de verdade. Eu sou uma consequência de outros homicidas.

Embora saiba que tenho um rosto agradável, não me consigo definir. Não sei dizer se o meu cabelo é longo ou curto, se os meus olhos são expressivos ou cansados. Penso que a minha aparência muda para cada pessoa que me olha. O reflexo que vejo nos espelhos é sempre vago. Só a serenidade, e a beleza, fica lá sempre.

Gostava de ter alguém com quem conversar sobre estas coisas, mas todos partem. O que farão eles com a memória de mim? Descrever-me-ão a outros? Haverão outros?

Ninguém me vê, a não ser os que vão partir. Sinto-me só.

Poderá a Morte morrer também?

*

Carina Pereira

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5 thoughts on “O Homem Que Não Queria Morrer… Morreu

  1. LuísaZacarias diz:

    Falar de Morte não é fácil mas, acabei de ler quem o sabe fazer muito bem. Gostei. Nem eu mesma era capaz de o fazer tão bem quanto TU…”Bruno Felix!” Você a decifrou muito bem em toda a istória, neste seu Prólogo. Carina Pereira
    Parabéns!*****LuísaZacarias

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