Jornal De Amor

Na primeira noite de um Outubro gélido como há muitos anos não se sentia, Ana saiu de casa à socapa, com o poncho cinzento escuro a cobrir-lhe os ombros.  Ia sem pressa e com objectivo, olhando em volta para a ter a certeza de que ia só.

Os seus pais dormiam a sono solto desde as dez da noite mas o gato era astuto e Ana receava que desse algum sinal da sua ausência. Por isso, prendeu-o no seu quarto, esperando que o acolhedor conforto da sua cama fosse chantagem suficiente para ele manter a discrição.

O sino da igreja tocou a meia noite e Ana enrolou-se mais em si própria, acelerando o passo. Ao longe já via o cruzeiro, uma marca quase indistinta por entre o nevoeiro. Aproximou-se. Avistou a pedra quase imediatamente; não era proeminente, quase parecendo fazer parte da calçada, mas Ana sabia do que estava à procura. Olhou em volta e, confortada pela solitude da rua, baixou-se, retirou o papel dobrado cuidadosamente em quatro que a pedra tão útilmente pisava e escondia. Guardou-o prontamente no bolso, rodou sobre os calcanhares sem demora e regressou pelo mesmo caminho.

Abriu a porta de casa com a própria chave e o tipo de aptidão silenciosa que a prática cria e recolheu-se para o quarto.  O gato, aos pés das cama, virou os olhos para ela no jeito desinteressado dos felinos domesticados.

Ana retirou o papel do bolso e leu a mensagem escrita numa caligrafia aranhiça mas cuidada. Quanto mais lia mais o seu peito se apertava, e chegou ao fim daquelas poucas linhas com uma frustração crescente.

Cartas de amor. A velha música pergunta quem as não tem e Ana gostaria neste momento de responder que ela não, que ela nunca as teve, nem quer. No entanto, o papel que ela já amarrotou e atirou para cima da cama conta uma nova história, coloca Ana no lado afirmativo da estatística. As palavras são simples, honestas. Ana abana a cabeça, bufa e com impaciência pega no gato e coloca-o fora da porta. Ele mia, mas ela vira as costas sem ligar ao seu protesto.

Isto não fora o combinado. O que lhe tinham prometido, entre bilhetes anónimos empurrados para dentro do seu cacifo de metal, pelas pequenas frinchas da porta, tinha sido uma notícia, uma confirmação e prova de um rumor, o ponto que faria o jornal da sua escola mais do que trabalho amador, e a ela mais do que uma aspirante à popularidade e respeito do seu liceu. Aquilo mudava tudo. Tinham-lhe mentido, dado falsas esperanças e indícios, e agora ela via-se ali, com uma carta de amor – a sua primeira – e um artigo a menos para escrever.

Susprirou, vestiu o pijama, e colocou a carta de amor no lixo antes de se deitar. Haviam de pagá-las.

Carina Pereira

in “Estórias Da Minha Aldeia”

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