Casa

Ainda te encontro agarrado às minhas palavras

E sabes-me à cinza de uma casa que ardeu

E essa casa era minha.

Agora não resta nada senão o rasto dos meus livros

E das minhas entranhas e de todas as coisas que possuí

Espalhadas pelo chão,

Encharcadas pela vã esperança de as salvar

E pela culpa de adquirir coisas tão frágeis.

Frágeis como o nosso amor.

Vejo-te, acho-te nas ruínas da madeira

Lambida pelas labaredas;

És a parte queimada que se serra com reticência

Para salvar o que ainda tem remédio.

Ainda assenta o teu cheiro como orvalho

Sobre as flores que plantei,

Para encher jarras de um amor

Que tu nunca cultivaste.

Já não sou inquilina desta casa,

Nem desejo manter nela razões

Para permanecer no passado e querer aqui voltar;

Hoje vou-me embora

E fecho a porta.

Não dás por eu partir.

Carina Pereira, 24 de Fevereiro de 2015

in “Raízes”

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