Um Portugal Mais Meu

Sou Portuguesa. Nasci na Póvoa de Varzim, distrito do Porto, em ’87. Hoje vivo na Bélgica e hoje o cante Alentejano foi eleito Património Imaterial da Unesco.

Nunca fui de mostrar grandes saudades, de deixar o adeus a meio. Deixei Portugal porque quis, e foi melhor assim. Mas o Português cá fora sabe melhor. O Português cá fora entranha-se na aprendizagem de uma língua nova, no enrolar dos sons guturais e da incompreensão. Portugal torna-se mais nosso, mais orgulhoso de si mesmo. Portugal, de que nos queixamos e estamos tão cheios, de repente falta-nos nos trocadilhos que não fazem sentido e no esforço de traduzir, sem graça, os nossos. Falta-nos na troca da torrada e natinha com o galão por uma chávena bem servida de café aguado e bolachinhas boas. Falta-nos na corrida às lojas para vir de mãos vazias de coisas que tinhamos como certas e nem sequer dávamos valor. Falta-nos como a palavra saudade falta a tantos.

A música que nos chega aqui como um filho pródigo a quem nunca vestimos túnica, vem nas ondas do éter para desinfectar a ferida, mas ao mesmo tempo colocar-lhe sal. São tantos, alguns tão novos, mas tão bons. Nem sei por onde começar mas como sou parcial, vou pelos meus favoritos, sem ordem certa. António Zambujo. Camané. Ana Moura. Rui Velozo e Mariza. E os jovens também, que já têm um posto merecido: Miguel Araújo, Luísa Sobral, e tantos de quem não me esqueço mas faço de conta para a lista ficar curta. As cantigas estoiram nas aparelhagens, – eu nem sequer tenho rádio em casa, mas aparelhagem é bem mais romântico que mp3 – mas vêm aquecer o coração com um sussurro familiar. Estas palavras eu conheço, mesmo que às vezes tenha de puxar por um dicionário para saber na íntegra o que significam, e são minhas por direito. São lamechas, ridículas, como todas as cartas de amor, mas são minhas, com pronomes possessivos, artigos demonstrativos. Esta é a minha saudade, e só eu a tenho.

A minha melancolia vem da falta do que em Portugal tinha com fartura. Do perceber que os vocábulos que eu pronunciei a jorros durante anos, podem ser conjugados tão subtilmente, que de repente o Português se torna mais do que uma língua. É um espólio pessoal, uma amálgama de quadras soltas e castiças que tantas vezes se escondem em fados corridinhos, acompanhados de palmas e ovações de pé mais do que merecidas.

Cá fora, tudo se torna mais nosso, porque o orgulho das coisas que os outros não entendem em muito ultrapassa o embaraço das coisas que nos fizeram partir. Cá fora somos todos mais Amália, porque a emoção da nossa música toca até as almas dos que não compreendem as letras.

Não deixaria de acenar um adeus a Portugal se tivesse de tomar de novo essa decisão hoje. Mas gostaria de ter amado mais o que era meu quando ainda estava à distância de uma viagem de carro, do abrir da porta de uma padaria, do comprar de um bilhete para o Coliseu.

Carina Pereira

in “Crónicas Ao Acaso”

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