Vincent Van Gogh

Pudera eu condensar na minha arte

Todas as camadas de que é feito o céu,

E mostrar que também na claridade do dia

Cabe a surda cegueira do bréu.


Pudera eu mostrar as ardentes estrelas

Tal e qual as vejo e imagino,

E encontrar um pedaço de sossego

Ao dissecar este ofuscante fulgor que não domino.


Quisera eu contar os monstros que em mim vivem,

Atemorizá-los para terem medo do que sou,

Mas sem forças deixo-os tornarem-se mais eu,

E eles fundem-se comigo;  eu vou.


As cores que eu vejo não são de mais ninguém,

E os pesadelos que me habitam são só meus.

Quisera eu que o meu coração derramasse tinta vermelha,

Pudera assim essa tinta deixar de ser etérea,

E os olhares que me acusam terem pena de eu ser eu.


As cores que vejo são fulgentes

E o mundo em que habito não as abraça, não as entende.

Os pigmentos esplendorosos deste universo gritam bem no meu centro,

A minha tristeza não acaba nesta tela em que pinto:

Não vem de fora; rompe de dentro.

Carina Pereira, 14 de Fevereiro de 2015

in “Raízes”

The Starry Night, 1889

“A tristeza durará para sempre.”

Vincent Van Gogh, últimas palavras.

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