Aqui Não Assento Arraiais

Há livros e autores que parecem aparecer quase como uma moda. Não se sabe bem de onde vêm nem como aqui chegaram, mas de repente toda a gente parece conhecê-los. E comprá-los.

Haruki Murakami foi um desses autores, uma versão mais eclética do agora famoso “50 Sombras De Grey.” Não que haja erotismo barato nos seus livros ou a escrita seja oca, mas a adesão às suas obras foi como um vendaval. Toda a gente o lia. No caso do Murakami, toda a gente se sentia mais inteligente e importante por o fazer, como se pertencessem a um grupo selecto e superior.

Há uns anos atrás dois dos seus livros vieram-me parar às mãos, oferecidos por alguém que até nem gosta de ler, mas adora tudo o que tem um laivo de Japão. Os livros oferecidos foram “Sputnik, Meu Amor” e “Dança, Dança, Dança.” Li-os até ao fim porque ainda defendia na altura uma espécie de moralidade que não me permitia começar um livro e não o acabar. Ultrapassei entretanto este gastar de tempo que não provava nada, mas obviamente fiquei-me com as histórias de Murakami, para o bem ou para o mal.

Este último Natal foi-me oferecido mais um livro dele. Desta vez vou lê-lo por respeito à pessoa que mo ofereceu, mas já antevejo o esforçado virar de páginas. Quando penso nos livros do Murakami eles apresentam-se para mim como divisões quase vazias, pintadas de branco, com um sofá branco também e todo angular no centro. Paredes sem decoração. As suas histórias complexas tomam uma forma abstracta na minha mente e, sendo destrambelhadas, eu vejo-as como minimalistas, cheias apenas de caminhos que não vão dar a lado nenhum. Não deixam tinta na parede e sapatos virados ao contrário espalhados pelo chão, como as boas histórias devem deixar, um rasto de que ali estiveram, pois a destruição faz parte do ser-se. São histórias onde é possível morar mas onde não se consegue viver.

“A Peregrinação Do Rapaz Sem Cor” é o livro que tenho em mão. Depois conto-vos se este sofá permite a letargia ou se é demasiado impessoal para eu me confortar nele.

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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4 thoughts on “Aqui Não Assento Arraiais

  1. contadordestorias diz:

    Ainda não o comecei! Na volta ainda o levo comigo para Portugal de férias, lá não tenho outras distrações por isso lê-se qualquer coisa. Agora ando a ler “O Vendedor De Passados” do José Eduardo Agualusa e já estou a adorar, tem uns pormenores na escrita que gosto muito! 😀

    Liked by 1 person

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