Relatividade

O relógio da estação de comboio marca as 14h37 e enquanto o ponteiro dos segundos vai rodando, inexorável e preciso, uma voz faz-se ouvir pelo intercomunicador.

“O comboio das 15h00 encontra-se uma hora atrasado devido a problemas na linha. Para mais informações e devoluções por favor diriga-se ao guichê frontal. Pedimos desculpa pelo incómodo.”

A voz vem nasalada e os ouvidos afiam-se para a entender. A mensagem pára por ali, seguida de um clique e alguma estática.

A Luísa suspira e mesmo ali ao lado outro suspiro é dado baixinho, num tom diferente. Este é a resignação da Rita, que é sempre silenciosa, mesmo quando enraivecida. Ela torce as mãos uma na outra ainda mais e pousa a mala de vez sobre o chão de cimento.  A Luísa senta-se no banco que a Rita já ocupa e liberta a bolsa que trazia tão apertada junto de si.

A Luísa e a Rita encontram-se agora no mesmo lugar, à espera do mesmo comboio, as duas sem nada mais em comum a não ser a demora do mesmo e a decisão de aguardar que ele chegue. O relógio bate agora 14h38 para ambas, mas passa diferente para cada uma.

Depois de seis meses de espera, a Rita tem a viagem marcada, o final da mesma com vista para uns braços que há muito anseiam senti-la também. Nos entretantos que se contam entre o romance ter começado e este dia onde ela aguarda um comboio atrasado no banco da estação, existem cartas e mensagens, telefonemas tardios e saudosos, promessas, esperanças e anseios. A cada tique-taque do relógio o coração dela bate apressado, sem conseguir fazer, mesmo assim, o tempo acompanhá-lo.

O suspiro da Luísa fora de alívio, o peso do mundo a sair de cima dela por momentos. Não quer ir. Por ela ficava ali para sempre, sentada no banco de metal frio à espera de um comboio que podia nunca mais chegar. O relógio bate mais depressa por minuto do que o minuto que normalmente é um minuto costuma bater. Tiquetaqueia com um baque surdo que ela sente nos ouvidos de cada vez que tenta humedecer a garganta que já há horas se fechou. Não quer ir porque o que a espera é o vazio de uma casa outrora cheia e os ecos do que em tempos tinha em abundância, mas nada mais do que isso.

Ambas estão sentadas em lados opostos do mesmo banco, mãos sobre o colo, apertadas. Esperam um comboio atrasado e anseiam por algo diferente, mas são na mesma medida servas do tempo, da sua passagem e da incapacidade de lhe mudar o passo.

Às 16h00 o comboio que era das três chega, pontual no seu atraso. A Rita levanta-se com satisfação e pega na mala e entra na carruagem mal a porta se abre, como se isto fosse capaz de acelerar também o andar do comboio que aguarda os passageiros, ronronando. A Luísa entra atrás dela e senta-se na sua frente, mala de novo apertada contra si. A Rita sorri-lhe, de coração leve, e a Luísa responde ao sorriso de forma breve. Depois fitam a janela, com demasiado em si próprias para serem capazes de se concentrar noutra coisa senão na paisagem e no que as espera quando chegarem aonde esta viagem as leva.

O comboio parte, deixando para trás a aldeia e a estação e os bancos, portadores de histórias que a ninguém contam, que com ninguém partilham. A Rita e a Luísa nada têm em comum senão aquela viagem, aquela espera e a vista da janela.  E o tempo, que é o mesmo sem o parecer.

O tempo vai puxando as cordas dos seus fantoches, retesando-as à sua mercê. E nós contámo-lo ainda assim, atados à impressão da sua relatividade.

Carina Pereira

in “Estórias Da Minha Aldeia”

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