Títulologia

Quanta importância têm os títulos?

Para mim são o mais difícil de inventar. Tenho um texto ou poema completo mas falta-me o nome, o nome certo, o nome que condense a matéria de que aquele trabalho é feito. Dar o nome a uma obra nossa é quase como dar um nome a um filho, mas sem a responsabilidade de alguém nos odiar mais tarde por isso. Tem de soar bem aos nossos ouvidos, ou ser um nome original, ou até mostrar o nosso apreço por alguém ou alguma coisa.  Mas os títulos, tal como os nomes e as pessoas, mentem. Os títulos dão-nos a ilusão do conteúdo, mas por vezes a ilusão não passa disso mesmo.

“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.” Um título simples, conciso, que serve quase como resumo do que vamos ler. Não conta por si só uma história, mas apresenta de quem a história fala. E nós vamos lendo, embalados pela bela escrita, pela magia das coisas impossíveis, pelo pequeno toque no coração que muitas histórias infantis novamente nos dão.

É mentira. Desde o título à melodia da escrita, a beleza que nos cativa é a felicidade que antecede o pior. “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” não é uma história feliz. Engana-nos com promessas de amor eternas, com a luta contra todas as desigualdades e no final derrota-nos.

Eu continuo a achar que a culpa do meu desengano é do título. Um livro chamado assim, envolto num cachecol de lã tricotado com carinho, não tem direito a ser triste.

Jorge Amado faz-nos amar as palavras, entrega-nos uma história cheia de afecto, que escreveu como presente para o primeiro aniversário do seu filho. E depois, no final, entrega-nos a vida como quem nos apresenta a exorbitante conta que sucede um delicioso repasto.

Não convém, no entanto, é esquecermo-nos do Rouxinol. A Andorinha Sinhá ainda tem o amor do Gato Malhado e o Gato Malhado tem ainda o amor da Andorinha Sinhá. Mas o Rouxinol, esse tem apenas um casamento de fachada que ganhou pela força das circunstâncias e nenhum coração que lhe pertença.

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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7 thoughts on “Títulologia

  1. contadordestorias diz:

    Eu li o livro que menciono no texto anteontem e quando cheguei ao fim senti-me mesmo triste. E apercebi-me que a razão de eu nunca imaginar um fim assim se tenha devido ao título. Mas tem razão, os títulos são um pouco como as capas dos livros, ajudam a chamar a atenção mas se o conteúdo não for bom de nada servem! 🙂

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  2. Carla Sousa diz:

    Gostei imenso do texto, Carina! Parabéns pelo modo como associa a dificuldade pessoal de atribuir títulos e a referida obra do Jorge Amado. “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” faz parte dos meus livros preferidos! O facto de o ter leccionado há cerca de 14 anos a alunos do 8.º ano tornou-o ainda mais especial.

    Bejinhos*

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    • contadordestorias diz:

      Muito obrigado! O texto era para ser apenas uma crítica ao livro – que adorei – mas acabou por se tornar uma espécie de crónica, porque me senti mesmo bastante enganada pelo título! 😀 Fico contente que tenha gostado e imagino o quão bom deve ser ter a oportunidade de ensinar a outros sobre o livro, mostrar o quão mágico ele é! Obrigado por perder um bocadinho do seu tempo a deixar um comentário!

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