Como Mel Sobre Algodão Doce

A metáfora em si, dissecada, revista, analisada, não faz sentido. No entanto, quando uso esta expressão para explicar ao que me soa a voz de António Zambujo, parece encaixar perfeitamente.

Ora vejamos, – e vou dar-me à liberdade de dissertar sobre o meu cantor predileto, pois ainda não escrevi nenhum artigo sobre ele, e isso é quase um sacrilégio. Mas adiante, ora vejamos: eu não gosto de mel a não ser que o tenha previamente dissolvido em leite quente, como opção primária para me acalmar a garganta que arranha quando o inverno me ataca e os químicos são ainda desnecessários; gosto de algodão doce, que se assemelha a uma nuvem e deixa as mãos pegajosas, mas a alma reconfortada. E colocar mel no algodão doce é arruinar o segundo sem favorecer em nada o primeiro. No entanto, a melífluidade de colocar mel sobre algodão doce sugere-me algo brando, delicado, com sabor a casa, e a voz de Zambujo é isso tudo. Meiga, envolta em ternura, que entra assim no ouvido e estabelece-se logo no coração.

A voz de Zambujo entranha-se sem nunca se estranhar. E, ao contrário de mel sobre algodão doce, não vive de metáforas, nem precisa de ser dissecada. Ouçam, vai servir-vos de bálsamo para a alma.

in “Crónicas Ao Acaso”

Carina Pereira

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