Amor Cadente

Saiu correndo atravessando a aldeia, carregando uma camisa mal vestida contra o corpo e o cabelo sublinhando o ar ensonado, espetado em todas as direcções. Bradava, alto e bom som, e à sua passagem as janelas e portas das casas há muito adormecidas abriam-se, libertando a luminosidade dos candeeiros e deixando-a penetrar a escuridão da rua.

Ninguém sabia para onde se dirigia aquela alma penada que de etérea nada tinha e era barulhenta, demasiado barulhenta para as duas horas da manhã que os relógios insistiam em bater compassadamente. Ouviam o que dizia sem conseguirem fazer sentido das palavras. Havia desespero na articulação daquela simples frase.

– Uma estrela caiu do céu!

E repetia, vezes sem conta, voz já rouca, e quem o ouvia era já à distância pois ele não parava para dar a boa-nova, insistia em caminhar em frente, fugindo do que quer que tivesse deixado para trás. O desespero no seu pranto era cristalino mas algumas portas já se fechavam de novo, tomando-o por louco ou ébrio.

Enfim, chegou ao seu destino. Gritando sempre o mesmo prostrou-se de fronte da casa que procurara, sem fôlego e arrumado, a ponto de desistir. A porta esperada abriu-se e um vulto em camisa de dormir olhou em volta, encontrando o homem de joelhos no chão, afogueado, de mãos na cabeça, olhar assustado. Baixou-se e ajoelhou-se ao pé dele, agarrando-o pelos ombros trementes.

– O que foi? – perguntou baixinho, com medo de que a voz o ferisse.

Ele resfolegou, olhando-a bem e amparando-se nela como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira flutuante. Falou em soluços.

– Uma estrela caiu do céu.

E deixando-se afundar mais ante a soleira da porta aguardou, aceitando o seu cansaço, esperando que alguém resolvesse a ameaça mortal iminente.

Ela não compreendeu, franziu mais o sobrolho, colocou uma mão sob o queixo dele, obrigando-o a olhá-la.

– Uma estrela caiu do céu? – repetiu-lhe a afirmação, esperou pela corroboração.

Ao acenar da cabeça dele algumas pessoas juntavam-se, caminhando cuidadosamente, a curiosidade sobrepondo-se ao risco de despertarem o monstro de novo, ao medo de que aquela criatura pudesse cortar o silêncio da noite com estridentes gemidos. Ele recompunha-se e com fervor e medo olhou o céu. Levou um dedo rígido a tocar o tecido nocturno, apontou para o ponto cruz das estrelas.

– Ali mesmo. Uma estrela caiu.

Quem estava mais perto ouviu-o e num acto de reverência encarou o firmamento também, aguardando um milagre que se juntasse ao tom das suas palavras. Não veio.

Ela fê-lo encará-la de novo, e tinha no rosto um sorriso inteiro partido a meio. Metade era doçura e preocupação, metade era compreensão e condescendência.

– As estrelas caem do céu a toda a hora, amor. Chamam-se estrelas cadentes.

Ele baixou o rosto e assimilou a definição que ela lhe entregava com toda a meiguice do mundo. Revirou-a no seu entendimento e deixou-a assentar como pó sobre o seu coração. Ela estava certa, claro. Ele, mal-acordado, desperto de um pesadelo e olhando directamente para fora da janela sem cortina, feito crer que as estrelas caídas do céu eram premonição de maus tempos vindouros. Segurou o rosto nas mãos, voltando a si. Uma estrela tinha caído do céu. Não era atentado contra o seu planeta casa, eram desejos a pedirem para serem arrancados dali.

Os outros, que tinham vindo com esperança na desgraça alheia, abanaram as cabeças à medida que entendiam o que acontecera. Ciciavam a sua loucura, admoestavam o distúrbio das horas de sono e apartavam-se dele com o deleite de uma história para contar no dia seguinte. Tão depressa como tinham surgido da iluminação de suas casas se afastaram, devolvendo à rua a treva.

Ela ajudou-o a levantar-se e sorriu. Ele não a encarou. Ia pedir-lhe o indulto, já a morrer por dentro de humilhação.

– Vem, – rogou ela, entrelaçando-lhe os dedos, chegando-se perto do corpo agora frio para que ele a sentisse, – Vamos fingir que é deveras o fim do mundo.

E ele acedeu e amou-a como se assim fosse, e fez do corpo esguio que ela deixara ruir com um suspiro sobre o dele a sua penitência.

Estrelas caindo do céu não eram milagre nem ruína; o amor dela seria para ele um dia ambas as coisas.

Carina Pereira

in “Estórias Da Minha Aldeia”

Anúncios

2 thoughts on “Amor Cadente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s