Barroco Tropical

Ao fim do meu segundo livro de José Eduardo Agualusa aquilo que me ocorre dizer é que eles me enchem. Não falo de ficar farta, a não ser que farta seja aqui sinónimo de completa, a abarrotar de consolação.

Quando as suas histórias terminam há uma mudança dentro de nós, e já não nos sentimos os mesmos. Sabemos mais, conhecemos mais. As nossas vidas monótonas e sem história misturam-se com as vidas que nos foram dadas, como se cada personagem se colasse a nós e nos mudasse um pouco. É como se de repente também nós tivessemos tido mil amores e desgostos, como se nos ensombrasse a dor da perda mas essa dor nos garantisse também o alívio de sabermos que estamos vivos.

As histórias são intricadas e há partes que, nas palavras de outro escritor, certamente me aborreceriam. Em Agualusa cada frase é um oásis e eu fico sequiosa ainda assim, e quero mais.

Existem amores proibidos também, vidas estranhas que eu, sendo reais, certamente condenaria mesmo sem direito a fazê-lo – cada um vive como quer – mas nesta fantasia tudo parece plausível e as personagens bizarras um lugar-comum.

Barroco Tropical tem tudo o que eu precisava sem saber. A melancolia que envolve o livro pegou-se a mim como uma pastilha elástica se cola à sola de um sapato mal avisado. Apetece-me abraçar as personagens e prometer, sabendo que estou a mentir, que tudo vai ficar bem. Há vidas que eu não quereria viver realmente e, por isso, sinto-me agradecida por ter podido vivê-las assim. Vejo na personagem principal, um escritor, a resiliência humana que só quem vive de tragédias alcança. E gostei disso.

É um livro longo, cheguei até a perder as personagens, tive de parar para as relembrar, mas cheguei ao fim com a certeza de uma história bem contada e cheia, com volume.

O poema de uma das músicas imaginárias presentes no livro acabou por se tornar numa música a sério, que José Eduardo Agualusa escreveu para António Zambujo, o que coloca assim a cereja no topo do meu bolo.

Aqui a deixo, juntamente com as frases que mais me ficaram. E venha o próximo.

*

“Não são sentimentos verdadeiros, ou melhor, têm a mesma verdade que a luz do sol apaziguada por uma cortina. Ainda é a luz do sol, mas já não fere.”

“Vidas como a minha, sem muita vida lá dentro.”

“Fui feliz com ela e suspeito que que nunca a conheci. Teria sido feliz se realmente a tivesse conhecido?”

“Muita coisa aconteceu nesses cinco anos, e tão rapidamente que um belo dia achei-me estranho a mim mesmo, como um cego que de súbito recuperasse a vista diante de um espelho.”

“Cheguei demasiado cedo. Chego sempre demasiado cedo. Até tenho receio de morrer antes do tempo.”

“Há palavras que trazem com elas um universo inteiro.”

“- Morrer nunca é heróico, escritor, heróico é continuar vivo.”

“Certas pessoas, mesmo muito bem calçadas, parecem sempre descalças.”

“O texto era longo e estava tão eriçado de pontos de exclamação que parecia um porco-espinho.”

“Voltando ao princípio. Esta é uma das vantagens da literatura em relação à vida: podemos sempre voltar ao princípio.”

“- Beija-me pela última vez e depois beija-me de novo. Não sabes como eu gosto de te beijar pela última vez. As últimas vezes são ainda melhores do que as primeiras.”

“No geral concluo que a paixão torna os homens muitíssimo mais obtusos do que as mulheres.”

“- Quando olhamos para um espelho, não é o espelho que vemos. O que vemos é a nossa imagem reflectida nele. Você é como um espelho para essa mulher. Ela nem sequer repara em você, filho, está apaixonada pelo próprio reflexo. Do que ela gosta é do seu deslumbramento, gosta da forma como você a vê.”

“À distância não existe paixão que se não pareça com uma catástrofe.”

“O amor é uma estação perigosa

rosa ocultando espinho,

espinho disfarçado de rosa,

a enganosa euforia do vinho, etc.”

“Não era o inferno. Era apenas a mediocridade.”

“Passaram vários anos mas ela mantém intacto o poder de me desarrumar o espírito.”

“As noites estão cheias de estrelas e no entanto vê como são escuras. O brilho das estrelas não ilumina caminho algum.”

“Amo-o tanto que não o quero infeliz comigo. Quero salvá-lo de mim.”

“A minha memória é uma estrada cheia de buracos, e que não leva a lugar nenhum. Trago sempre comigo um álbum de fotografias porque vivo com medo de me perder de mim.”

“Além disso, é verdade: conheço bem a luz que dorme em certas palavras, a noite que se esconde noutras.”

“Há momentos em que só a dor nos prende à vida.”

“O amor é um cão velho e tinhoso, porém obstinado, que nunca desiste. Abandonamo-lo no mato, para morrer de fome e de sede, para morrer de frio, porque queremos que morra, e dias depois ele está de regresso a casa, a abanar a cauda. Enxotamo-lo à pedrada, mas volta sempre.”

“Era a minha sombra, a merda da minha sombra, e as sombras não abandonam nunca os corpos que as projectam.”

“Um homem sabe que está em má situação quando até o riso lhe provoca dor.”

“A luz é tão doce que mesmo atropelada nas ruas pelo furor do trânsito consegue por instantes salvar a cidade do desespero.”

“Nunca sabemos se existe quem amamos.

Mas sabemos que o amor existe.”

“Ela cantava como quem acende o dia.”

*

Carina Pereira

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2 thoughts on “Barroco Tropical

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