Os Dias De Hoje Em Dia

Hoje o texto de opinião vem com uma nuance um pouco pessimista. Não gosto de assombrar os dias solarengos de ninguém, por isso aguentem-se que a peça não é trágica.  Falo sobre a tão conhecida “generation gap,” termo que vai ser abusado e ajustado, à minha mercê, pois não descreve bem o que quero, mas é o melhor que encontro.

Em qualquer tertúlia, quando nos sentamos à volta de uma mesa, ou fazemos uma rodinha num canto de uma sala e falamos do tempo e das coisas, vem sempre à baila o descontentamento com a situação actual. Não me refiro estritamente à situação económica, ou política, mas a qualquer situação menos boa que acontece. Roubaram o carro a alguém, enganaram os trabalhadores de uma fábrica centenária, aqueles dois que ainda ontem se casaram e hoje estão separados. Sempre que num destes assuntos se toca – e aparecem sempre, porque quando se ultrapassa a conversa de circunstância do tempo e da vida, os assuntos “trágicos” sucedem-se, que o povo também gosta de se queixar – a típica frase sempre surge, como que colocando um ponto final na história: “Isto hoje em dia…”

Não há nada que me faça ficar tão chateada como esta frase. Pronto, está bem, há várias coisas que me deixam bem mais chateada do que esta frase, mas esta eu não consigo deixar passar. Esta frase, assim tão típica, tão conhecida e repetida, que é dita no acto reflexo de quem diz “é assim a vida,” antes de se despedir de um conhecido de rua com alívio porque aquilo significa que a conversa finalmente acabou, faz-me logo bater com a mão na mesa e, em jeito de advogado de defesa, exclamar: “Objecção!” e logo vou eu citar de memória a sabedoria de Sócrates, proferida em 469 A. C.:  “As crianças de hoje adoram luxo, são malcriadas, ignoram a autoridade, desrespeitam os mais velhos e amam conversar em vez de se esforçar. As crianças de hoje são tiranas, sem colaborar na família. Pensam apenas em si mesmas, não aceitam proibições e falam como se soubessem tudo. No caso das meninas, elas são avançadas, indecentes e pouco femininas no falar, no comportamento e no vestir.”

Bem sei que os exemplos que dei antes de Sócrates aparecer não têm tanto a ver com gerações e sim com uma visão da sociedade, mas permitam-me usar o termo agora e entendam ao que me refiro: aldrabões sempre os houveram, má-educação e amores que no fim não o são, também. Ser-se mais ou menos decente depende dos tempos, que se mudam assim como as vontades, já dizia Camões. Por isso, quando encolhem os ombros num acto de resignação e me dizem que este mundo de agora é isto ou aquilo, geração rasca ou chiclete, eu não consigo acenar com ar de sabedoria e concordância e terminar a conversa assim.

Esta geração não é pior; cada indivíduo que a compõe é-o com certeza em algumas coisas, mas é  também melhor noutras. Nesta geração não há pessoas mais estúpidas, mais preguiçosas, ou mais mal-educadas do que nas outras gerações. A mesma estirpe de indivíduos – bons e maus, e mais ou menos – sempre existiu em todas as eras, e vai existir sempre. Dizer o contrário é escolher o caminho fácil e ver só o que se quer. As pessoas crescem, envelhecem, e os outros alteram-se aos nossos olhos. E sabemos mais do mundo, e das coisas más que com ele vêm. Mas se guardamos o que um dia fomos e nos damos ao trabalho de olhar para trás, sabemos também que a mudança é tanto nossa quanto do mundo e dos outros. Não é uma questão do que é agora apenas, mas de quem nós agora somos, porque nós estamos em constante mudança.

Generation gap para mim é perda de esperança. É não querer dar aos outros, mais novos e menos experientes, ou mais velhos e mais cautelosos, o crédito que um dia desejámos que nos tivessem dado, e vamos desejar que nos dêem no futuro. É a hipocrisia e a falta de senso de achar que somos melhores, mas vivemos numa época onde os outros – e o mundo – são piores.

Eu não sou dos velhos tempos porque pertenço ao agora e não acho que a este tempo lhe faltem valores. Só sei que o mundo é, foi, e sempre será feito de pessoas e de tudo o que elas trazem consigo. E isto hoje em dia não é só dos dias de hoje.

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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