Brinquedo

Hoje escrevi e compus mais uma música. Compus não é bem a palavra certa. Como se chama quando escreves uma letra e lhe arranjas uma música mas a melodia é criada apenas pela tua voz, sem qualquer conhecimento musical ou uso de instrumentos? Será que isso tem sequer nome? Bem, se tem, foi isso que fiz.

A letra fica aqui para já. Quando voltar de férias – vou a Londres passar o Natal oohooh! – lá hei-de arranjar forma de gravar a melodia da música, o que será basicamente eu a cantar para o meu gravador, como já fiz antes com outras letras que criei.

Eu acredito que escrever letras para músicas é tão contar uma história como o é escrever um conto. Da mesma forma, é fácil para mim colocar-me na pele de personagens que não têm nada a ver comigo, que não são em essência nada eu.

Nesta letra a voz é dada a um homem que vai amando uma mulher quando ela o quer – e quando ela não o quer também. Vai agarrando o amor que lhe é dado, mesmo que o desamor venha logo a seguir. Ele é um corpo de aluguer a quem nunca pagam renda, e de cada vez lá vai reparando os destroços deixados, para preparar a casa para a próxima tão ansiada – quanto receada – visita. Ele ama quem o deseja sem nenhum desejo de o amar.

*

Roubas-me a camisa e sorris atrevida

E no entretanto levas-me o coração

E eu feito pateta

Fico a fazer contas à vida

Vou atrás de ti quer queira quer não

Rasgas-me o fato

Deixas-me de rastos

E de seguida desapareces na noite

E eu fico sozinho

A querer algum carinho

Sou um brinquedo nos teus dedos ágeis


Vais quando te fartas, voltas sem remorso

E fazes de mim um trapo gasto e usado

Eu vejo-te partir e espero-te ansioso

Renego o aviso do coração queixoso


Um dia hei-de dizer-te adeus

Fechar a porta, encerrar a nossa história

Mas hoje não, hoje quero-te minha

Vê se não te demoras


Danças com ele a olhar para mim

Mas quando te imploro negas-me o pedido

Fico sozinho até a música cessar

Depois vou para casa, gélido, morto, ferido

Bates à porta sempre de mansinho

E entras no meu peito em bicos de pés

Vens com o seu cheiro amar-me em torvelinho

Tu és a lua e eu uma maré


Sou brinquedo nas tuas mãos hábeis

Manuseias-me sem qualquer cuidado

E quando eu me ponho inteiro

Lá vens tu de novo para fazer mais estrago


Um dia hei-de dizer-te adeus

Fechar a porta, encerrar a nossa história

Mas hoje não, hoje quero-te minha

Todinha, fora de horas,

Vê se não te demoras

Carina Pereira

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