O Mia Couto Que Me Ficou

Quando andava no liceu, e porque o frequentei na Póvoa de Varzim, havia sempre alguma circunstância com as “Correntes D’Escritas” que é um encontro anual entre escritores de língua Portuguesa e Espanhola, que se dá nessa minha maravilhosa terra.

Como eu fazia parte do curso de Comunicação Social da área de Humanidades da escola Eça de Queirós, a nossa turma e mais algumas foram conbrigadas a assistir a uma palestra com dois dos vários autores que iriam comparecer no evento desse ano.

Para os professores era um momento importante, claro está; para os alunos haviam os que se estavam nas tintas para aquilo e outros que, como eu, estavam interessados em qualquer coisa que envolvesse livros e escrita, mas também não havia euforia a comandar-nos.

Nessa altura as minhas leituras ainda se confinavam muito aos mundos de Agatha Christie e Nicholas Sparks, Nick Hornby e poesias de David Mourão-Ferreira, trabalhos traduzidos de Shakespeare e Calvin & Hobbes. Aguentei ainda Danielle Steel por dois livros até entender que ela colocava demasiadas vidas numa história só para a novela me entusiasmar mais do que aquilo que me aborrecia.

Dos dois autores convidados recordo-me apenas de um dos nomes: Mia Couto. Não sabia quem ele era nem tinha nunca antevisto as suas histórias, mas achei-lhe engraçado o nome. Assisti à palestra com interesse moderado mas Mia Couto marcou-me até hoje. Contou-nos uma história. Por estranho que pareça não me recordo das suas palavras. Recordo-me que era um ensinamento que a ele tinha chegado através de um homem de barba, mas mais não sei. Aquilo que me ficou daquela história foi a emoção mal-contida das suas palavras, o sentimento que colocou em cada frase que teceu e o quanto eu me senti enlaçada no ambiente que ele criou com essa fábula verídica.

Mais de dez anos depois – tenho agora 28 – peguei no primeiro livro que Mia Couto escreveu – “Terra Sonâmbula” – e decidi conhecer a imaginação deste contador de histórias, que me marcou sem eu me lembrar sequer no que as suas palavras se traduziram e que moral havia a recolher dali.

De “Terra Sonâmbula” levo primeiramente as novas palavras que aprendi. Mia Couto é Moçambicano, e se machimbombo me sabe a casa, há outras coisas que mereceram pesquisa. Mas a sua escrita é bonita e corre, apoiada nessas palavras. Ainda me falta digerir o final da história que sendo duas é uma só, e ter a certeza que o compreendi bem. Mas deixo aqui as frases que sublinhei – metaforicamente – e que merecem ser partilhadas.

Agora quero ler mais Mia Couto, quero recuperar a emoção que ele trouxe áquelas “Correntes D’Escritas” e, quem sabe um dia, ouça de novo a história que a acompanhou e, da qual me esquecendo, me marcará toda a vida.

*

“- Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.”

“E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro.”

“Aquele lugar lhe deixava um frio interior. Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que perdemos ao nascer.”

“Tudo o resto se passou em silêncio como se perto já não se escutassem. O amor que trocaram é assunto para duas vidas inteiras, abandonadas para sempre num barquito sem rumo.”

“Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar.”

“Fui para o convés, molhado até dentro dos olhos.”

“Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam.”

“Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos.”

“Até ali me distraíra nesse estar contente sem nenhuma felicidade.”

“Precisava salvar Farida porque ela me salvara da miséria de existir pouco.”

“A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.”

“As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito.”

“Afinal, em meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs?”

“Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de vir.”

“Agora, já o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor da carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável.”

“Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.”

“Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós.”

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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